Na véspera do segundo turno presidencial, pesquisa Datafolha divulgada neste sábado (24) mantém o país em suspense: Flávio Bolsonaro (PL) aparece com 51% dos votos válidos e Lula (PT) tem 49%, diferença que coloca os dois em empate técnico dentro da margem de erro e deixa a disputa totalmente aberta.
O levantamento ouviu 4.050 eleitores em 124 municípios brasileiros entre quinta (23) e sábado (24), com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%. Nos votos totais, que incluem brancos, nulos e indecisos, Flávio tem 48% e Lula, 47%; 3% pretendem votar em branco ou nulo e 2% ainda não sabem em quem votar.
Alta decisão e disputa voto a voto
O Datafolha mostra um eleitorado praticamente cristalizado. Segundo o instituto, “95% dos eleitores dizem que estão totalmente decididos e que 5% ainda podem mudar o voto.” Entre os eleitores de Lula, 96% afirmam estar certos da escolha; entre os de Flávio, 95%.
Na motivação do voto, o apoio é majoritariamente positivo para os dois lados. “Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, 67% votam porque o consideram a melhor opção e 21% votam para derrotar Lula. 82% dos eleitores de Lula votam nele por considerá-lo o melhor candidato, e 10% para derrotar o adversário.”
A rejeição dos dois candidatos é alta e muito próxima. De acordo com a pesquisa, “a rejeição de Flávio Bolsonaro é de 45%, e Lula, de 46%.” Outros 2% rejeitam ambos e 6% não rejeitam nenhum.
Quem lidera em cada grupo do eleitorado
A divisão do eleitorado segue um padrão claro por gênero, religião, escolaridade, idade e região. Em texto de análise, o Datafolha resume: “Flávio lidera entre homens (56% a 44%), eleitores de 35 a 44 anos (54% a 46%), com ensino médio ou superior (55% a 45%), evangélicos (70% a 30%) e moradores do Sul (65% a 35%) e Sudeste (55% a 45%). Lula tem vantagem entre mulheres (54% a 46%), jovens de 16 a 24 anos (54% a 46%), eleitores com ensino fundamental (60% a 40%), católicos (56% a 44%) e no Nordeste (67% a 33%).”
No maior colégio eleitoral do país, o Sudeste, a vantagem de Flávio é considerada estratégica pelas campanhas. Já o Nordeste continua sendo o principal reduto de Lula, onde o petista tenta ampliar a diferença para compensar desvantagens em outras regiões.
Entre jovens de 16 a 24 anos, grupo em que a abstenção cresceu no primeiro turno e passou a preocupar os partidos, Lula está à frente numericamente. Esse segmento tornou-se alvo de campanhas específicas nas redes sociais e em atos de rua organizados sobretudo por estudantes.
Entenda o que são votos válidos e propensão ao voto
O cenário principal da pesquisa é medido em votos válidos, mesmo critério usado na totalização oficial da eleição pelo Tribunal Superior Eleitoral. Como define o próprio tribunal, “é a forma como o TSE divulga o resultado oficial das eleições.” Nessa conta, entram apenas os votos dados a candidatos, sem brancos, nulos ou abstenções.
Pela primeira vez, o Datafolha também apresenta uma projeção que cruza votos válidos com a propensão de o eleitor comparecer às urnas. O modelo leva em conta a distância até o local de votação e se a pessoa foi ou não votar no primeiro turno.
Esse recorte divide o eleitorado em dois grandes grupos. Entre os 76% com alta propensão a votar — quem mora perto da seção eleitoral e compareceu na primeira etapa — Flávio lidera com 52% contra 48% de Lula. Já entre os 24% com baixa ou média propensão, onde estão quem faltou ao primeiro turno e quem vota longe de casa, Lula inverte e aparece com 52%, ante 48% de Flávio.
Na prática, o dado reforça a importância da mobilização final: quanto maior a presença nas urnas de segmentos mais próximos de Lula, maior a chance de o quadro real se aproximar da vantagem que o petista tem entre eleitores de menor propensão ao voto. O inverso vale para Flávio, que chega ao domingo em vantagem entre aqueles com maior tendência a comparecer.
Impacto da abstenção e foco nos jovens
A abstenção de 21,08% registrada no primeiro turno segue no radar das campanhas. Entre jovens de 21 a 24 anos, ela chegou perto de um quarto do eleitorado, o que acendeu a luz amarela especialmente no entorno de Lula, mais forte entre os mais novos e entre os eleitores de menor renda.
Na reta final, o PT investiu em mobilizações presenciais e digitais voltadas a esse público, com forte presença em redes sociais e participação de artistas e influenciadores. A campanha de Flávio, por sua vez, intensificou ações com influenciadores conservadores, pastores e lideranças regionais, buscando consolidar a vantagem entre homens, evangélicos e segmentos de renda e escolaridade mais altos.
Debate da Globo não muda cenário
O debate entre Flávio Bolsonaro e Lula na TV Globo, realizado na noite de sexta (23), não alterou de forma significativa o quadro eleitoral, segundo o Datafolha. As opiniões ficaram divididas: 36% dos entrevistados apontaram Lula como vencedor e 36% citaram Flávio.
O levantamento indica ainda que 54% dos eleitores assistiram ao encontro, inteiro (28%) ou em parte (26%), e 46% não viram. Para 98% dos entrevistados, o debate não foi suficiente para mudar o voto; apenas 2% dizem ter revisto a escolha depois do programa. Em avaliação interna, o instituto registra que “o debate na Globo ocorreu sob forte expectativa… O encontro teve mais ataques mútuos do que propostas, mas foi bastante mais comedido do que o anterior.”
Atuação do TSE e clima de reta final
Ao longo da semana, o Tribunal Superior Eleitoral foi provocado a se manifestar sobre ações de campanha e uso de canais digitais. Em um dos episódios, relacionado a uma iniciativa lançada por Lula em um debate anterior, “o tribunal foi instado a se posicionar sobre um estratagema lançado por Lula no debate do domingo (18) na Band… O TSE resolveu a questão dizendo que ambos eram livres para fazer o que quisessem, sem interferência judicial.”
O tribunal mantém o foco na legalidade e na transparência do processo, evitando decisões que possam ser interpretadas como interferência direta nas estratégias das campanhas na reta final. A pesquisa está registrada no TSE sob o código BR-09540/2026.
Com um quadro de empate técnico, alta taxa de decisão e diferenças amarradas a grupos específicos do eleitorado, as próximas horas serão decisivas para a capacidade de cada campanha de levar seu eleitorado às urnas e de convencer a pequena fatia de indecisos que ainda sustenta o equilíbrio desta eleição.