A reeleição de Lula, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), teve uma resposta imediata do mercado financeiro. Nesta segunda-feira (26), primeiro pregão após a vitória sobre Flávio Bolsonaro (PL), o dólar chegou a R$ 5,60, a Bolsa sofreu uma forte queda e a B3 precisou interromper as negociações.
A turbulência expôs o tamanho da frustração de investidores que apostavam em uma mudança de governo e esperavam uma política econômica mais comprometida com o controle das despesas públicas.
O movimento chama a atenção não apenas pela intensidade, mas pelo que revela sobre as expectativas para os próximos anos. O resultado das urnas está definido. Agora, o mercado quer saber como Lula pretende conduzir a economia, equilibrar as contas e recuperar a confiança de quem investe no país.
Dólar a R$ 5,60 e Bolsa: o que aconteceu nesta segunda-feira?
A moeda americana chegou a R$ 5,6048 durante o pregão. Às 13h58, uma cotação consultada apontava o dólar comercial em torno de R$ 5,44, ainda com forte valorização no dia. Em um mercado tão volátil, os números mudam rapidamente e precisam ser associados ao horário da consulta.
Na Bolsa, a queda do Ibovespa ultrapassou 10%, levando a B3 a acionar o circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações quando as perdas atingem determinado limite. A última vez que a ferramenta havia sido utilizada foi em março de 2020, no início da pandemia de Covid-19.
A comparação ajuda a dimensionar o nervosismo dos investidores. Não significa, porém, que o Brasil esteja diante de uma crise equivalente àquela provocada pela pandemia. O que houve foi uma reação intensa a uma mudança nas expectativas políticas e econômicas.
Antes da eleição, parte do mercado apostava na vitória de Flávio Bolsonaro e em uma orientação econômica mais favorável ao ajuste das contas públicas. Com a reeleição de Lula, investidores começaram a rever suas posições, vendendo ativos brasileiros e buscando proteção diante da incerteza.
Por que a vitória de Lula preocupa o mercado financeiro?
A principal preocupação está nas contas públicas. Investidores querem entender como o governo pretende financiar seus compromissos sem permitir que a dívida cresça de forma difícil de sustentar.
O receio é que a manutenção de despesas elevadas, sem receitas suficientes ou medidas de controle consideradas confiáveis, aumente a desconfiança sobre a capacidade do país de equilibrar o orçamento. Quando isso acontece, o risco percebido pelos investidores sobe, e o Brasil pode precisar oferecer juros maiores para atrair recursos.
A expectativa em torno de Flávio Bolsonaro era diferente. Parte dos investidores via sua candidatura como uma possibilidade de mudança na condução econômica, com maior ênfase na contenção de gastos e em reformas. A derrota frustrou essa aposta e provocou uma reavaliação rápida dos preços dos ativos.
Isso não quer dizer que o mercado esteja sempre certo ou que uma queda da Bolsa seja uma avaliação definitiva sobre o futuro do país. Os preços também refletem apostas, posicionamentos e reações emocionais. Mas ignorar o recado seria um erro: o governo terá de demonstrar que consegue conciliar suas prioridades políticas com uma trajetória fiscal sustentável.
A turbulência também afetou o mercado de títulos públicos. Diante das condições de negociação, o Tesouro Nacional cancelou leilões previstos para o período. Foi mais um sinal de que a instabilidade ultrapassou o mercado de ações.
Como a disparada do dólar pode afetar o bolso do brasileiro?
Para quem não investe na Bolsa nem acompanha o mercado financeiro, a reação pode parecer distante. Não é.
Um dólar mais caro encarece produtos importados e insumos utilizados pela indústria brasileira. O efeito pode chegar aos eletrônicos, aos medicamentos, aos combustíveis e a diferentes produtos que dependem de componentes comprados no exterior. O repasse aos preços não acontece de uma vez, mas uma desvalorização persistente do real pode dificultar o controle da inflação.
E inflação é justamente um dos pontos mais sensíveis para as famílias. Quando os preços sobem mais rápido do que a renda, o salário perde poder de compra. O dinheiro que antes cobria as despesas do mês passa a render menos, mesmo que o trabalhador continue recebendo o mesmo valor.
O problema se agrava quando boa parte da renda já está comprometida com dívidas. Parcelas de empréstimos, cartão de crédito e financiamentos reduzem o espaço para alimentação, moradia e outras despesas básicas. Nesse cenário, qualquer aumento de preços pesa ainda mais.
Se o dólar pressionar a inflação, o Banco Central poderá ter menos espaço para reduzir os juros. E juros elevados significam crédito mais caro, prestações maiores e mais dificuldade para famílias e empresas financiarem suas compras e seus investimentos.
É por isso que a reação do mercado importa também para quem nunca comprou uma ação: seus efeitos podem chegar à economia real.
O modelo econômico do PT está diante de um novo teste
Lula aposta em políticas de valorização da renda, programas sociais e participação do Estado no estímulo à economia. Essa estratégia pode ajudar a sustentar o consumo e beneficiar famílias de menor renda. O ponto de tensão está em como financiar essas iniciativas sem comprometer o equilíbrio das contas públicas.
Economistas críticos ao modelo petista argumentam que a expansão dos gastos, quando não acompanhada de receitas sustentáveis e ganhos de produtividade, pode aumentar a pressão sobre a dívida e os juros. Com o crédito mais caro, empresas tendem a adiar investimentos, enquanto consumidores encontram mais dificuldades para financiar compras.
Há também um outro lado nessa discussão. Cortes de despesas mal planejados podem prejudicar serviços públicos e reduzir a renda de famílias que dependem de programas sociais. O desafio, portanto, não se resume a gastar menos a qualquer custo, mas a definir prioridades, melhorar a qualidade do gasto e dar previsibilidade às contas públicas.
É nessa combinação que o governo será testado. Não basta defender o crescimento econômico ou prometer responsabilidade fiscal: será preciso mostrar como as duas coisas podem funcionar juntas.
O que esperar da economia no novo mandato de Lula?
A reação desta segunda-feira não determina, por si só, o desempenho da economia nos próximos anos. O mercado pode rever suas expectativas se o governo apresentar medidas capazes de reduzir as incertezas. Da mesma forma, a turbulência pode continuar caso as dúvidas sobre os gastos e a dívida permaneçam sem respostas convincentes.
A escolha da equipe econômica, a relação com o Congresso e a apresentação de um plano fiscal consistente estarão entre os pontos mais observados pelos investidores. Mais importante do que o discurso será a capacidade de transformar promessas em medidas concretas.
Para a população, a avaliação será mais direta. O brasileiro quer saber se o salário vai render mais, se os alimentos deixarão de pesar tanto no orçamento, se o crédito ficará menos caro e se será possível sair do endividamento.
A reeleição de Lula abriu um novo capítulo político, mas não eliminou os problemas econômicos que já estavam sobre a mesa. Pelo contrário: a reação dos mercados mostrou que a confiança será uma das primeiras tarefas do governo.