O mercado financeiro brasileiro voltou a enfrentar um dia de forte turbulência nesta quarta-feira (28). Depois de uma queda histórica na Bolsa de Valores e da disparada do dólar na segunda-feira (26), os investidores voltaram a vender ações, diante das incertezas sobre a economia no próximo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Por volta das 12h desta quarta-feira (28), o Ibovespa caía 2,78%, aos 170.828 pontos, após despencar 13,88% na segunda-feira e acionar o circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações em momentos de perdas extremas. No mesmo dia, o dólar disparou 8,21%, fechando a R$ 5,403, após atingir R$ 5,605 durante o pregão.
Foi a maior alta percentual diária da moeda americana desde janeiro de 1999, quando o Brasil abandonou o regime de bandas cambiais e passou a permitir maior flutuação do dólar. Na terça-feira (27), houve um breve alívio, com queda de 1,07% da moeda americana, mas a pressão voltou a crescer nesta quarta, refletindo a persistente cautela dos investidores.
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Por que a Bolsa caiu tanto?
A reeleição de Lula provocou uma revisão das apostas de investidores que esperavam a vitória de Flávio Bolsonaro. Com a confirmação do cenário político, o mercado precisou precificar suas apostas, muitos precisaram ajustar suas posições às pressas, aumentando a pressão de venda sobre as ações.
O principal receio, porém, não é o resultado da eleição em si, mas a política fiscal que vem pela frente — ou seja, como o governo vai arrecadar, gastar e controlar a dívida pública. Investidores querem entender como o governo pretende equilibrar as contas e cumprir as metas fiscais a partir de 2027. Sem sinais claros, cresce a percepção de risco, e os agentes financeiros passam a exigir uma remuneração maior para aceitar investir no Brasil — o que, na prática, significa juros mais altos e crédito mais caro.
A indefinição sobre a futura equipe econômica e a falta de medidas concretas para controlar as despesas continuam limitando a recuperação da Bolsa.
Por que o mercado não se recuperou totalmente?
A queda do dólar na terça-feira foi um sinal de alívio, mas está longe de significar que as incertezas desapareceram. Parte da movimentação pode ser explicada por uma simples correção após a disparada: investidores que ganharam com a alta da moeda americana podem estar realizando lucros, enquanto outros aproveitam os novos preços para voltar a operar.
Na Bolsa, a lógica é parecida. Uma queda expressiva costuma atrair compradores em busca de preços mais baixos, mas isso não garante, de forma alguma, uma recuperação duradoura. O mercado ainda precisa avaliar se haverá mudanças efetivas na condução da economia. Até agora, as dúvidas sobre os gastos públicos, a dívida e as decisões do próximo governo continuam pesando sobre os negócios.
Impostos e juros dos EUA aumentam a cautela
Outro fator de pressão é a possibilidade de o governo estudar a cobrança de IOF sobre investimentos hoje isentos de Imposto de Renda, como LCI, LCA, CRI, CRA e debêntures incentivadas. A medida ainda deve ser tratada como uma hipótese em discussão, mas, caso avance, poderá alterar a rentabilidade dessas aplicações e elevar o custo de captação de recursos para setores como o imobiliário e o de infraestrutura.
No exterior, os investidores aguardam a decisão de juros do Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos. A expectativa é de manutenção da taxa entre 3,75% e 4%. Juros americanos elevados tornam os títulos dos Estados Unidos mais atraentes e podem reduzir o interesse por investimentos em países emergentes, como o Brasil. A alta do petróleo também preocupa, pois pode pressionar a inflação global.
O que isso significa para o brasileiro?
Uma alta persistente do dólar pode encarecer produtos importados, eletrônicos, combustíveis e insumos utilizados pelas empresas. Dependendo da intensidade do movimento, parte desses custos chega ao consumidor no supermercado, na bomba de gasolina e na conta de luz.
Se a desvalorização do real pressionar a inflação, a redução dos juros no Brasil também poderá ficar mais difícil, mantendo empréstimos e financiamentos caros por mais tempo do que o esperado.
A turbulência, entretanto, não significa que todas as ações continuarão caindo ou que o dólar seguirá subindo indefinidamente. O comportamento dos mercados dependerá das próximas decisões econômicas e das condições internacionais. A recuperação consistente só deve vir quando os investidores encontrarem sinais mais claros de estabilidade fiscal e previsibilidade econômica. Até lá, mesmo depois do primeiro alívio, a Bolsa e o dólar seguem sujeitos a fortes oscilações.