MP de SP pede condenação de Renato Cariani por tráfico e lavagem

MP de São Paulo solicita condenação de Renato Cariani por crimes relacionados ao tráfico e lavagem de dinheiro.
Redação NC News
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O Ministério Público de São Paulo pediu nesta quarta-feira (28) a condenação do influenciador e empresário Renato Cariani por associação para o tráfico, tráfico de insumos químicos para fabricação de drogas e lavagem de dinheiro, em um esquema que teria desviado substâncias usadas no refino de crack e cocaína a partir da empresa Anidrol Produtos para Laboratórios, em Diadema, na Grande São Paulo.

As alegações finais do MP-SP apontam que Cariani, que tem mais de 11 milhões de seguidores no Instagram, participou de fraudes na simulação de 59 vendas de produtos controlados para empresas que não haviam solicitado os insumos, o que teria permitido o desvio do material ao narcotráfico. A pena pedida pode variar de 16 a 51 anos de prisão em regime fechado.

Quem é Renato Cariani e qual é a acusação contra ele?

Renato Cariani é empresário do setor químico, influenciador digital do mundo fitness e sócio da Anidrol Produtos para Laboratórios, alvo de uma investigação conjunta da Polícia Federal e do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) de São Paulo por desvio de insumos usados na produção de crack e cocaína.

Segundo o Ministério Público, Cariani teria usado a estrutura da Anidrol para criar pedidos fictícios e simular 59 vendas de insumos químicos a empresas que não fizeram essas encomendas, numa engrenagem voltada a abastecer laboratórios ilegais de drogas. Mensagens obtidas no celular do influenciador indicariam que ele sabia que as substâncias eram usadas no preparo de entorpecentes e mantinha relação próxima com um policial civil responsável pela fiscalização de produtos químicos.

As investigações começaram após a deflagração da Operação Hinsberg, pela Polícia Federal, que mirou o desvio de produtos controlados. A partir daí, o caso avançou para a esfera criminal, com Cariani sendo apontado como um dos responsáveis por integrar e proteger a estrutura que alimentaria o tráfico.

Quais crimes o Ministério Público de São Paulo imputa a Renato Cariani?

O Ministério Público imputa a Renato Cariani três tipos de crime: associação para o tráfico, tráfico de insumos químicos destinados à fabricação de drogas e lavagem de dinheiro. Em cada núcleo, a acusação descreve uma atuação específica do influenciador.

Na associação para o tráfico, promotores do Gaeco afirmam que Cariani fazia parte de um grupo organizado voltado ao fornecimento de insumos ao narcotráfico. No tráfico de insumos, apontam as 59 simulações de vendas em nome da Anidrol a empresas que não teriam pedido os produtos, manobra que teria servido para encobrir o desvio de substâncias controladas para laboratórios ilegais.

Já na lavagem de dinheiro, o MP sustenta que houve uma sequência de operações financeiras para dar aparência de legalidade aos valores obtidos com o desvio dos produtos, com movimentações em contas ligadas à empresa. A acusação diz que Cariani tinha ciência tanto da destinação ilícita dos insumos quanto da necessidade de ocultar a origem do dinheiro.

Como funcionaria o esquema de desvio de insumos químicos

De acordo com a denúncia, a engrenagem passava pela emissão de notas fiscais e registros internos que simulavam vendas normais da Anidrol para o mercado farmacêutico e laboratórios regulares. Na prática, essas transações não teriam sido solicitadas pelos supostos clientes, o que permitia que os produtos ficassem livres para serem entregues a grupos ligados ao tráfico.

O Ministério Público afirma que Fábio Spindola Mota atuava como intermediador, fazendo a ponte entre a empresa e compradores vinculados à produção de crack e cocaína. Ele seria responsável por negociar e direcionar a entrega dos insumos desviados. Já Rodrigo Gomes Pereira é apontado como operador financeiro do grupo, cuidando de depósitos em espécie e outras movimentações para mascarar a origem ilícita dos valores.

Mensagens de celular analisadas pelo Gaeco indicariam ainda que Cariani mantinha contato frequente com o policial civil Anadré Dziuba, ligado ao controle de produtos químicos. Nas conversas, o influenciador receberia informações sobre diligências, opinaria sobre fiscalizações e até sugeriria empresas a serem alvo de inspeção, o que, para os promotores, mostra tentativa de proteger a própria estrutura e prejudicar concorrentes.

Qual é a pena que Renato Cariani pode receber se condenado por tráfico e lavagem de dinheiro?

Se a Justiça acolher integralmente o pedido do Ministério Público, Renato Cariani e os demais réus podem ser condenados a penas que variam de 16 anos e 4 meses a 51 anos e 8 meses de prisão, além de multas, segundo explica o advogado criminalista Anderson Almeida.

O cálculo considera eventual condenação pelos três crimes — associação para o tráfico, 59 crimes de tráfico de insumos químicos e 59 crimes de lavagem de dinheiro — somados a um aumento da pena pela chamada continuidade delitiva, quando a Justiça entende que vários atos configuram a repetição de um mesmo delito dentro de um mesmo contexto.

Mesmo em caso de soma alta, o limite máximo de cumprimento efetivo de pena no Brasil é menor do que o total aritmético, conforme entendimento consolidado pelos tribunais superiores. No momento, Cariani responde ao processo em liberdade enquanto o juiz analisa as alegações finais de acusação e, na sequência, receberá a defesa.

Entenda o contexto

A ofensiva do Ministério Público ocorre após fases de investigação que começaram com a Operação Hinsberg, conduzida pela Polícia Federal com apoio do Gaeco, voltada ao desvio de substâncias químicas usadas no refino de cocaína e na produção de crack.

Ao longo da apuração, a Anidrol, empresa de Cariani em Diadema, foi apontada como peça central em uma cadeia que ligaria o setor formal de fornecimento de produtos químicos ao crime organizado. A simulação de dezenas de vendas teria permitido que esses insumos chegassem a laboratórios clandestinos sem chamar a atenção dos órgãos de controle.

O caso é acompanhado de perto por órgãos de segurança e pelo mercado de produtos químicos, já que pode levar a endurecimento de regras, maior fiscalização sobre empresas do setor e revisão de procedimentos de controle e rastreio de substâncias sensíveis.

O que dizem as defesas e os outros envolvidos

Em nota, a defesa de Renato Cariani afirma que o pedido de condenação não altera sua convicção de que ele será absolvido. “O pedido do Ministério Público não representa nenhuma surpresa e vamos demonstrar, com base na prova produzida ao longo da instrução, que as teses de acusação são improcedentes”, diz a defesa.

Os promotores pedem também a condenação de Fábio Spindola Mota e Rodrigo Gomes Pereira pelos mesmos crimes imputados a Cariani, por entender que eles eram, respectivamente, o intermediador das entregas aos compradores ligados ao tráfico e o responsável pela movimentação financeira dos recursos ilícitos.

No mesmo documento, o MP-SP solicita a absolvição de duas ex-investigadas, Roseli Dorth e Andréia Domingues Ferreira, ligadas à Anidrol, por entender que as provas não sustentam a responsabilização criminal delas. As defesas de Fábio Mota e Rodrigo Pereira ainda não se manifestaram publicamente sobre as alegações finais.

Com a entrega do pedido de condenação pelo Ministério Público, o processo entra na fase de alegações finais da defesa. Depois dessa etapa, caberá ao juiz da causa decidir se condena ou absolve os réus, em decisão que ainda poderá ser alvo de recursos.

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