Os eleitores dos Estados Unidos vão às urnas nesta terça-feira para definir o novo Congresso e, de quebra, o grau de liberdade que o presidente Donald Trump terá até o fim do mandato, em meio à guerra no Irã, ao aumento do custo de vida e ao desgaste de suas políticas econômicas.
Democratas largam na frente pela Câmara; Senado segue em aberto
A votação, que renova todas as cadeiras da Câmara dos Representantes e parte do Senado, é acompanhada em tempo real por institutos de pesquisa e canais de apuração. As projeções iniciais indicam vantagem dos democratas para retomar a maioria na Câmara, enquanto a disputa pelo Senado permanece apertada e sem um favorito claro.
Um resultado dividido — com Câmara democrata e Senado sob controle republicano ou muito fragmentado — tende a produzir um cenário de freios e contrapesos mais duro para a Casa Branca. Se confirmarem a maioria, os democratas passam a controlar toda a máquina de comissões da Câmara, porta de entrada de projetos de lei e das principais investigações sobre o Executivo.
A eleição é tratada pelos dois partidos como um referendo sobre o segundo mandato de Trump. Pesquisas ao longo da campanha mostraram insatisfação com a inflação, as tarifas comerciais e, sobretudo, a guerra no Irã, rejeitada por cerca de 63% dos americanos.
Entenda o que está em jogo na Câmara
Com a maioria, os democratas podem travar iniciativas legislativas de Trump e ditar a pauta de fiscalização do governo. As comissões ganham poder para exigir documentos, convocar autoridades para depor e aprofundar investigações sobre possíveis conflitos de interesse envolvendo o presidente, sua família e aliados, além de casos sensíveis como o do financista Jeffrey Epstein, acusado de comandar uma rede de tráfico sexual.
Hakeem Jeffries, hoje líder da minoria democrata e apontado como favorito para presidir a Câmara se o partido vencer, já desenha uma ofensiva rápida. “A intenção é votar rapidamente projetos para restabelecer subsídios de planos de saúde, reverter cortes de quase US$ 1 trilhão no Medicaid, encerrar tarifas comerciais de Trump e exigir que ele ponha fim à guerra no Irã ou obtenha autorização do Congresso para continuá-la”, disse.
Na prática, uma Câmara sob comando democrata funcionaria como freio às prioridades domésticas de Trump: poderia, por exemplo, reverter parte da agenda econômica, rever cortes em programas sociais e impor maior transparência em contratos públicos.
Senado é peça-chave para nomeações e política externa
O Senado, por sua vez, é o fiel da balança para áreas estratégicas do poder presidencial. Cabe à Casa confirmar ministros, embaixadores, juízes federais e indicados à Suprema Corte, além de arbitrar julgamentos de impeachment.
Se os republicanos mantiverem o controle ou se o equilíbrio de forças continuar apertado, Trump preserva uma alavanca decisiva: a possibilidade de seguir moldando o Judiciário e a diplomacia americana, mesmo diante de uma Câmara hostil. Com um Senado alinhado, as nomeações para cortes federais e para a diplomacia tendem a continuar próximas da agenda do presidente.
Uma virada democrata no Senado ampliaria o poder de contenção sobre a Casa Branca, permitindo barrar ou atrasar indicações consideradas controversas e forçar negociações. Ainda assim, mudanças legislativas profundas enfrentariam limites. Para avançar com a maior parte dos projetos, são necessários 60 votos, o que exigiria dos democratas um ganho de 13 cadeiras em relação ao quadro atual, algo considerado improvável mesmo em um cenário favorável.
Trump também mantém a prerrogativa do veto presidencial. Para derrubar um veto, seriam necessários dois terços dos votos em cada Casa, patamar distante das previsões de hoje para qualquer dos lados.
Guerra no Irã e orçamento do Pentágono na linha de fogo
A condução da guerra no Irã é um dos temas mais sensíveis desta eleição. A rejeição de 63% da população ao conflito deu munição à oposição, que promete usar o Congresso para forçar mudanças na estratégia da Casa Branca.
Democratas já falam em projetos para obrigar Trump a encerrar as operações militares ou, ao menos, submeter a continuidade da guerra à autorização formal do Legislativo. Uma das possibilidades em debate é travar a aprovação de novos recursos para o conflito, incluindo parte do orçamento de US$ 1,5 trilhão proposto para o Pentágono.
Sem financiamento adicional e sob pressão política mais forte, o governo teria mais dificuldade para prolongar as ações militares. Em paralelo, democratas sinalizam que não devem mexer de forma profunda no apoio militar a aliados tradicionais, como Israel, mas podem fortalecer a ajuda à Ucrânia e apertar sanções contra adversários externos se conquistarem espaço no Congresso.
Durante a campanha, uma das mensagens repetidas pela oposição foi clara: “A guerra contra o Irã, rejeitada por cerca de 63% dos americanos, está entre as principais preocupações da oposição”, dizia um dos levantamentos citados por lideranças democratas em atos públicos.
Tarifas, custo de vida e agenda econômica em disputa
No campo econômico, o alvo é o pacote de tarifas comerciais adotado por Trump, acusado por adversários de encarecer produtos e pressiona o custo de vida. Democratas defendem que o Congresso reassuma o protagonismo na política comercial, revertendo decisões tomadas diretamente pelo Executivo.
Jeffries promete levar ao plenário, logo no início da nova legislatura, um texto para derrubar o “tarifaço” de Trump e reduzir tensões com parceiros comerciais. Mesmo assim, o presidente ainda teria à disposição instrumentos legais para tentar manter parte das tarifas e poderia vetar leis aprovadas pelo Congresso.
Paralelamente, a ala progressista do Partido Democrata quer aproveitar uma eventual maioria para acelerar projetos de aumento do salário mínimo, licença médica e familiar remuneradas, férias pagas e novas regras de transparência no Congresso, como a proibição de parlamentares operarem diretamente ações na bolsa.
Investigação, impeachment e cenário de impasse
Comissões mais ativas também significam um risco maior de desgaste para a Casa Branca. Democratas discutem ampliar frentes de investigação sobre contratos públicos, eventuais enriquecimentos ilícitos ligados à família Trump e interferências políticas em órgãos de controle.
Setores do partido voltam a falar em um novo processo de impeachment, mas líderes mais cautelosos reconhecem que, sem dois terços do Senado, a iniciativa teria poucas chances de derrubar o presidente e poderia até fortalecê-lo politicamente. Hoje, mesmo em caso de vitória democrata nas duas Casas, não há perspectiva concreta de alcançar 67 votos no Senado para uma condenação.
O quadro mais provável, apontam aliados de ambos os lados, é o de um Congresso dividido: uma Câmara pronta para investigar, rever políticas e aprovar projetos de enfrentamento à agenda de Trump, e um Senado capaz de travar parte dessas mudanças. Nesse cenário, a governabilidade dependerá da disposição de republicanos e democratas de negociar ponto a ponto.
Nas próximas horas, a apuração vai responder à pergunta que domina as buscas e conversas desde cedo — quem ganhou a eleição nos Estados Unidos e qual será o resultado das eleições dos Estados Unidos para o controle da Câmara e do Senado. Até lá, o país segue em compasso de espera, e o mundo acompanha atento a redefinição de forças em Washington.