Belo Horizonte começou mais um período chuvoso com pelo menos cinco obras de prevenção a enchentes e deslizamentos paralisadas. As intervenções incluem construção de reservatórios, implantação de redes de drenagem e contenção de encostas em áreas vulneráveis da capital mineira.
De acordo com o Portal da Transparência da Prefeitura de Belo Horizonte, mostra que alguns serviços foram interrompidos quando ainda estavam nas primeiras etapas de execução. Em um dos casos, apenas 4,5% da obra havia sido concluída.
As paralisações atingem principalmente moradores das regiões Norte e Venda Nova, onde há locais com histórico de alagamentos e riscos geológicos. Enquanto parte das intervenções depende de ajustes técnicos e contratuais, outras só têm previsão de retomada em 2027.
A situação ocorre durante a gestão do prefeito Álvaro Damião (União Brasil), responsável pela administração municipal e pela condução das medidas de prevenção aos impactos das chuvas.
Quais são as cinco obras paradas em Belo Horizonte?
Três intervenções interrompidas estão localizadas na Região Norte e envolvem serviços de drenagem e estabilização de terrenos.
Na Ocupação Vitória, a recuperação de áreas degradadas e a implantação de sistemas para escoamento da água da chuva foram suspensas devido a interferências com obras da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa).
O contrato, incluindo aditivos, soma aproximadamente R$ 2 milhões. Quando os trabalhos foram interrompidos, pouco mais de 31% dos serviços estavam executados.
Na Ocupação Esperança, o problema é semelhante. A intervenção para reduzir riscos geológicos e estabilizar o terreno foi paralisada após atingir 23% de execução. O contrato ultrapassa R$ 3 milhões.
Já nas vilas Mariquinhas e Boa União, os trabalhos de contenção de encostas foram interrompidos depois da conclusão de apenas 4,5% dos serviços. A obra está orçada em quase R$ 1,5 milhão.
Segundo a Companhia Urbanizadora e de Habitação de Belo Horizonte (Urbel), mudanças nas condições das encostas exigiram a revisão dos projetos. A previsão é que os trabalhos sejam retomados em 2027.
Reservatórios contra alagamentos estão parados há cerca de um ano
Outras duas obras interrompidas são os reservatórios Vilarinho II e Nado I, ambos na Região de Venda Nova. As estruturas foram planejadas para armazenar grandes volumes de água durante chuvas intensas e reduzir o risco de inundações em áreas historicamente atingidas por temporais.
Os trabalhos estão parados há aproximadamente um ano, após a identificação de indícios de irregularidades nos contratos.
De acordo com informações divulgadas pela prefeitura, cada reservatório terá capacidade aproximada de armazenamento de 105 milhões de litros de água. O investimento conjunto previsto é de R$ 263 milhões.
A administração municipal afirma que está em andamento um novo processo de licitação para a continuidade das obras do Vilarinho II. No caso do Nado I, o projeto passa por revisão, com previsão de reinício dos serviços em 2027.
Rua está interditada há oito meses por risco de deslizamento
Além das cinco obras paralisadas, moradores do bairro Jardim Vitória, na Região Norte, convivem com uma interdição que já dura oito meses.
A Rua Augusta Sacchetto Scalzo, no trecho conhecido como Corte de Pedra, está fechada desde março de 2026, após uma vistoria identificar risco geológico elevado.
O local tem histórico de deslizamentos e, segundo moradores, acumula água e entulho. A interdição também prejudica o deslocamento de quem vive na região.
“O acesso alternativo aqui tem que subir lá para cima, andar uns 2 quilômetros a mais, além de se tornar um local de acúmulo de lixo”, afirmou o advogado Célio Antunes à TV Globo.
Somente agora, com o período chuvoso em andamento, a prefeitura anunciou uma ordem de serviço para a execução de obras emergenciais no trecho.
O contrato tem valor aproximado de R$ 3,8 milhões e prevê a estabilização dos paredões rochosos e do solo, além de intervenções de drenagem e proteção das encostas. A conclusão está prevista para o primeiro semestre de 2027. Enquanto isso, o trecho permanece interditado e sob monitoramento da Defesa Civil.
O que diz a Prefeitura de Belo Horizonte?
A Prefeitura de Belo Horizonte atribui parte das paralisações a problemas técnicos, interferências com redes de saneamento e questões contratuais. Segundo a administração municipal, as obras nas ocupações Vitória e Esperança dependem da conclusão de intervenções realizadas pela Copasa.
A companhia informou que os serviços estão em andamento e que grande parte dos trabalhos previstos já foi executada. A empresa também declarou que permanece à disposição da prefeitura para prestar esclarecimentos e realizar eventuais intervenções necessárias.
Em relação às vilas Mariquinhas e Boa União, a Urbel afirmou que alterações identificadas nas encostas exigiram adequações nos projetos.
O secretário municipal de Obras e Infraestrutura, Leonardo Gomes, reconheceu a existência de empreendimentos interrompidos e afirmou que o município trabalha para retomá-los.
“A gente está fazendo os investimentos nas obras que a gente pegou paralisadas, que estavam com problemas contratuais. A gente vai retomar no ano que vem”, afirmou à TV Globo.
Segundo o secretário, a prefeitura também projeta investimentos superiores a R$ 1,5 bilhão em macrodrenagem ao longo dos próximos cinco ou seis anos.
A administração municipal informa ainda que mantém ações preventivas durante o período chuvoso, incluindo limpeza de bocas de lobo, monitoramento de encostas e atendimento a ocorrências pela Defesa Civil.
Entre janeiro e agosto de 2026, a prefeitura afirma ter realizado a limpeza de 87.736 bocas de lobo e retirado aproximadamente 1,4 mil toneladas de resíduos das redes de drenagem.
Prefeitura quer novo empréstimo para obras de drenagem
A gestão Álvaro Damião também pretende contratar um empréstimo de R$ 1,1 bilhão para financiar investimentos em infraestrutura, prevenção de desastres, urbanização e transporte público.
A proposta tramita na Câmara Municipal de Belo Horizonte (CMBH) e prevê a destinação de R$ 599 milhões para cinco projetos prioritários de macrodrenagem.
Outros R$ 10 milhões deverão ser utilizados em obras de estabilização e contenção de encostas no Campo do Najá, no Aglomerado da Serra, na região Centro-Sul.
A contratação do financiamento será discutida nesta sexta-feira (6), durante audiência pública na Comissão de Orçamento e Finanças Públicas da Câmara.
O projeto já recebeu aprovação em primeiro turno, mas ainda depende da conclusão da tramitação legislativa.
O que fazer em caso de risco de deslizamento ou alagamento?
Durante o período chuvoso, moradores devem observar sinais de movimentação do solo, rachaduras em paredes, inclinação de muros e surgimento de trincas no terreno. A Defesa Civil recomenda que a população evite atravessar ruas alagadas, não ultrapasse bloqueios de trânsito e deixe imediatamente locais com sinais de risco iminente.
Em Belo Horizonte, pedidos de vistoria podem ser feitos pelo telefone (31) 3277-6409, de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 13h às 17h. Em situações de emergência, a população deve acionar a Defesa Civil pelo 199 ou o Corpo de Bombeiros pelo 193.
O período chuvoso na capital se estende de outubro a março, e parte das obras previstas para reduzir os riscos de enchentes e deslizamentos deverá permanecer inacabada durante esta temporada