Um ciclone extratropical em formação no Atlântico, próximo à costa das regiões Sul e Sudeste, reorganiza o tempo no Centro-Sul do Brasil nesta quinta-feira (5), concentrando temporais entre Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, com ventos de até 70 km/h, risco de granizo e queda de temperatura após a passagem da frente fria.
O sistema atua como uma área de baixa pressão que, combinado ao calor e à umidade elevados sobre o país, favorece nuvens muito carregadas. Nos últimos dias, o Sul já vinha sofrendo com tempestades severas, vendavais e tornados, que deixaram rastro de destruição em Santa Catarina e Paraná e pressionam a Defesa Civil.
Onde está o ciclone extratropical que está afetando o Centro-Sul do Brasil?
O ciclone extratropical se organiza sobre o oceano Atlântico, ao largo da costa das regiões Sul e Sudeste, ajudando a empurrar e a intensificar a frente fria que avança pelo Centro-Sul nesta quinta (5). Ele não está sobre o continente, mas a circulação de ventos em torno do sistema espalha instabilidades sobre uma grande área do país.
De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), “o ciclone deve ajudar a organizar a frente fria e concentrar a umidade sobre o Centro-Sul, favorecendo a formação de nuvens carregadas”. Na prática, isso reforça as tempestades do norte do Rio Grande do Sul ao sul de Minas, passando pelo Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul.
O meteorologista Francisco de Assis explica que o núcleo mais crítico já deixou o território gaúcho. “O Rio Grande do Sul está praticamente limpo, já passou a condição de chuva mais severa. A concentração agora se desloca entre o Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul”, afirma.
Quais regiões do Brasil estão sob alerta devido ao ciclone extratropical e à nova frente fria?
Os principais alertas nesta quinta (5) valem para o Centro-Sul, com destaque para Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, onde há risco de chuva forte, raios, rajadas de vento e eventual queda de granizo. O Inmet emitiu aviso laranja de perigo para tempestades no centro-norte do Paraná e aviso amarelo para outras áreas paranaenses e para o centro e norte de Santa Catarina.
No Sul, a chuva se concentra sobretudo em Paraná e Santa Catarina, desde a madrugada, com potencial para temporais principalmente nas regiões central e norte do Paraná e no oeste e norte catarinense. O norte do Rio Grande do Sul ainda pode ter pancadas fortes, mas com tendência de abertura de sol ao longo do dia.
No Sudeste, São Paulo está no foco da instabilidade, com pancadas moderadas a fortes desde cedo em várias regiões e previsão de chuva com trovoadas à tarde e à noite na capital, onde os termômetros variam entre 18°C e 28°C. Em Minas, as áreas mais atingidas devem ser Sul de Minas, Triângulo Mineiro, centro-sul e oeste do estado, incluindo Belo Horizonte, que pode registrar pancadas com trovoadas e máxima de 32°C.
No Rio de Janeiro, o calor domina antes da chuva: a máxima chega a 37°C e, a partir da tarde, as pancadas se espalham, algumas de moderada a forte intensidade, com rajadas de vento entre 50 km/h e 70 km/h em trechos do litoral e do interior fluminense.
No Centro-Oeste, Mato Grosso do Sul recebe chuva moderada a forte já pela manhã em áreas sul, sudoeste e sudeste, com avanço das pancadas sobre Mato Grosso, Goiás e Distrito Federal ao longo do dia. Em Cuiabá, mesmo com o aumento da umidade, o calor segue intenso, com máxima de 39°C.
Mais ao norte, Acre, Amazonas, Rondônia e Tocantins também têm pancadas de chuva, algumas fortes à tarde, enquanto o interior do Nordeste permanece sob calor extremo e baixa umidade, com cidades como Teresina chegando a marcas próximas de 39°C e níveis críticos de umidade relativa do ar.
Entenda o contexto
O cenário desta semana vem na sequência de tempestades severas no Sul, com registro de tornados e microexplosões que devastaram áreas pontuais. Em Santa Catarina, rajadas de vento variaram entre 90 km/h e 131 km/h em diferentes municípios, derrubando árvores, destelhando casas e danificando estruturas.
Em Chapecó, no oeste catarinense, o aeroporto teve parta da infraestrutura comprometida por ventos de até 126 km/h, o que levou à suspensão temporária das operações. A Defesa Civil catarinense contabiliza 106 municípios com registro de ocorrências, 23 deles com decreto de situação de emergência.
O balanço mais recente aponta 5.358 residências afetadas, com 56 pessoas desabrigadas e 252 desalojadas no estado. Além dos danos materiais, houve mortes associadas às tempestades, o que mantém as equipes em alerta máximo para novos episódios de tempo severo.
Os dados se somam a outro indicador preocupante: já são mais de 100 tornados registrados no Brasil em 2026, número considerado alto para o período do ano. “Não dá para dizer que isso nunca aconteceu, mas a frequência tem aumentado bastante. A gente atribui isso justamente às mudanças climáticas. Com todas essas mudanças, esses fenômenos têm se tornado mais frequentes e mais fortes”, avalia Alexandre Nascimento, sócio-diretor da Nottus Meteorologia.
Na avaliação de Francisco de Assis, o fenômeno El Niño em curso potencializa esse quadro. “Provavelmente ele vai ser o maior dos últimos 76 anos. Esses valores altos vêm se mantendo há quase três meses na faixa de 2,7 °C a 2,9 °C e a tendência é permanecer nesse patamar até dezembro”, afirma o meteorologista, ao comentar as anomalias de temperatura do Oceano Pacífico Equatorial.
Impactos imediatos em cidades e no campo
Na prática, o ciclone extratropical e a frente fria associada geram um pacote de efeitos simultâneos. Nas cidades do Centro-Sul, a preocupação maior são alagamentos rápidos, queda de árvores, destelhamentos e interrupções no fornecimento de energia por causa dos ventos fortes e da chuva volumosa em curto espaço de tempo.
Em áreas rurais, as rajadas de até 70 km/h e o risco de granizo podem causar estragos em plantações e estruturas como silos e galpões. Ao mesmo tempo, o aumento da umidade e a perspectiva de chuvas mais frequentes aliviam o estresse hídrico em partes do Centro-Oeste e Sudeste, onde lavouras já sentiam os efeitos de semanas de calor intenso.
A expectativa de meteorologistas é de que, com o avanço da frente fria, as chuvas se tornem mais regulares em estados como Mato Grosso, Goiás, Tocantins, Bahia e Minas Gerais, o que tende a beneficiar culturas de grãos e pastagens. A previsão aponta para acumulados entre 30 mm e 50 mm em Mato Grosso a partir de domingo, ajudando a recompor o solo e reservatórios.
O contraste é grande com o Nordeste, em especial o interior, que segue sob forte onda de calor e baixa umidade relativa do ar, cenário que aumenta o risco de incêndios florestais e problemas respiratórios, pressionando os serviços de saúde.
Qual a previsão do tempo para os próximos dias nas áreas afetadas pelo ciclone extratropical?
Para os próximos dias, a tendência é de manutenção da instabilidade no Centro-Sul, com distribuição diferente da chuva à medida que a frente fria avança para o oceano e se desloca para o Sudeste e parte do Centro-Oeste.
Na sexta (6), o afastamento gradual da frente fria sobre o mar provoca queda mais acentuada de temperatura em São Paulo. A máxima na capital paulista deve descer para a casa dos 21°C, com sensação bem mais amena após a sequência de dias abafados. A chuva ainda persiste em áreas do norte e oeste paulista.
No Rio de Janeiro e em Minas Gerais, a sexta ainda será de calor moderado a alto, mas com pancadas de chuva concentradas em Minas, no norte e oeste de São Paulo e em partes do estado fluminense e do Espírito Santo. A combinação de calor e umidade segue favorecendo temporais isolados e rajadas de vento nessas áreas.
No Sul, a tendência é de estabilização gradual, com o Rio Grande do Sul voltando a ter mais períodos de sol e chuva mais irregular. Paraná e Santa Catarina ainda podem registrar pancadas fortes em pontos isolados, mas com risco menor de tempestades tão severas quanto as dos últimos dias, se comparado ao pico do evento.
No Centro-Oeste, a instabilidade avança de Mato Grosso do Sul rumo a Mato Grosso, Goiás e Distrito Federal, trazendo pancadas em diferentes momentos do dia e ajudando a reduzir, ainda que de forma gradual, o calor extremo e a secura do ar. Em Mato Grosso, os acumulados previstos entre 30 mm e 50 mm a partir de domingo reforçam a perspectiva de melhoria para o campo.
Na Região Norte, a combinação de calor e umidade mantém o padrão de chuva principalmente em Acre, Amazonas, Rondônia, Tocantins e áreas do Pará, com temporais isolados principalmente à tarde. Já Amapá e extremo norte do Pará seguem com tempo mais firme.
No Nordeste, a previsão indica continuidade do calor muito intenso, com poucas áreas de chuva mais significativa, concentradas em pontos do oeste da Bahia, centro-sul do Maranhão e partes do Piauí. No restante, o que predomina são dias quentes, umidade baixa e risco elevado de queimadas.
Quais medidas de segurança a população deve tomar diante do ciclone e dos temporais no Sul e Sudeste?
Diante do risco de temporais e rajadas de vento de até 70 km/h, a recomendação dos órgãos de proteção e defesa civil é evitar exposição desnecessária em áreas abertas durante tempestades, não se abrigar sob árvores e manter distância de estruturas metálicas, como cercas e grades, que podem atrair descargas elétricas.
Quem mora em regiões sujeitas a alagamentos deve ficar atento aos avisos oficiais, ter rota alternativa em mente e evitar atravessar ruas inundadas, tanto a pé quanto de carro. Em caso de chuva forte com vento, a orientação é manter portas e janelas bem fechadas e afastar móveis e eletrodomésticos de paredes que possam sofrer infiltração.
Moradores em áreas de encosta ou margem de rios precisam prestar atenção a sinais como rachaduras no solo e nas paredes, árvores inclinando ou aumento rápido do nível da água. Diante de qualquer indício de deslizamento ou enxurrada, a recomendação é sair imediatamente do local e procurar abrigo seguro.
Também é importante reforçar telhados, retirar objetos que possam ser lançados pelo vento de quintais e sacadas e manter lanternas e celulares carregados para eventuais quedas de energia. A orientação geral é acompanhar, ao longo do dia, os boletins do Inmet, dos centros de meteorologia regionais e da Defesa Civil dos estados e municípios para atualizações de alerta e eventuais pedidos de evacuação pontual.