A Justiça dos Estados Unidos condenou Daniel Sikkema, de 56 anos, à prisão perpétua por planejar e financiar o assassinato do ex-marido, o galerista norte-americano Brent Sikkema, morto com 18 facadas em uma residência no Jardim Botânico, na Zona Sul do Rio de Janeiro. A sentença foi proferida na quarta-feira (4), pelo juiz federal Edgardo Ramos, em Manhattan, Nova York, e divulgada pelo Departamento de Justiça americano.
Daniel havia sido considerado culpado em 22 de maio de 2026, após um julgamento que durou duas semanas. O tribunal reconheceu sua participação em três crimes: homicídio por encomenda, conspiração para cometer homicídio por encomenda e conspiração para praticar assassinato em território estrangeiro. Além da prisão perpétua, a sentença estabelece cinco anos de liberdade supervisionada, caso o condenado venha a ser libertado legalmente.
O crime ocorreu em 14 de janeiro de 2024, quando Brent, de 75 anos, estava em sua casa no Rio. Segundo a investigação, Daniel contratou o cubano Alejandro Triana Prevez para executar o assassinato em meio a um divórcio marcado por disputas financeiras e familiares. O caso foi investigado com a colaboração de autoridades brasileiras e americanas.
LEIA TAMBÉM
Brasileira é condenada à prisão perpétua na Itália após matar marido por herança de R$ 17 milhões
Justiça americana concluiu que assassinato foi planejado
De acordo com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, Daniel Sikkema começou a organizar o assassinato em 2023, período em que enfrentava um processo de divórcio com Brent.
O casal tinha um filho e disputava questões relacionadas à separação e à divisão patrimonial.
Durante a investigação, os promotores identificaram transferências de dinheiro feitas por Daniel para Alejandro Triana Prevez e para uma pessoa com quem o executor mantinha um relacionamento em Cuba.
Segundo as autoridades americanas, Daniel realizou 11 pagamentos relacionados ao plano criminoso.
Para dificultar o rastreamento das operações, teria utilizado nomes e dados de amigos, funcionários e familiares que desconheciam a verdadeira finalidade das transações.
A acusação também apresentou registros de comunicação entre o mandante e o executor, incluindo a utilização de um número telefônico reservado para tratar do assassinato.
Esses elementos foram apresentados aos jurados e contribuíram para a condenação.
Galerista foi morto com 18 facadas no Jardim Botânico
Brent Sikkema costumava passar temporadas no Rio de Janeiro e mantinha uma residência no bairro do Jardim Botânico.
Na noite de 14 de janeiro de 2024, Alejandro Triana Prevez entrou no imóvel e atacou o galerista com uma faca.
Segundo as autoridades americanas, a vítima foi atingida 18 vezes e não resistiu aos ferimentos.
A morte foi descoberta posteriormente e deu início a uma investigação da Polícia Civil do Rio de Janeiro.
Imagens de câmeras de segurança e outros elementos permitiram identificar o deslocamento do suspeito antes e depois do assassinato.
O caso ganhou repercussão internacional devido à trajetória da vítima no mercado de arte e às suspeitas de envolvimento do marido, com quem enfrentava um processo de separação.
Daniel fez pagamento de US$ 5 mil após assassinato
Um dos elementos apresentados durante o julgamento foi a movimentação financeira realizada depois da morte de Brent.
Segundo o Departamento de Justiça americano, Alejandro ligou diversas vezes para Daniel pouco depois do assassinato, utilizando o número de telefone que havia sido combinado entre os dois.
Na sequência, Daniel transferiu secretamente US$ 5 mil para o executor, com a promessa de efetuar novos pagamentos.
As autoridades consideraram a transferência uma das provas da relação entre o mandante e o autor material do crime.
Os investigadores também identificaram movimentações financeiras anteriores, realizadas durante a preparação do assassinato.
A acusação sustentou que o objetivo era eliminar Brent em meio às disputas envolvendo o divórcio e o patrimônio do casal.
Executor foi preso no Brasil quatro dias depois
Alejandro Triana Prevez foi preso em 18 de janeiro de 2024, quatro dias depois do assassinato, durante uma ação das autoridades brasileiras.
Ele foi localizado em Minas Gerais, após deixar o Rio de Janeiro.
Segundo a investigação, o suspeito havia retornado a São Paulo e realizado movimentações para tentar dificultar sua identificação e localização.
Durante as diligências, policiais identificaram o veículo utilizado no deslocamento e reuniram provas relacionadas ao crime.
O cubano permanece submetido a processo criminal na Justiça brasileira.
A condenação de Daniel nos Estados Unidos não encerra o procedimento contra Alejandro no Brasil, já que a situação jurídica do executor depende de decisão das autoridades brasileiras.
Condenação teve participação de autoridades brasileiras
O caso foi investigado por órgãos de segurança dos Estados Unidos e do Brasil.
Além do FBI e do Departamento de Justiça americano, participaram das diligências a Polícia Civil do Rio de Janeiro, o Ministério Público Federal e a Polícia Militar de Minas Gerais.
As autoridades também contaram com cooperação internacional para reunir documentos, registros financeiros e informações sobre os deslocamentos dos envolvidos.
Daniel Sikkema, que possui cidadania americana e cubana, foi processado nos Estados Unidos.
A atuação conjunta permitiu que provas obtidas no Brasil fossem consideradas durante os procedimentos americanos, respeitando as regras de cooperação entre os dois países.
O procurador federal Jamie McDonald afirmou, após a sentença, que a condenação responsabiliza Daniel por um assassinato planejado por interesse financeiro.
“Por meses, o réu manipulou amigos, familiares e funcionários para executar um assassinato motivado pela ganância”, afirmou o procurador Jamie McDonald.
O FBI também destacou que a sentença foi resultado de um trabalho de investigação que ultrapassou as fronteiras dos Estados Unidos.
Quem era Brent Sikkema?
Brent Sikkema era um galerista americano reconhecido no mercado internacional de arte contemporânea.
Ele foi um dos fundadores da galeria Sikkema Jenkins & Co., em Nova York, posteriormente conhecida como Sikkema Malloy Jenkins.
Ao longo da carreira, trabalhou com artistas de diferentes países e participou da divulgação de nomes importantes da arte contemporânea.
Entre os artistas associados à trajetória da galeria estão Kara Walker e o brasileiro Vik Muniz.
Brent mantinha uma relação próxima com o Brasil e possuía uma residência no Rio de Janeiro, onde costumava passar temporadas.
Sua morte, aos 75 anos, provocou homenagens no setor cultural e abriu uma investigação sobre as circunstâncias do assassinato.
Próximos passos
Com a sentença anunciada em 4 de novembro, Daniel Sikkema recebeu a pena de prisão perpétua nos Estados Unidos.
A defesa poderá buscar os recursos previstos na legislação americana, mas a condenação permanece válida enquanto não houver decisão judicial que a modifique.
No Brasil, o processo contra Alejandro Triana Prevez continua em andamento.
As autoridades brasileiras deverão definir a responsabilidade penal do acusado de executar o assassinato, independentemente da sentença aplicada ao mandante nos Estados Unidos.
O caso também permanece como exemplo de cooperação entre investigações criminais realizadas em diferentes países, especialmente quando o planejamento, os pagamentos e a execução de um crime envolvem mais de uma jurisdição.