Imagine marcar um encontro na “Praça Banco X” ou descer na “Estação Refrigerante Y”. O que antes parecia distopia publicitária já é o novo modelo de negócios das cidades brasileiras. Depois da Estação Berrini Casas Bahia e da bilionária Mercado Livre Arena Pacaembu, a bola da vez é a icônica Praça Roosevelt, no coração de São Paulo.
A prefeitura paulistana lançou um projeto para conceder o espaço à iniciativa privada por 20 anos. O grande trunfo financeiro dessa operação? A liberação dos chamados naming rights — o direito de alugar o nome da praça para uma marca.
A lógica econômica por trás dessa onda é imbatível para os cofres públicos. O Estado, reconhecendo sua dificuldade histórica em manter a zeladoria, transfere a conta. No caso da Roosevelt, a futura concessionária terá de desembolsar logo de cara cerca de R$ 8 milhões para reformar quiosques, melhorar a drenagem e ampliar o cachorródromo. Em troca, além de explorar o estacionamento e eventos, pode vender o letreiro da praça. A prefeitura assiste de camarote e ainda garante 20% da receita bruta desse batismo.
O limite entre o lucro e o espaço público
Transformar concreto público em ativo financeiro é uma tendência consolidada. Já vemos isso na Arena Sabesp (Ginásio do Ibirapuera) e na Arena BRB Mané Garrincha, no Distrito Federal. Contudo, rentabilizar uma praça aberta é muito diferente de um estádio fechado.
No caso da Roosevelt, o mercado esbarra em limitações. O edital é rigoroso: proíbe patrocínios de bebidas alcoólicas, cigarros e das lucrativas “bets” (apostas esportivas). Além disso, a marca terá de respeitar a Lei Cidade Limpa e os órgãos de patrimônio histórico. Sem a possibilidade de instalar painéis de LED gigantes ou letreiros espalhafatosos, o apetite e o valor pago pelos patrocinadores tendem a ser menores. Não à toa, a prefeitura não divulgou uma estimativa de quanto espera arrecadar com essa cota.
Para o cidadão, o avanço dessa terceirização propõe um acordo pragmático. O poder público transforma a cidade em vitrine para engordar o caixa e garantir a manutenção que não consegue bancar. Resta saber se, no fim das contas, a população vai se importar em chamar sua praça favorita pelo nome de um banco ou varejista, desde que ela esteja limpa, iluminada e segura.