Um editorial conjunto de entidades científicas brasileiras reacendeu a discussão sobre a polilaminina, substância em estudo para tratamento de lesões da medula espinhal.
O documento destaca que o composto ainda não possui eficácia comprovada e segue em fase de testes clínicos autorizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Editorial cobra rigor científico e responsabilidade
A manifestação foi publicada no Jornal da Ciência e assinada pelas presidentes da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Francilene Procópio Garcia e Helena Bonciani Nader.
No texto, as entidades defendem que o debate público sobre a polilaminina deve se apoiar em evidências científicas sólidas e respeitar o processo regulatório. Segundo o editorial, inovação em saúde exige metodologia rigorosa, transparência e observância das normas sanitárias.
O que é a polilaminina
A polilaminina é uma versão sintética e mais estável da laminina, proteína ligada à organização estrutural dos tecidos e à regeneração celular.
Estudos preliminares sugerem potencial para estimular o crescimento de neurônios, o que despertou interesse para uso em lesões medulares — condição que pode levar à paralisia e ainda tem poucas opções terapêuticas.
Apesar das expectativas, a substância permanece em investigação. Em janeiro, a Anvisa autorizou um estudo clínico para avaliar a segurança do uso em humanos — etapa inicial que não comprova eficácia.
Para que um medicamento seja aprovado, são necessárias fases sucessivas de ensaios clínicos que verifiquem segurança, dose adequada e benefício terapêutico.
Disputa sobre patente amplia controvérsia
O tema ganhou novos contornos após declarações da pesquisadora Tatiana Sampaio, que afirmou que o Brasil teria perdido a patente internacional da polilaminina em razão de cortes de financiamento à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) entre 2015 e 2016.
A farmacêutica Cristália, parceira no desenvolvimento do produto, contestou a versão. Em nota recente, a empresa informou ter solicitado a patente nacional em 2022 e a internacional em 2023, sustentando que a proteção permanece válida até 2043.
O impasse extrapolou o campo técnico e passou a envolver discussões sobre financiamento público, propriedade intelectual e comunicação científica.
Judicialização preocupa entidades
Outro fator de tensão é a busca de pacientes pelo acesso à substância por via judicial antes da conclusão dos estudos clínicos.
No editorial, SBPC e ABC alertam que medicamentos experimentais ainda não tiveram segurança e eficácia plenamente estabelecidas, o que exige prudência das instituições e do Judiciário.
As entidades reforçam que revisão por pares, ensaios clínicos controlados e regulação sanitária são pilares essenciais para a proteção dos pacientes.
Entre a esperança e a cautela
Para as sociedades científicas, o caso da polilaminina expõe um dilema frequente na inovação em saúde: equilibrar a expectativa legítima de pacientes com a necessidade de rigor científico.
Até o momento, a substância segue como terapia em investigação — autorizada apenas para estudos clínicos e sem registro como medicamento.
O editorial conclui que o avanço da inovação biomédica depende de critérios técnicos, transparência e responsabilidade institucional, considerados fundamentais para a segurança da população e para o fortalecimento do sistema científico brasileiro.