A médica, cirurgiã e pesquisadora Angelita Habr-Gama, considerada uma das maiores referências mundiais no tratamento do câncer de reto, morreu aos 93 anos em São Paulo. A informação foi confirmada neste sábado (30). A causa da morte não foi divulgada.
Angelita estava internada desde o dia 6 de maio no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, instituição com a qual manteve vínculo profissional por mais de seis décadas e onde construiu parte importante de sua trajetória na medicina.
Reconhecida internacionalmente por suas contribuições à coloproctologia, especialidade que trata doenças do intestino grosso, reto e ânus, a médica foi responsável por mudar paradigmas no tratamento do câncer de reto. Sua principal contribuição científica foi o desenvolvimento e a consolidação da estratégia conhecida como “watch and wait”, que permitiu, em casos selecionados, evitar cirurgias invasivas após a resposta completa dos pacientes à quimioterapia e à radioterapia.
A abordagem passou a ser adotada em diferentes países e transformou protocolos médicos ao redor do mundo, beneficiando milhares de pacientes.
Nascida em 1933 na Ilha de Marajó, no Pará, Angelita era filha de imigrantes libaneses. Ainda criança, mudou-se para São Paulo com a família. Em 1952, ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), em uma época em que a presença feminina nos cursos de medicina e nos centros cirúrgicos era extremamente rara.
Ao longo da carreira, acumulou feitos inéditos. Tornou-se a primeira mulher a realizar residência em cirurgia no Hospital das Clínicas da USP e também a primeira professora titular de uma especialidade cirúrgica da Faculdade de Medicina da universidade.
A médica enfrentou resistência desde o início da vida profissional. Quando decidiu seguir carreira na cirurgia, ouviu que aquela não era uma área destinada às mulheres. Mais tarde, também precisou superar a recusa de um hospital especializado em Londres, que inicialmente não aceitava mulheres em seu programa de formação. Após insistir, tornou-se a primeira mulher admitida na instituição.
O reconhecimento internacional veio ao longo de décadas de pesquisa e atuação clínica. Em 2022, Angelita entrou para a lista dos 2% de cientistas mais influentes do mundo elaborada pela Universidade Stanford. Ela também foi a primeira brasileira a se tornar membro honorário da tradicional American Surgical Association e recebeu importantes premiações de entidades médicas internacionais.
Durante sua trajetória acadêmica, publicou mais de 200 artigos científicos, participou da formação de gerações de médicos e ajudou a consolidar a pesquisa brasileira na área da cirurgia digestiva e da coloproctologia.
Angelita Habr-Gama também integrou a equipe médica que acompanhou o ex-presidente Tancredo Neves durante sua internação, sendo a única mulher do grupo responsável pelo atendimento.
Nos últimos anos, seguia sendo uma voz ativa na defesa da ciência, da pesquisa médica e da participação feminina em áreas historicamente dominadas por homens.
A morte da médica provoca comoção na comunidade científica e encerra a trajetória de uma das personalidades mais importantes da história da medicina brasileira.