A castanha-da-amazônia produzida por comunidades indígenas de Rondônia acaba de se tornar protagonista de um modelo inovador de geração de renda na Amazônia. Pela primeira vez, além de receberem pelo produto comercializado, os extrativistas passaram a ser remunerados também pelos serviços ambientais associados à conservação da floresta.
A iniciativa foi implementada na Terra Indígena Rio Branco, localizada entre os municípios de Alta Floresta d’Oeste, São Francisco do Guaporé e São Miguel do Guaporé, em Rondônia. O modelo resulta de uma parceria entre a Cooperativa dos Povos Indígenas da Terra Indígena Rio Branco (Coopirb), a empresa Castanhas Ouro Verde e instituições de pesquisa e apoio ao desenvolvimento sustentável, entre elas a Embrapa.
Como funciona o modelo?
Na safra 2025/2026, aproximadamente sete toneladas de castanha-da-amazônia foram comercializadas pela cooperativa indígena.
Além do valor pago pela produção, a empresa compradora destinou um adicional de 20% à Coopirb como pagamento pelos serviços ambientais prestados pelas comunidades durante o manejo da floresta.
Na prática, o reconhecimento financeiro considera que manter a floresta preservada garante benefícios que vão além da produção da castanha, como a conservação da biodiversidade, a proteção das nascentes, a captura de carbono e o equilíbrio climático.
Os recursos adicionais não são distribuídos individualmente. Eles serão investidos pela cooperativa em ações coletivas voltadas ao fortalecimento das comunidades, incluindo infraestrutura, educação, saúde e apoio à própria cadeia produtiva da castanha.
Produzir sem derrubar
O diferencial da iniciativa está justamente na lógica econômica.
Durante décadas, a renda das famílias extrativistas dependia exclusivamente da quantidade de castanha comercializada. Agora, a conservação da floresta também passa a gerar retorno financeiro.
É um modelo que reforça um princípio cada vez mais presente na bioeconomia amazônica: a floresta preservada pode ser economicamente mais valiosa do que sua substituição por outras atividades.
A experiência ocorre em uma área de aproximadamente 236 mil hectares de floresta conservada, manejada por comunidades indígenas que há gerações vivem do extrativismo da castanha.
Um exemplo para outras cadeias da sociobiodiversidade
Especialistas avaliam que a iniciativa pode abrir caminho para novos modelos de remuneração em outras cadeias produtivas da Amazônia, como açaí, borracha, óleos vegetais, sementes florestais e cacau nativo.
Além de ampliar a renda das comunidades tradicionais, mecanismos de pagamento por serviços ambientais tendem a agregar valor aos produtos da floresta, especialmente em mercados que valorizam critérios de sustentabilidade, rastreabilidade e responsabilidade socioambiental.
O que muda na prática?
O novo modelo demonstra que a geração de renda na Amazônia pode ir além da venda dos produtos florestais.
Ao reconhecer financeiramente quem mantém a floresta conservada, a iniciativa fortalece a bioeconomia, cria novas oportunidades para comunidades tradicionais e amplia a competitividade da castanha amazônica em mercados cada vez mais atentos à origem e às práticas socioambientais dos produtos que consomem.
O que acompanhar agora?
A experiência desenvolvida em Rondônia poderá servir de referência para outras organizações extrativistas e cooperativas da Amazônia interessadas em acessar mecanismos de pagamento por serviços ambientais.
O avanço desse modelo também pode impulsionar novas parcerias entre cooperativas, empresas e instituições de pesquisa, fortalecendo cadeias produtivas que conciliam geração de renda, conservação ambiental e desenvolvimento sustentável.
Fonte: Embrapa