Apenas dois dias após o Brasil acompanhar o perdão judicial concedido à mãe do menino Henry Borel, decisão que reacendeu o debate sobre justiça e responsabilização, outra história marcada pela dor e pela busca por respostas ganha destaque.
Enquanto o pai de Henry segue devastado pela perda do filho e inconformado com os desdobramentos do caso, Mirtes Renata também carrega uma ferida que o tempo não conseguiu fechar. Seis anos após a morte de Miguel Otávio Santana da Silva, de apenas 5 anos, ela relembra a tragédia e faz um desabafo contundente em entrevista exclusiva ao NC News.
“Já lutamos mais tempo por justiça do que o tempo que Miguel teve para viver”
Mirtes. Em 2 de junho de 2020, o país parou diante da tragédia: o menino caiu do 9º andar de um prédio de luxo no Recife, após ser deixado sozinho no elevador pela então patroa de sua mãe, Sarí Côrte Real. Hoje, a dor da ausência se mistura à agonia da espera. “São 6 anos sem ouvir a voz do meu filho, 6 anos sem poder abraçá-lo.”
Assista abaixo à íntegra da entrevista, onde Mirtes detalha como têm sido esses anos sem o filho e a exaustiva batalha nos tribunais:
Embora o Tribunal de Justiça de Pernambuco tenha mantido, no último mês de maio, a condenação de Sarí a 7 anos de prisão por abandono de incapaz com resultado morte, a condenada permanece em liberdade. A defesa apresenta sucessivos recursos, e o caso agora deve seguir para o Superior Tribunal de Justiça (STJ). Para Mirtes, a discrepância entre a sentença e a realidade é um tormento diário.
“Seis anos vendo recursos, adiamentos da prisão da condenada e o tempo passar diante dos meus olhos. Eu olho para tudo isso e me pergunto: Quanto tempo mais?”, questiona a mãe, com a voz embargada pela aflição de ver o calendário avançar sem respostas. “Junho não pode terminar sem que a condenada seja presa. 2026 não pode ser mais um ano de espera.”
Desafios da justiça

Os números revelam um dos maiores desafios do sistema de Justiça brasileiro. Em 2026, o país acumula mais de 76 milhões de processos pendentes, após atingir a marca de 84,3 milhões em 2023. A lentidão também aparece nos prazos: um processo leva, em média, 707 dias para chegar ao primeiro julgamento, 804 dias para a primeira baixa e permanece pendente por cerca de 1.271 dias.
Por trás dessas estatísticas estão milhões de brasileiros que aguardam respostas para conflitos familiares, disputas trabalhistas, indenizações e, principalmente, casos que envolvem perda e sofrimento, como o da Mirtes.

Mesmo anos depois da tragédia que comoveu o país, o caso ainda segue marcado por recursos e discussões judiciais, alimentando a sensação de que a demora da Justiça prolonga a dor das vítimas e de suas famílias. Para quem espera uma decisão, cada dia de atraso representa mais do que um número: significa incerteza, desgaste emocional e a sensação de que a reparação nunca chega.
Abismo social
A maior angústia de Mirtes hoje, além da saudade dilacerante de como o menino seria aos 11 anos, é o abismo social que separa as duas famílias. “Tenho medo de que a lentidão vença. Tenho medo de que a demora se transforme em impunidade”, desabafa. “Tenho medo de que, enquanto a condenada segue vivendo sua vida, viajando, sorrindo e construindo novas memórias, a história do meu filho continue presa em recursos sem fim.”
A dor, no entanto, transformou-se em força motriz. Mirtes hoje estuda Direito para não ser refém dos termos jurídicos e para ajudar outras famílias afetadas pela morosidade judicial. Ao final de seu desabafo, ela deixa um apelo contundente à sociedade que se comoveu com a perda de Miguel: “Depois de quase 6 anos, eu só tenho forças para fazer um pedido: Não me deixem lutar sozinha. Essa luta precisa ser de todos.”