A recente decisão da União Europeia (UE) de suspender as compras de carne bovina brasileira a partir de setembro, somada à aproximação do limite das exportações para a China, acendeu um alerta no agronegócio. Embora o cenário pressione o setor exportador e ameace reduzir o volume de vendas internacionais do Brasil nos próximos meses, a expectativa de que essa “sobra” inunde o mercado interno e derrube o preço da carne é, na prática, uma ilusão.
Para Juliana Inhasz, professora de economia do Insper, o impacto no bolso do consumidor brasileiro será praticamente nulo. A explicação passa pela dinâmica dos grandes frigoríficos e pelo real peso da Europa nas nossas exportações.
Redirecionamento rápido e impacto limitado
Segundo Inhasz, a parcela de carne que deixará de ir para a Europa representa uma fração pequena do total exportado pelo Brasil, que hoje tem como principais clientes países como China, Estados Unidos e México.
“Quando um mercado se fecha, é natural pensarmos que vai sobrar carne no Brasil e o preço interno vai cair. Porém, é um mercado muito articulado, dominado por grandes frigoríficos. Eles rapidamente vão conseguir reposicionar esse produto em outros destinos. Portanto, o impacto nos preços internos é muito pequeno. Não podemos nutrir muita esperança de que isso levará a uma grande queda de preço”, explica a economista.
Veto europeu: Sanitarista ou Protecionismo?
Além da questão de mercado, a professora do Insper lança luz sobre o momento político em que o veto europeu ocorre. Oficialmente, a UE alega descumprimento de regras sobre o uso de antimicrobianos na pecuária. No entanto, a decisão acontece logo após o avanço do Acordo entre União Europeia e Mercosul.
Fica muito claro que não é apenas uma questão fitossanitária, mas uma decisão altamente política e protecionista. “O agronegócio europeu foi o setor que mais reclamou desse acordo, temendo perder espaço. O que vemos agora é o setor tentando se proteger, de uma forma ou de outra, dos efeitos que a aliança com o Mercosul pode trazer.”
Quem realmente sai perdendo?
Se o preço no açougue brasileiro não vai cair, o veto europeu fará vítimas específicas dentro da indústria nacional. O prejuízo ficará concentrado nas empresas que se especializaram em atender o rigoroso e exigente mercado do velho continente.
Investimentos perdidos: Diversos frigoríficos fizeram pesados investimentos estruturais e de compliance sanitário exclusivamente para obter a certificação de exportação para a União Europeia.
Cortes Premium encalhados: O mercado europeu consome cortes muito específicos e de alto valor agregado. “Temos exportadores dedicados a esse perfil de carne. Essas empresas vão sofrer muito, pois perdem o acesso ao mercado e o investimento feito não terá retorno”, pontua a professora.