A relação entre Lula e Davi Alcolumbre entrou em um impasse que já começa a produzir custos políticos concretos para o governo. O pano de fundo é conhecido. A rejeição da indicação de Jorge Messias ao STF desgastou a relação entre o Planalto e o presidente do Senado. Desde então, os dois praticamente deixaram de se falar. Nos bastidores, o diagnóstico é direto: o avanço de qualquer pauta relevante no Senado depende de uma conversa entre Lula e Alcolumbre para definir prioridades e estabelecer uma agenda comum para o Congresso. Até agora, não há previsão para esse encontro. Enquanto isso, Alcolumbre transformou a caneta regimental em instrumento de negociação política, e o governo sabe disso. A PEC do fim da escala 6×1 tornou-se o principal termômetro desse impasse. O texto avançou na Câmara dos Deputados com ampla margem de apoio, e Lula foi às redes sociais celebrar o que classificou como uma conquista histórica, agradecendo publicamente ao presidente da Câmara, Hugo Motta. A comemoração, porém, parou na porta do Senado. Alcolumbre já deixou claro que a proposta não terá a mesma velocidade de tramitação e que a Casa não funcionará como mera instância de homologação das decisões tomadas pelos deputados. O episódio mais recente evidenciou o tamanho da tensão. Alcolumbre cancelou uma reunião com o presidente da Comissão de Constituição e Justiça, Otto Alencar, que havia saído de Salvador durante a madrugada para chegar a tempo do encontro. O aviso do cancelamento foi dado por uma secretária quando o senador já estava a caminho. Nos corredores do Senado, a avaliação foi de que o constrangimento poderia ter sido evitado. O Governo tentou reduzir a temperatura. Ministros estiveram na residência oficial de Alcolumbre em gestos interpretados por aliados como sinais de reaproximação. Ainda assim, interlocutores que acompanham as negociações adotam cautela. Para eles, visitas ministeriais não substituem uma conversa direta entre os dois principais personagens dessa crise. Alcolumbre quer falar com Lula, não com seus emissários. O que está em jogo vai muito além da pauta trabalhista. Entre senadores e lideranças partidárias, cresce a percepção de que as decisões regimentais se transformaram em ativos de negociação política. Na prática, quem ocupa a presidência do Senado controla o ritmo da tramitação das matérias e influencia diretamente o destino das prioridades do governo. Alcolumbre conhece esse poder e demonstra disposição para utilizá-lo. Para o cenário nacional, a equação é simples. Sem uma composição com Alcolumbre, Lula corre o risco de chegar ao segundo semestre sem entregas legislativas relevantes e com parte de sua agenda travada às vésperas do ambiente pré-eleitoral. Quando ocorrer, o encontro entre os dois deverá revelar o verdadeiro preço dessa reaproximação. Nos bastidores da capital federal , já há quem especule que a futura vaga no STF possa se transformar em uma das moedas mais valiosas dessa negociação.
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