O alívio foi apenas aparente. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial do país, registrou uma alta de 0,58% em maio. Embora o número represente uma desaceleração quando comparado aos 0,67% registrados em abril, o cenário exige atenção: trata-se da maior inflação para um mês de maio nos últimos cinco anos.
Mais do que superar as projeções do mercado financeiro (que esperava 0,53%), o resultado divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) acendeu um alerta vermelho na economia nacional. Com o índice de maio, a inflação acumulada em 12 meses saltou para 4,72%. Na prática, isso significa que o custo de vida rompeu o teto da meta estipulada pelo Banco Central, que é de 4,5%. Isso não acontecia desde outubro do ano passado.
Os vilões do orçamento: a conta do supermercado
O principal motor dessa alta está em um local sensível para o bolso de qualquer brasileiro: o supermercado. O grupo de “Alimentação e Bebidas” registrou um salto de 1,33% no mês, respondendo sozinho por metade do índice geral de inflação.
Comer em casa ficou significativamente mais caro. A inflação da alimentação no domicílio avançou 1,65%, puxada por disparadas impressionantes em produtos básicos da mesa do trabalhador. A batata-inglesa liderou as altas, encarecendo 44,69%. O tomate subiu 20,62%, a cebola 16,80%, e as carnes registraram acréscimo de 1,39%.
Segundo o IBGE, o peso desses alimentos reflete uma combinação de fatores. Houve uma redução na oferta das colheitas, agravada pelo custo do frete nas rodovias. Embora o óleo diesel tenha apresentado uma queda de 2,34% em maio, o alívio não foi suficiente para compensar os fortes aumentos registrados em março (13,9%) e abril (4,46%), consequências diretas do choque do petróleo provocado pela guerra no Irã.
Energia elétrica: o maior impacto individual
Se a comida pesou, a conta de luz foi o item individual que mais encareceu o custo de vida em maio. O grupo Habitação registrou alta de 1,22%, puxado diretamente pela energia elétrica residencial, que deu um salto de 3,67%.
Essa disparada na luz foi causada pelo retorno da bandeira tarifária amarela (que acrescenta R$ 1,885 a cada 100 kWh consumidos) e por reajustes autorizados em capitais como Aracaju, Fortaleza, Salvador e Campo Grande.
Combustíveis seguram índice maior
A inflação de maio só não foi pior graças aos Transportes, o único grupo a registrar queda no mês (-0,46%). O recuo foi garantido pela redução nos preços dos combustíveis nas bombas. O etanol caiu 6,20%, o óleo diesel recuou 2,34%, e a gasolina baixou 1,46%, atuando como o principal freio individual para o índice geral de inflação do mês.
O que esperar do futuro (e dos juros)
A persistência da inflação altera o tabuleiro econômico para os próximos meses. O mercado financeiro monitora com apreensão a chegada do fenômeno climático El Niño, previsto para atuar com forte intensidade no segundo semestre. A anomalia climática pode prejudicar o agronegócio e manter os alimentos caros até o fim do ano.
Diante desse cenário, o Banco Central se vê pressionado. A meta de inflação é a principal bússola do Comitê de Política Monetária (Copom) para definir a taxa básica de juros (Selic), atualmente em 14,5% ao ano. Com o índice furando o teto e os economistas do Boletim Focus revisando as expectativas de inflação de 2026 para 5,11%, o ciclo de cortes nos juros, iniciado em março, corre sério risco de ser interrompido prematuramente já na próxima reunião do comitê.