O cafezinho segue sendo uma paixão nacional, mas a forma como os brasileiros consomem a bebida está mudando. Se antes a escolha era feita quase exclusivamente pelo preço ou pela marca, hoje cresce o interesse por atributos como origem, rastreabilidade, tipo de torra e características sensoriais dos grãos.
A mudança revela um consumidor mais curioso e disposto a explorar novas experiências. O que antes era considerado um mercado de nicho passou a ganhar espaço nas prateleiras dos supermercados, nas cafeterias e dentro das casas brasileiras.

Os números confirmam essa transformação. Segundo levantamento da Worldpanel by Numerator, a presença dos cafés premium nos lares brasileiros saltou de 26,9% em 2024 para 34,2% em 2025. O crescimento ocorreu em todas as classes sociais e foi ainda mais expressivo entre consumidores das classes D e E, onde a penetração da categoria passou de 20,6% para 29,7%.
A comerciante Sávia Carvalho acompanha essa mudança diariamente. Proprietária de uma loja especializada em cafés no Mercado Central de Belo Horizonte, ela afirma que a procura por produtos premium aumentou cerca de 40% nos últimos anos. Segundo ela, os consumidores estão mais informados e exigentes na hora da compra.
“Hoje o cliente chega querendo saber mais sobre o produto. Muitos procuram cafés 100% arábica, querem entender o tipo de torra, a data da produção e buscam um café mais fresco. O consumo evoluiu muito nos últimos anos e as pessoas estão cada vez mais interessadas em conhecer a qualidade da bebida que levam para casa”, afirma.
Sávia destaca que a moagem na hora continua sendo bastante procurada, mas uma nova tendência vem ganhando força.
“A venda de cafés em grãos cresce constantemente. Muitos consumidores estão comprando moedores para usar em casa e querem participar de todo o processo de preparo. Isso cria uma experiência diferente e aumenta também o nível de exigência do público. Quem trabalha com café precisa estar preparado para orientar o consumidor e oferecer produtos de qualidade”, explica.
Mudança também chega ao campo
Essa transformação não é percebida apenas nos pontos de venda. Ela também pode ser observada na origem da produção. Em Guaxupé, no Sul de Minas, a Cooxupé, considerada uma das maiores cooperativas de café arábica do mundo, acompanha de perto a evolução desse mercado. Um programa voltado para cafés especiais desenvolvidos pelos cooperados, registrou aumento de quase 400% no volume de lotes recebidos para avaliação desde 2019. No mesmo período, a participação de produtores cresceu 678%.
Para Daniel Salguele, que auta como gerente de planejamento da torrefação, o consumidor brasileiro passou a valorizar aspectos que vão além do sabor da bebida.
“Os brasileiros estão mais atentos àquilo que consomem. Hoje, muitos procuram cafés com origem identificada, rastreabilidade e padrões mais elevados de qualidade. O consumidor quer conhecer a história por trás do produto e passou a buscar essas características nas prateleiras dos supermercados e cafeterias”, afirma.
Segundo ele, a aproximação dos preços entre diferentes categorias de café também contribuiu para ampliar o acesso aos produtos premium.
“Nos últimos anos, o café passou por sucessivos reajustes e a diferença de preço entre algumas categorias diminuiu. Isso fez com que muitos consumidores percebessem que era possível investir um pouco mais e experimentar produtos com atributos superiores, tornando os cafés premium mais acessíveis ao consumo cotidiano”, explica.
A mudança de comportamento também se reflete nas formas de consumo. O interesse por cafés em grãos, métodos de preparo e equipamentos domésticos mostra que o brasileiro está cada vez mais envolvido com a experiência do café.
“Existe um interesse crescente por experiências mais completas. Muitas pessoas estão adquirindo moedores para preparar o café na hora, valorizando o aroma e o frescor da bebida. Esse movimento já aconteceu em outros segmentos, como cervejas artesanais e azeites especiais, e agora também se consolida no universo do café”, observa Salguele.
Enquanto o mercado se adapta às novas demandas, uma tendência parece consolidada: o brasileiro continua apaixonado por café, mas agora quer mais do que uma simples bebida. Quer conhecer a origem, entender o processo e transformar cada xícara em uma experiência.