O crime organizado deixou de atuar apenas em atividades ilícitas tradicionais e passou a ocupar espaço na economia formal brasileira. A avaliação é do auditor fiscal da Receita Federal e superintendente substituto em São Paulo, Cláudio Ferrer do Souza, que concedeu entrevista exclusiva ao colunista nacional Elias Pedroza, do NC News.
Durante a conversa, Ferrer detalhou as investigações das operações Carbono Oculto e Fluxo Oculto, que identificaram um sofisticado esquema de lavagem de dinheiro, movimentações bilionárias por meio de fintechs, uso de dinheiro em espécie, operações com criptomoedas e mecanismos de evasão tributária ligados ao mercado de combustíveis.
Segundo a Receita Federal, somente na Operação Fluxo Oculto foram identificadas seis fintechs que movimentaram aproximadamente R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025. As investigações também apontaram que uma única instituição recebeu cerca de R$ 1 bilhão em dinheiro vivo, além de aproximadamente R$ 365 milhões em operações com criptoativos, considerados fortes indícios de lavagem de dinheiro.
Confira os principais trechos da entrevista.
Elias Pedroza (NC News) – Como surgiu a Operação Fluxo Oculto? Ela começou na Receita Federal ou foi resultado do trabalho conjunto com outros órgãos?
Cláudio Ferrer: A Operação Fluxo Oculto é um desdobramento da Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025. Desde o início houve atuação integrada entre diversos órgãos, principalmente a Receita Federal do Brasil (RFB) e o Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP). Também participaram a Polícia Federal (PF), Agência Nacional do Petróleo (ANP), Secretaria da Fazenda de São Paulo, Procuradoria-Geral do Estado e Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional.
Após a Carbono Oculto, houve aprofundamento das investigações com base nas provas reunidas. Esse trabalho revelou novos elementos que justificaram uma nova fase da operação. Na Fluxo Oculto, Receita Federal e Ministério Público continuaram coordenando as principais decisões estratégicas.
Elias Pedroza (NC News) – Qual foi o papel da Receita Federal dentro dessa investigação?
Cláudio Ferrer: A Receita Federal vai muito além da arrecadação de tributos. Como administração tributária, temos profundo conhecimento sobre os segmentos econômicos e conseguimos identificar movimentações incompatíveis com atividades empresariais legítimas.
Hoje, o crime organizado não atua apenas no tráfico de drogas ou armas. Ele está infiltrado na economia formal porque precisa lavar enormes volumes de dinheiro. A inteligência fiscal permite identificar essas movimentações e fornecer informações estratégicas para o Ministério Público, Polícia Federal e demais órgãos de investigação.
O objetivo não é apenas prender integrantes das organizações criminosas, mas atingir a estrutura financeira que sustenta essas atividades.
Elias Pedroza (NC News) – Qual era o papel das fintechs no esquema investigado?
Cláudio Ferrer: As fintechs tiveram papel fundamental na movimentação financeira dos recursos ilícitos. Elas são extremamente importantes para a economia, mas a falta de mecanismos mais rígidos de supervisão permitiu que fossem utilizadas por organizações criminosas.
Na investigação identificamos inicialmente uma grande fintech utilizada para movimentar recursos do esquema. Posteriormente surgiram outras instituições atuando paralelamente.
Somente na Operação Fluxo Oculto foram identificadas seis fintechs que movimentaram cerca de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025.
Elias Pedroza (NC News) – Como esse dinheiro era movimentado? Houve identificação de dinheiro em espécie ou criptomoedas?
Cláudio Ferrer: Identificamos movimentações expressivas em dinheiro vivo. Uma única fintech recebeu aproximadamente R$ 1 bilhão em espécie entre 2022 e 2024, utilizando inclusive empresas transportadoras de valores.
Também foram identificadas cerca de R$ 365 milhões em operações com criptoativos. Esses elementos reforçam os indícios de lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial.
Elias Pedroza (NC News) – A adulteração de combustíveis utilizando nafta também gera prejuízo para os cofres públicos?
Cláudio Ferrer: Essa é uma das razões pelas quais ocorre a adulteração. Existe diferença de tributação entre a nafta destinada à indústria química e a utilizada como combustível. O produto industrial possui carga tributária menor e não pode ser empregado na produção de gasolina.
Quando esse produto é desviado, além do prejuízo ao consumidor, há sonegação de tributos, o que amplia os ganhos das organizações criminosas.
Elias Pedroza (NC News) – A Receita Federal identificou ramificações desse esquema nas regiões Norte e Nordeste?
Cláudio Ferrer: Na Operação Fluxo Oculto especificamente não houve alvos nessas regiões, porque ela foi um desdobramento da investigação inicial.
Entretanto, dentro da Operação Carbono Oculto e de outras investigações relacionadas, identificamos utilização de benefícios fiscais em estados do Norte e Nordeste para importação de combustíveis.
Foram apreendidos cinco navios e constatado que organizações criminosas utilizavam regimes especiais concedidos por alguns estados para reduzir ilegalmente o pagamento de tributos.
Além disso, as investigações apontaram que mais de mil postos de combustíveis integravam a estrutura utilizada para obtenção e lavagem de recursos ilícitos.
Elias Pedroza (NC News) – Além do setor de combustíveis, outros segmentos da economia também vêm sendo utilizados pelo crime organizado?
Cláudio Ferrer: Temos outras operações que demonstram infiltração em diferentes setores econômicos. Identificamos utilização de motéis, franquias, comércio de veículos usados e empresas prestadoras de serviços para lavagem de dinheiro.
Também existem investigações envolvendo atividades ligadas ao setor da saúde.
Esses setores não foram objeto da Operação Fluxo Oculto, mas fazem parte das linhas de investigação da Receita Federal por apresentarem potencial de infiltração do crime organizado.
Elias Pedroza (NC News) – Novas operações podem ocorrer nos próximos meses?
Cláudio Ferrer: Sem dúvida. O trabalho é permanente e o cenário é extremamente preocupante. As operações demonstram que o Estado brasileiro começou a reagir, mas a infiltração do crime organizado na economia formal exige atuação contínua e integrada.
Muito provavelmente haverá novos desdobramentos e novas operações nos próximos meses.