Cidade devastada em 1999 resiste a novo terremoto na Colômbia

Armenia foi destruída por um forte tremor há 27 anos e passou por uma realidade diferente após o abalo mais recente
Redação NC News
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Um terremoto de magnitude 7,4 volta a colocar Armênia, na Colômbia, à prova e revela um cenário radicalmente diferente da devastação sísmica de quase três décadas atrás.

Memória de uma cidade que desabou

Vanessa Porras ainda guarda na pele e na voz a cidade que ruiu quando ela tinha cinco anos. Lembra do chão se movendo enquanto almoçava com a família e da corrida desesperada para a rua, interrompida pela ausência da irmã mais nova, Angie, que havia ido ao quarto instantes antes.

Entre escombros, sangue na cabeça e gritos da mãe, Irma, Vanessa acreditou que a menina estava morta. Horas depois, um novo tremor derrubou o que restava em pé e rearranjou as ruínas. Dos restos da casa, um fio de voz rompeu o silêncio. Vizinhos cavaram um buraco, passaram água, insistiram. “Minha irmãzinha saiu viva”, recorda hoje, adulta, ao lado de Angie e da mãe.

Aquela sequência de abalos matou 971 pessoas, destruiu a Armênia do Eixo Cafeeiro e expôs uma cidade construída com moradias informais e edifícios antigos, incapazes de resistir. A partir dali, o município de 270 mil habitantes seria literalmente refeito do zero.

Quando a terra treme de novo

Na semana passada, o solo colombiano volta a sacudir. O novo tremor, de 7,4, tem epicentro em San José del Palmar, no departamento de Chocó, a cerca de 70 km de Armênia. Vanessa revive o medo, mas encontra outra cidade. A casa permanece em pé, a família está ilesa, as ruas não se enchem de sirenes incessantes como antes.

Desta vez, Armênia registra apenas uma morte, de uma mulher que se joga da varanda, tomada pelo pânico. Fachadas racham, janelas estilhaçam, paredes internas cedem em prédios públicos e residenciais. Nenhum edifício desaba sobre moradores. As imagens contrastam com as fotografias em preto e branco da antiga tragédia, de quarteirões inteiros reduzidos a poeira.

No Colégio Rufino José Cuervo, as sirenes tocam e os protocolos saltam do papel. Em poucos minutos, 1,6 mil estudantes são evacuados para áreas abertas. Não há feridos. A cena se espalha pelas redes locais como síntese de um aprendizado coletivo: o terremoto volta, o pânico não domina a resposta.

Por que um abalo maior destrói menos

A conta, para o leigo, parece ilógica. Como um tremor mais forte causa menos destruição justamente onde antes tudo desabou? A explicação mistura física da Terra, distância e cimento armado.

O geólogo Flover Rodríguez, diretor executivo da Associação Colombiana de Geólogos e Geofísicos da Energia (Acggp), faz a distinção básica. “A magnitude não é a mesma coisa que a intensidade”, afirma. A primeira mede a energia liberada. A segunda, o que as pessoas realmente sentem — e o que as estruturas sofrem.

Nessa tradução entre energia e dano, detalhes importam. O terremoto atual sacode a crosta longe de Armênia: o epicentro está 70 km distante da cidade. No desastre passado, a cidade praticamente repousava sobre o ponto de ruptura, a cerca de 10 km. O caminho das ondas sísmicas até os prédios era curto, quase direto.

O tipo de solo e a profundidade também mudam o desfecho. Solos moles amplificam as vibrações como caixinhas de ressonância. Tremores rasos concentram força na superfície. Tremores mais profundos espalham a energia por áreas maiores. Com isso, certas cidades mais distantes sofrem mais que outras próximas, como se o terremoto escolhesse alvos, quando na verdade responde à geologia sob cada quarteirão.

A engenharia que salva gente, não paredes

Nenhum desses fatores, porém, explica sozinho por que Armênia, e não outras cidades colombianas, atravessa o novo abalo sem repetir a própria catástrofe. A diferença está também no que se ergue sobre o chão. Depois da destruição anterior, a cidade passa por um processo radical de reconstrução com normas sísmicas rígidas.

O engenheiro civil Federico Alejandro Núñez, professor da Universidade Javeriana, lembra o choque técnico da época. “Naquele momento encontramos inúmeras moradias construídas de maneira informal, que não atendiam aos requisitos mínimos”, relata. Casas e edifícios antigos, feitos sem cálculo sísmico, simplesmente não resistiram.

Da crise nasce um pacto urbano. Todas as novas edificações passam a seguir códigos de construção desenhados para suportar tremores fortes. Em vez de buscar paredes intactas a qualquer custo, o foco é a sobrevivência de quem está dentro delas. “As fachadas, as janelas e as paredes internas foram muito afetadas, mas ninguém morreu [em desabamentos], e esse é o objetivo dos códigos de construção”, resume Núñez. “O objetivo não é que nada aconteça com a sua casa, mas sim salvar as pessoas.”

Na prática, isso significa estruturas dimensionadas para balançar sem colapsar, uso de materiais adequados, reforços em pilares e vigas, e fiscalização mais rígida sobre obras públicas e privadas. Significa também custo adicional para construtoras e proprietários, compensado por uma redução drástica no risco de mortes.

Setores em alerta e cidade em reconstrução permanente

O novo terremoto funciona como exame de fim de curso para esse modelo. Na educação, escolas treinam evacuação periódica e investem em rotas de fuga. O Colégio Rufino José Cuervo transforma o plano de emergência em rotina, o que explica a saída organizada dos 1,6 mil alunos na semana passada. Na construção civil, empresas aprendem que o mercado pune edificações frágeis, enquanto valoriza prédios certificados e seguros.

O impacto econômico imediato aparece em paredes rachadas, vidros quebrados e reformas emergenciais. A médio prazo, a expectativa é de ainda mais investimentos em técnicas avançadas, uso de solo melhor estudado e reforço em edificações antigas que sobreviveram ao primeiro grande abalo. A geologia volta ao centro do debate público, antes mais ligado a temas como Colômbia futebol, Colômbia capital ou Colômbia jogo, do que a placas tectônicas.

O turismo, pilar importante da região, sente o choque inicial, mas também se beneficia da narrativa de resiliência. Hotéis e agências vendem uma Armênia que enfrentou dois grandes tremores e hoje exibe prédios de pé, ruas ativas, cafés cheios. Nas buscas por “Colômbia hoje” ou “Colômbia turismo”, a pauta sísmica se mistura à de um país que planeja melhor seus riscos.

O que vem depois do susto

Especialistas defendem que o alívio atual não autoriza acomodação. A experiência colombiana mostra que códigos no papel não bastam: precisam de fiscalização constante, atualização e compreensão popular. Rodríguez insiste que a diferença entre magnitude e intensidade chegue às conversas de família, para diminuir pânico e ampliar a capacidade de reação.

Os próximos meses devem ser marcados por vistorias detalhadas em escolas, hospitais e prédios residenciais. Investigadores analisam como o solo local respondeu ao tremor e onde os danos se concentraram, para ajustar mapas de risco. Engenheiros pressionam por reforço em construções mais antigas que escaparam do ciclo de reconstrução integral.

Vanessa, Angie e Irma simbolizam esse país em vigília: lembram os mortos de ontem, agradecem por estarem vivas hoje e observam as paredes com atenção crítica. A cidade que um dia virou escombros agora testa, a cada tremor, se aprendeu de fato a conviver com a terra em movimento.

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