O Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira (22) pelo Banco Central mostra que o mercado financeiro volta a elevar as projeções para a taxa básica de juros e para a inflação em 2026. As estimativas para o crescimento do PIB e para o dólar também sobem, ainda que de forma mais discreta, em um cenário de incerteza após a guerra no Irã e a última decisão do Copom.
Mercado reage a corte tímido de juros e guerra no Irã
Os economistas consultados pelo Banco Central agora projetam a Selic em 14% no fim de 2026. O número representa alta de 0,25 ponto percentual em relação à estimativa da semana anterior e consolida a segunda revisão consecutiva para cima.
A elevação ocorre poucos dias depois de o Comitê de Política Monetária reduzir a taxa básica para 14,25%, em 17 de junho, e adotar um discurso cauteloso sobre os próximos passos. No comunicado, o Copom afirma que “a magnitude total do ciclo de queda de juros será estabelecida à luz de novas informações visando assegurar a convergência da inflação à meta”.
A mensagem é lida pelo mercado como sinal de que o Banco Central não se compromete com um ciclo longo de cortes. A maioria dos analistas aposta em apenas mais uma redução de 0,25 ponto em agosto, o que levaria a Selic justamente aos 14% previstos para o fim do ano.
A piora das expectativas também reflete o efeito prolongado da guerra no Irã sobre os preços globais de energia e alimentos. Mesmo após o anúncio de um acordo entre Estados Unidos e Irã para encerrar o conflito, as projeções seguem em alta. “Mesmo após o acordo entre Estados Unidos e Irã para finalizar a guerra ter sido anunciado, os economistas continuam prevendo uma inflação e uma Selic cada vez maiores para este ano”, resume Nathália Larghi, do Valor Investe.
Inflação prevista estoura teto da meta pelo 15º boletim seguido
O Focus desta semana aponta que a inflação medida pelo IPCA em 2026 deve chegar a 5,33%. O número supera a marca de 5,30% da semana anterior e marca a 15ª alta consecutiva nas expectativas de preços.
A sequência começa em março, quando os analistas passam a incorporar, de forma mais intensa, os impactos da guerra no Irã. Desde então, a projeção de inflação sai da casa de 3,9% para ultrapassar o limite superior da meta perseguida pelo Banco Central, hoje de 3% ao ano, com tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. Na prática, o teto é de 4,5%.
Com a previsão em 5,33%, o mercado indica que não enxerga, por ora, um retorno da inflação ao intervalo considerado confortável pela autoridade monetária. Em termos práticos, isso significa perda de poder de compra, sobretudo entre famílias de baixa renda, que gastam mais com alimentos, combustíveis e energia, itens diretamente afetados por choques externos.
As projeções de médio prazo também sobem. Para 2027, o Focus vê IPCA de 4,15%, ligeiramente acima da leitura anterior. Em 2028, a expectativa passa para 3,70%. Para 2029, permanece em 3,50%, sinalizando que, mesmo no horizonte mais longo, o mercado não trabalha com inflação muito próxima do centro da meta atual.
Selic alta prolonga crédito caro e aperta consumo
O cenário de Selic projetada em 14% no fim de 2026, após o corte recente para 14,25%, indica que o custo do dinheiro segue alto por mais tempo. Para 2027, o mercado prevê taxa de 12%. Em 2028, 10,25%. Em 2029, 10%.
Na prática, juros elevados encarecem empréstimos, financiamentos e rotativo de cartão. Setores sensíveis ao crédito, como o imobiliário e o de bens duráveis, tendem a sentir o impacto com mais força. Famílias adiam compras de maior valor e empresas reduzem planos de investimento.
O aperto, porém, não atinge todos da mesma forma. Bancos e investidores em renda fixa se beneficiam de retornos mais altos em títulos públicos e privados atrelados à Selic ou à inflação. Para quem consegue poupar, o ambiente de juros elevados preserva, ao menos em parte, o poder de compra das aplicações.
Ao mesmo tempo, o Banco Central tenta calibrar o ritmo de cortes para não reacender a inflação. O comunicado do Copom, ao falar em “convergência da inflação à meta”, reforça que qualquer flexibilização mais agressiva da política monetária depende de sinais concretos de desaceleração dos preços.
PIB sobe pouco, dólar firme e pressão em insumos
Enquanto juros e inflação sobem, o Focus indica leve melhora na expectativa de crescimento. A projeção para o Produto Interno Bruto em 2026 passa de 1,96% para 1,98%, na quinta alta semanal seguida. Para 2027, o mercado prevê avanço de 1,70%. Em 2028 e 2029, o número é de 2,00% em ambos os anos.
O movimento sugere uma recuperação lenta, apoiada em parte pela demanda externa e pela resiliência de alguns serviços, mas contida pelo crédito caro e pela incerteza sobre a trajetória fiscal do país. Com juros elevados e inflação acima do teto da meta, é difícil vislumbrar uma expansão mais robusta do consumo das famílias.
No câmbio, a projeção para o dólar ao fim de 2026 permanece em R$ 5,20. Para 2027, sobe ligeiramente para R$ 5,27. Em 2028, o Focus mantém R$ 5,30, e, em 2029, R$ 5,40.
Um real mais fraco tende a favorecer exportadores de commodities agrícolas e minerais, que recebem em moeda estrangeira e se beneficiam da conversão. Por outro lado, encarece importados e insumos industriais, o que pressiona custos de produção e pode alimentar a inflação, criando um círculo difícil de quebrar.
BC sob pressão às vésperas da ata do Copom
A divulgação das expectativas acontece no intervalo entre a decisão de juros da semana passada e a ata do Copom, prevista para terça-feira (23). O documento deve detalhar a leitura da autoridade monetária sobre a economia local e o cenário internacional, além de explicar a opção por um corte modesto em meio à escalada das projeções de inflação.
O Focus, publicado às segundas-feiras, serve de termômetro da confiança dos agentes econômicos. “Os economistas subiram novamente a previsão para a taxa de juros e a inflação neste ano, de acordo com o boletim Focus divulgado nesta segunda-feira (22)”, resume Fernando Narazaki, da Folha de S.Paulo.
A deterioração das expectativas coloca o Banco Central numa posição mais delicada. Se o IPCA seguir acima do limite de 4,5% e o dólar permanecer pressionado, a instituição pode ser forçada a desacelerar ou até interromper o ciclo de cortes mais cedo do que gostaria. Em horizonte mais longo, a manutenção de juros altos por vários anos, mesmo com alguma queda à frente, tende a frear o crescimento e manter o desemprego em patamar elevado.
Investidores, empresários e consumidores voltam os olhos agora para a ata do Copom e para os próximos boletins Focus. Se o avanço das projeções de inflação não arrefecer nas próximas semanas, aumenta a chance de o BC adotar um discurso mais duro e, na prática, prolongar a travessia de crédito caro e renda apertada que hoje marca a economia brasileira.
O que é o Boletim Focus e quem faz as projeções?
O Boletim Focus é um relatório semanal produzido pelo Banco Central com base em estimativas de economistas de bancos, gestoras e consultorias sobre inflação, juros, PIB e câmbio.
Por que a alta da Selic no Focus mantém o crédito caro?
Porque a Selic é a taxa básica que baliza os juros cobrados pelos bancos. Se o mercado prevê Selic alta por mais tempo, as instituições mantêm empréstimos e financiamentos mais caros.
Como a guerra no Irã entra nas projeções do Focus?
O conflito elevou os preços internacionais de petróleo e alimentos. Esses aumentos chegam ao Brasil via combustíveis e insumos, puxando o IPCA e, por consequência, as expectativas de juros.
Onde consultar o Boletim Focus completo em PDF?
O relatório integral, incluindo séries históricas, está disponível no site do Banco Central, na área de estatísticas e expectativas de mercado, em formato PDF e planilhas.