Direita em guerra consigo mesma. O conflito público entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro ultrapassa uma questão familiar e revela algo mais profundo

 Nos bastidores, o que está em jogo é a disputa por espaço, influência e comando dentro do espectro bolsonarista do país
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O que nos bastidores já era perceptível há meses, Michelle Bolsonaro resolveu tornar público. A direita vive um desalinhamento que vai além de uma disputa familiar. Alinhamento é condição básica para qualquer projeto eleitoral que queira chegar competitivo ao segundo turno. E o que se vê, até agora, é o oposto disso. O que mais chama atenção nesse movimento é o silêncio estratégico de figuras centrais da direita. Após a repercussão do vídeo de Michelle, e do pedido público de desculpas de Flávio, nomes como Tarcísio de Freitas, Nikolas Ferreira e o próprio presidente do PL, Valdemar Costa Neto, seguiram sem pronunciamento público perante o episódio. Nos corredores do poder, esse silêncio não é inocente. É calculado. E há uma razão para isso. Michelle Bolsonaro e Nikolas Ferreira apostavam em Tarcísio de Freitas como o candidato natural da direita para 2026. Com Tarcísio fora da disputa, os dois se distanciaram da pré-campanha de Flávio, escolhido por Jair Bolsonaro como herdeiro político. Nos bastidores, apura-se que Michelle jamais aceitou de bom grado essa composição. Ela se via em outro projeto, como vice de uma chapa encabeçada por Tarcísio, configuração que reunia a maioria dos aliados. Foi o próprio Jair Bolsonaro quem descartou esse arranjo. Aqui reside uma ironia que a política não perdoa: Michelle poderia também ter cobrado o marido. Foi ele quem escolheu Flávio como o nome da direita para a corrida presidencial. E o projeto caminhava até o caso Banco Master cair no colo do pré-candidato. O vazamento de áudio entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro desafiou não só a campanha do senador, mas também os rumos das demais candidaturas da direita e da centro-direita. Não que o caso Master tenha poupado o campo governista. O senador Jaques Wagner, do PT, anunciou a saída da liderança do Governo no Senado após reunião com o presidente Lula, em meio à pressão provocada pela operação da PF que mira suspeitas de pagamentos ligados ao Banco Master. Wagner entregou o cargo muito por conta do peso da imagem pública. A diferença é que, no campo do governo, o problema foi administrado. Na direita, o buraco ainda está aberto. A briga pública entre Michelle e Flávio expõe um racha no clã Bolsonaro, divisões dentro do PL e pode impor uma reorganização do cenário eleitoral para a extrema direita. Flávio se desculpou, chamou Michelle ao alinhamento. Mas quem acompanha os corredores do poder sabe que um pedido de desculpas público não apaga meses de cabo de guerra nos bastidores. Se não houver um alinhamento real e concreto, a direita corre o risco de pavimentar, por conta própria, uma decisão eleitoral improvável, porém favorável a Lula. Em política, o que hoje parece irreversível, amanhã pode mudar de figura. Mas, para isso, o campo oposicionista precisa de coesão. E precisa correr. O calendário eleitoral não espera reconciliações em câmera lenta.

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