Faixa Azul em SP registra aumento de mortes e acidentes, aponta relatório final da CET

Documento enviado à Senatran mostra alta de 19% no número de mortes e aumento de atropelamentos e vítimas não fatais em vias com faixa exclusiva para motocicletas; prefeitura defende continuidade do projeto e diz que medida preserva vidas.
Redação NC News
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Um relatório final elaborado pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) e encaminhado à Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) apontou aumento no número de mortes, acidentes, atropelamentos e vítimas não fatais em avenidas da capital paulista que receberam a Faixa Azul, espaço exclusivo para a circulação de motocicletas.

Os dados comparam períodos antes e depois da implantação da sinalização em diferentes vias da cidade até dezembro de 2025. Apesar da piora em todos os indicadores analisados, a Prefeitura de São Paulo sustenta que a iniciativa representa uma ferramenta de preservação da vida e defende a continuidade do projeto-piloto.

O que aconteceu?

O levantamento mostra que as vias contempladas pela Faixa Azul registraram 68 mortes após a implantação da medida, contra 57 no período anterior, um aumento de 19,2%.

O documento também aponta crescimento nos acidentes com vítimas não fatais, nos atropelamentos e nos sinistros envolvendo motociclistas, ampliando o debate sobre a efetividade da política pública criada para aumentar a segurança no trânsito da capital.

A análise agora está nas mãos da Senatran, órgão responsável por decidir se a experiência poderá ser transformada em regulamentação definitiva em todo o país ou se continuará apenas como projeto experimental.

O que é a Faixa Azul?

A Faixa Azul consiste em um corredor exclusivo para motocicletas implantado entre as faixas de rolamento dos automóveis.

A proposta surgiu para organizar o fluxo das motos, reduzir mudanças bruscas de faixa e diminuir conflitos entre motociclistas e motoristas.

Atualmente, o modelo funciona de maneira experimental e depende de autorização federal para sua manutenção e possível expansão.

Até que a análise técnica seja concluída, São Paulo pode manter as faixas já existentes, mas não está autorizada a criar novos trechos.

Quais números aparecem no relatório?

Os dados apresentados mostram piora em diferentes indicadores de segurança viária:

Mortes no trânsito

  • Antes da Faixa Azul: 57 mortes
  • Depois da Faixa Azul: 68 mortes
  • Aumento: 19,2%

Vítimas não fatais

  • Antes: 2.455 pessoas
  • Depois: 2.840 pessoas
  • Crescimento: 15,6%

Atropelamentos fatais

  • Antes: 10 mortes
  • Depois: 25 mortes
  • Alta: 150%

Atropelamentos com sobreviventes

  • Antes: 125 casos
  • Depois: 155 casos
  • Crescimento: 24%

Acidentes com vítimas envolvendo carros e motos

  • Antes: 2.016 ocorrências
  • Depois: 2.295 ocorrências
  • Alta: 13,8%

Os números indicam que o aumento dos acidentes superou inclusive o crescimento do fluxo de motocicletas nas vias analisadas.

Por que especialistas criticam a Faixa Azul?

Especialistas em mobilidade urbana afirmam que a faixa exclusiva pode estimular o aumento da velocidade das motocicletas, criando uma sensação de corredor livre e reduzindo a percepção de risco dos condutores.

Pesquisas acadêmicas citadas no debate apontam que a maior fluidez pode incentivar comportamentos mais agressivos no trânsito, elevando o risco de colisões e atropelamentos.

Por outro lado, defensores da medida argumentam que a organização do espaço viário reduz conflitos entre carros e motos e tende a produzir benefícios no longo prazo.

O que diz a Prefeitura de São Paulo?

Mesmo diante dos números apresentados no relatório, a gestão municipal sustenta que a Faixa Azul se consolidou como uma tecnologia de preservação da vida.

A administração utiliza uma metodologia chamada Taxa de Severidade, que considera fatores como extensão da via, fluxo de veículos e período analisado para calcular o impacto dos acidentes.

Segundo esse indicador, a média geral teria caído de 7,9 para 5,8 pontos, representando redução de 26,5%.

Críticos, porém, afirmam que a metodologia pode distorcer os resultados ao atribuir o mesmo peso estatístico para avenidas de grande circulação e ruas muito menores, o que influenciaria a média final.

O que está sendo questionado sobre os dados?

Outro ponto que gerou debate envolve a classificação dos acidentes registrados.

Parte dos sinistros fatais não possuía identificação sobre ter ocorrido dentro ou fora da Faixa Azul. Mesmo assim, esses casos foram posteriormente agrupados como ocorrências fora da faixa exclusiva na apresentação consolidada dos dados.

Especialistas questionam se essa metodologia pode interferir na interpretação dos resultados e na conclusão sobre a eficácia do projeto.

A Prefeitura, por sua vez, argumenta que o aumento dos acidentes estaria relacionado justamente à não utilização correta da Faixa Azul por parte dos motociclistas.

O que acontece agora?

A decisão final cabe à Secretaria Nacional de Trânsito.

O órgão federal analisa os relatórios enviados pelos municípios participantes para verificar a consistência das informações e definir os próximos passos da política pública.

As possibilidades incluem:

  • manter o projeto em caráter experimental;
  • regulamentar definitivamente a Faixa Azul;
  • determinar ajustes técnicos;
  • ou até exigir a retirada da sinalização caso a medida seja considerada ineficaz.
  • Ainda não existe prazo oficial para a conclusão dessa análise.

Qual o impacto para a população?

A discussão vai além dos motociclistas.

São Paulo possui uma das maiores frotas de motos do país, impulsionada principalmente pelo crescimento dos serviços de entrega e transporte por aplicativo.

Qualquer decisão sobre a Faixa Azul afeta diretamente milhões de pessoas, incluindo trabalhadores que dependem das motocicletas para gerar renda, motoristas, pedestres e usuários do sistema viário.

O resultado da avaliação da Senatran poderá influenciar futuras políticas de mobilidade urbana em outras cidades brasileiras.

Entenda o contexto

Criada como projeto experimental, a Faixa Azul surgiu como alternativa para reduzir acidentes envolvendo motociclistas e organizar melhor o trânsito nas grandes avenidas da capital paulista.

Nos últimos anos, o crescimento acelerado do número de motos nas ruas aumentou a pressão por soluções que garantissem mais segurança e fluidez no tráfego.

O relatório final da CET abre uma nova etapa desse debate, colocando em confronto diferentes metodologias, interpretações estatísticas e visões sobre os impactos reais da medida.

A decisão da Senatran poderá definir não apenas o futuro da Faixa Azul em São Paulo, mas também servir de referência para outras cidades brasileiras que estudam adotar modelos semelhantes.

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