A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) confirma neste 30 de junho de 2026 que não vai ao encontro com mulheres conservadoras organizado por Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para 1º de julho, em Brasília, e ameaça abandonar a colaboração com a campanha presidencial do senador.
Ruptura em público às vésperas de ato feminino
A decisão ocorre a menos de quatro meses das eleições de 2026 e atinge o ponto mais sensível da pré-campanha de Flávio: a relação com o eleitorado feminino. O evento de terça-feira nasce justamente para tentar reduzir a rejeição do pré-candidato entre mulheres, mas perde uma de suas principais vitrines conservadoras e evangélicas.
Damares confirma a aliados e em declarações públicas que não comparece e sugere que Michelle Bolsonaro, ex-primeira-dama e outra estrela do grupo, também deve ficar de fora. “Não vou não. Acho que a Michelle também”, afirma a senadora, ao ser questionada sobre a presença no ato.
Vídeos de Michelle detonam crise familiar e política
A ruptura se intensifica depois de 24 de junho de 2026, quando Michelle Bolsonaro divulga nas redes um vídeo de 27 minutos com críticas ao enteado Flávio. Ela relata tratamento ríspido, reclama de ter sido afastada de decisões partidárias e expõe divergências sobre palanques estaduais do PL.
O movimento rompe a tentativa de pacificação interna e transforma em crise aberta o desconforto que vinha crescendo no entorno bolsonarista. Flávio reage em público e classifica o episódio como “página virada”, mas as reações no grupo mostram que o conflito está longe de encerrado.
Damares, uma das aliadas mais próximas de Michelle entre conservadores e evangélicos, sai em defesa da ex-primeira-dama e, ao mesmo tempo, tenta evitar uma ruptura definitiva com o pré-candidato. O fio de equilíbrio, porém, se rompe após dias de ataques de aliados de Flávio nas redes sociais.
Fogo amigo digital acelera afastamento
O estopim vem de um embate público com o jornalista Paulo Figueiredo, aliado de Eduardo Bolsonaro. Irritado com a indefinição de Damares sobre participar do encontro feminino, ele cobra mais empenho da senadora na pré-campanha.
“Espero ações enfáticas de Damares na campanha de Flávio e que a mesma não siga apenas ‘orando’”, escreve Figueiredo, em referência a entrevista na qual a senadora diz estar em oração para decidir se adere à agenda de Flávio.
Damares reage em tom de recado interno ao bolsonarismo. Afirma que não é figura decorativa nem ativista de rede social. “É uma mulher que não fica atrás de um computador, mas encara as lutas e demandas em pé, olhando nos olhos dos adversários”, diz, ao defender sua trajetória conservadora e seu trabalho legislativo.
Outros influenciadores ligados ao bolsonarismo, como Oswaldo Eustáquio, engrossam ataques e passam a associar a senadora a uma suposta “militância feminista”, além de fazer insinuações sobre sua vida pessoal. A escalada é vista no entorno de Damares como quebra de confiança e falta de comando político na campanha de Flávio.
Plano para mulheres perde principal articuladora
A ausência de Damares no encontro feminino atinge em cheio uma estratégia central da campanha. A convite de Daniella Marques, ex-presidente da Caixa e hoje um dos nomes cotados para vice na chapa de Flávio, a senadora vinha sendo sondada para formular propostas na área de direitos humanos, assistência social e políticas para mulheres.
O plano em elaboração prevê um programa específico para o público feminino, com foco em combate à violência doméstica, incentivo ao empreendedorismo e valorização da chamada economia do cuidado. O lançamento está previsto para julho, com a intenção de sinalizar moderação e sensibilidade social de Flávio.
Sem Damares, a iniciativa perde uma voz com trânsito entre lideranças evangélicas, movimentos conservadores e bases femininas no Distrito Federal e em outros estados. A senadora chega ao Senado em 2023 com esse capital político, acumulado desde o período em que comanda o ministério de Jair Bolsonaro.
No cálculo da campanha, sua participação serviria como ponte entre o discurso duro do bolsonarismo e a tentativa de mostrar abertura ao diálogo com mulheres de perfil religioso, mas sensíveis a pautas de proteção social.
PL tenta conter danos e falar ao eleitorado feminino
A crise interna acende o alerta no comando do PL. O presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto, agenda uma reunião com Michelle Bolsonaro para tentar restabelecer canais com a ex-primeira-dama e reduzir o desgaste com Flávio. A avaliação no partido é que o racha familiar contamina a estratégia eleitoral e afasta lideranças regionais.
Flávio tenta mostrar controle da situação e mantém o roteiro de pré-candidato, com viagens e articulações para montar palanques estaduais. Nos bastidores, porém, aliados admitem preocupação com a imagem de desorganização e conflito permanente, em contraste com o discurso de ordem e autoridade que o bolsonarismo costuma vender ao eleitorado.
O setor mais pragmático do PL vê na saída de Damares do evento um sinal de que outras figuras do campo conservador podem se afastar se a crise se prolongar. O temor é que lideranças religiosas e influenciadores digitais passem a adotar postura de neutralidade ou apoiem alternativas da direita que se apresentem com menos ruído.
Quem ganha, quem perde e o que vem pela frente
No curto prazo, a decisão de Damares limita o alcance do encontro com mulheres conservadoras e fragiliza o esforço de Flávio para reduzir a rejeição entre eleitoras. Adversários já monitoram a fissura para explorar o desgaste do grupo nas redes e em debates estaduais.
O bolsonarismo perde uma interlocutora com legitimidade para defender pautas femininas sem romper com o discurso conservador. O vácuo deixa a campanha mais dependente de Michelle, cuja participação agora é incerta e marcada pela tensão com o próprio pré-candidato.
Se a crise não é contida rapidamente, o episódio tende a acelerar realinhamentos na direita e a abrir espaço para que outras lideranças ocupem o nicho de conservadorismo religioso com discurso mais afinado às demandas de mulheres. As próximas semanas, até o lançamento oficial do programa voltado ao público feminino em julho, devem indicar se o gesto de Damares é ponto fora da curva ou prenúncio de um desengajamento mais amplo da base bolsonarista.
Damares Alves vai sair oficialmente da campanha de Flávio?
Até o momento, Damares ameaça deixar de colaborar, mas não anuncia rompimento formal. O afastamento do encontro de 1º de julho é visto como primeiro passo de distanciamento.
Michelle Bolsonaro participa do encontro com mulheres conservadoras?
Damares afirma que “acha” que Michelle também não irá ao evento. Até esta segunda-feira, a presença da ex-primeira-dama segue incerta e cercada de tensão.
Por que o eleitorado feminino é considerado ponto fraco de Flávio Bolsonaro?
Pesquisas internas indicam rejeição maior entre mulheres, em especial por associação ao discurso agressivo do bolsonarismo. A campanha tenta responder com propostas sobre violência doméstica e renda.