A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) avisa, na tarde de 30 de junho de 2026, que não irá ao encontro de Flávio Bolsonaro com mulheres conservadoras, marcado para 1º de julho em Brasília. A ausência, comunicada em meio a uma crise familiar e política com Michelle Bolsonaro, amplia o racha no bolsonarismo às vésperas de um dos principais eventos voltados ao eleitorado feminino da campanha.
Crise doméstica vira problema de campanha
O gesto de Damares atinge em cheio a estratégia de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato ao Planalto, de recuperar terreno entre as eleitoras, ponto frágil do bolsonarismo desde o último Mundial de Seleções. A campanha prepara para julho um pacote de propostas para mulheres, com foco em combate à violência doméstica, empreendedorismo e economia do cuidado. Sem Damares, uma das vozes mais conhecidas da pauta conservadora de direitos humanos e assistência social, o lançamento perde densidade simbólica e política.
A senadora constrói sua imagem como defensora de causas ligadas à família, infância e fé desde que se torna ministra de Jair Bolsonaro, em 2019. Hoje, seu capital junto a segmentos evangélicos e conservadores é visto como peça-chave para qualquer tentativa de Flávio de recompor pontes com esse público. O recuo, porém, revela que a disputa interna no clã Bolsonaro pesa mais que a agenda programática.
Vídeo de Michelle acende o pavio
O estopim da crise ocorre em 24 de junho de 2026, quando Michelle Bolsonaro divulga vídeos nas redes sociais relatando ter sido desrespeitada por Flávio em uma conversa sobre articulações do PL no Ceará. Ela afirma que o enteado tenta afastá-la das decisões partidárias e a trata de forma ríspida. A queixa, de quase meia hora, expõe divergências sobre palanques estaduais e transforma um conflito familiar em embate político aberto.
Damares, aliada histórica de Michelle, sai em defesa da ex-primeira-dama e tenta, nos bastidores, diminuir o dano público. A relação com Flávio, no entanto, já vinha marcada por desconfiança. A senadora havia sido sondada para colaborar com a redação de programas de direitos humanos e assistência social da campanha, convite articulado pela ex-presidente da Caixa Daniella Marques, cotada para a vice na chapa. A ideia de Daniella é usar o nome de Damares para sinalizar moderação e atenção a políticas sociais, sem romper com o discurso conservador.
Os planos começam a desandar quando aliados de Eduardo Bolsonaro cobram, em público, mais empenho da senadora em favor de Flávio. No X, antigo Twitter, o jornalista Paulo Figueiredo, ligado ao grupo do deputado cassado, dispara que “espero ações enfáticas de Damares na campanha de Flávio e que a mesma não siga apenas ‘orando’”.
“Não vou. Acho que a Michelle também”
Pressionada por críticas e após ser atacada por influenciadores bolsonaristas que a acusam de tibieza, Damares endurece o discurso. Ao chegar ao plenário do Senado, em Brasília, na terça-feira, responde a quem pergunta se irá ao encontro com mulheres conservadoras no dia seguinte: “Não vou. Acho que a Michelle também”.
A frase, curta e calculada, ecoa no Congresso e nas redes. Em seguida, a senadora reage à cobrança de militantes que a acusam de se esconder atrás de pregações religiosas e discursos on-line. Ela diz que é “uma mulher que não fica atrás de um computador, mas encara as lutas e demandas em pé, olhando nos olhos dos adversários”. A declaração mira críticos como Paulo Figueiredo e outros influenciadores que, de fora do país, exigem radicalização no front interno.
Damares também deixa vazar a interlocutores a ameaça de desistir de vez de colaborar com a campanha de Flávio, caso os ataques prossigam. O recado circula entre senadores aliados e dirigentes partidários. A avaliação no entorno da parlamentar é que, sem um gesto público de respeito e proteção por parte do comando da campanha, não há clima para que ela assuma papel de destaque.
PL tenta apagar incêndio
Enquanto isso, a cúpula do PL corre para conter o estrago. O presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto, marca para os próximos dias uma reunião com Michelle Bolsonaro. A meta é duplamente sensível: apaziguar a crise doméstica entre madrasta e enteado e impedir que o racha contamine a organização da campanha nos estados.
Flávio, por sua vez, tenta tratar o episódio como superado. Em conversas com aliados, descreve a polêmica com a madrasta como “página virada”. O discurso público, porém, não basta para recompor a confiança. A ausência de Michelle e Damares no evento de 1º de julho, em Brasília, fragiliza a imagem de unidade que o encontro pretende vender. As duas são, na prática, os principais rostos femininos associados ao bolsonarismo raiz.
No entorno de Daniella Marques, o clima é de frustração. O programa para mulheres, previsto para ser detalhado em julho, nasce sob suspeita de improviso e disputa de bastidores. A promessa de combater a violência doméstica e incentivar o empreendedorismo feminino esbarra na incapacidade da campanha de engajar, de forma estável, as figuras que concentram influência nesses temas.
Quem ganha e quem perde com o racha
A decisão de Damares de se afastar do ato não atinge apenas o núcleo duro bolsonarista. Organizações ligadas à pauta conservadora de direitos humanos, redes de igrejas evangélicas e movimentos de mulheres que orbitam o campo da ex-ministra passam a questionar o grau de compromisso da campanha de Flávio com essa agenda. Dirigentes que antes viam o pré-candidato como herdeiro natural do capital político de Jair Bolsonaro agora calculam o custo de se envolver em um projeto marcado por conflitos familiares e disputas de vaidade.
No Congresso, parlamentares da base conservadora observam com preocupação. Sem Damares na linha de frente, o espaço para outras lideranças femininas aumenta, mas o risco de dispersão também. A instabilidade abre brecha para adversários de centro e de esquerda buscarem o voto feminino com narrativas de proteção social mais estruturadas, enquanto o bolsonarismo patina em brigas internas.
A imagem pública de Damares também passa por teste. A senadora, que hoje é conhecida nacionalmente e ainda se associa a episódios de forte apelo emocional de sua gestão no governo Bolsonaro, tenta equilibrar lealdade a Michelle, defesa de sua própria trajetória e preservação de capital político para 2026 e além. O rompimento com um único evento pode ser, para ela, um aviso de que não aceitará ser figurante em um jogo comandado por outros.
Próximos passos e riscos eleitorais
O encontro de 1º de julho em Brasília, pensado para mostrar um bolsonarismo capaz de dialogar com mulheres conservadoras, ocorre agora sob o fantasma das cadeiras vazias de Michelle e Damares. A reunião de Valdemar Costa Neto com a ex-primeira-dama, ainda sem data tornada pública, se torna ponto crítico para definir se a crise recua ou se abre um processo de afastamento gradual entre os distintos polos do bolsonarismo.
Se o impasse não se resolve até o lançamento oficial do programa feminino em julho, a campanha de Flávio corre o risco de chegar ao período decisivo das eleições de 2026 com frentes rachadas e discurso desencontrado para metade do eleitorado. A disputa interna que hoje se dá em vídeos, postagens e recados de bastidor pode se traduzir, nas urnas, em perda concreta de votos e em espaço extra para adversários que saibam explorar a sensação de desordem no campo conservador.
Damares ainda pode voltar à campanha de Flávio?
Ela não rompe formalmente com a campanha, mas ameaça abandonar a colaboração se continuarem ataques de aliados. A reconciliação depende de gestos públicos da cúpula do PL.
Qual é o papel de Michelle Bolsonaro nessa disputa?
Michelle desencadeia a crise ao relatar ter sido desrespeitada por Flávio em 24 de junho. Sua adesão ou distância da campanha influencia o eleitorado conservador e evangélico.
O que está em jogo no programa feminino da campanha?
O pacote reúne propostas contra a violência doméstica, estímulo ao empreendedorismo e apoio à economia do cuidado. A presença de Damares daria legitimidade a essas pautas entre conservadores.