Morre Hikaru Kurosaki, o Jaspion, aos 64 anos no Japão

Ator e dublê japonês conhecido como Jaspion falece aos 64 anos em Okinawa, deixando fãs e amigos consternados.
Redação NC News
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Hikaru Kurosaki, ator e dublê japonês que vive o herói de O Fantástico Jaspion, morre aos 64 anos em Motobu, Okinawa. A morte é confirmada por um amigo próximo. A causa não é divulgada.

Confirmação discreta em Okinawa

A notícia parte de Masaki Sekiguchi, integrante da Associação de Mergulho da Cidade de Motobu, onde Kurosaki vive há mais de 30 anos. O ator se afasta da TV no início dos anos 1990 e passa a trabalhar como instrutor de mergulho na operadora Mother Earth.

Em comunicado enviado ao setor de turismo subaquático local, Sekiguchi informa o falecimento e explica por que decide tornar pública a morte do amigo. “Comunicamos, com pesar, o falecimento do Sr. Kurosaki, da operadora Mother Earth, membro da Associação de Mergulho da Cidade de Motobu. Como o Sr. Kurosaki morava sozinho, enviamos este comunicado para informar as empresas e parceiros do setor”, escreve.

Até o momento, nem autoridades nem familiares revelam a causa da morte ou detalhes sobre velório e cerimônias fúnebres. O silêncio alimenta curiosidade de fãs em todo o mundo, mas também preserva a privacidade de quem convive com o ator em sua vida anônima em Okinawa.

Do tarzan galáctico ao anonimato no mar

Nascido em 31 de janeiro de 1962, em Sakai, na província de Osaka, Kurosaki entra no entretenimento ainda adolescente. Em 1978, aos 16 anos, ele ingressa na Japan Action Club, famosa escola de dublês criada por Sonny Chiba. O caminho é físico, disciplinado e quase sempre invisível aos créditos.

Nos anos seguintes, o jovem dublê aparece em produções da Toei que mais tarde ganham status de culto entre fãs brasileiros: a versão japonesa de Homem-Aranha (1978-1979), Battle Fever J (1979-1980), Denshi Sentai Denjiman (1980-1981) e Choudenshi Bioman (1984). Em todas, ele entra em cena para apanhar, saltar, cair e levantar, dando verossimilhança aos golpes e explosões do tokusatsu, o gênero de efeitos especiais que mistura super-heróis, monstros e fumaça colorida.

A transição para a atuação vem com a série de época Hattori Hanzô: Kage no Gundan, exibida entre 1980 e 1982. Kurosaki interpreta vários personagens, mostrando versatilidade além do corpo atlético. O trabalho em Bioman, em 1984, chama a atenção da Toei, que procura um novo rosto para liderar sua próxima franquia de heróis de armadura metálica, o subgênero que ficaria conhecido como Metal Hero.

Em 1985, ele veste a armadura prateada e se torna o protagonista de O Fantástico Jaspion, produzido entre 1985 e 1986. No Japão, a série tem recepção apenas razoável. No Brasil, alguns anos depois, vira explosão cultural.

Fenômeno brasileiro da TV Manchete

Quando a extinta Rede Manchete estreia O Fantástico Jaspion no fim dos anos 1980, o país vive entre planos econômicos fracassados, hiperinflação e uma infância colada na TV aberta. O herói espacial de armadura metálica, moto futurista e robô gigante encontra um público pronto para adotá-lo.

A dublagem em português, o tema de abertura e a mistura de ação, humor e efeitos práticos transformam a série em febre de recreio. Brinquedos, álbuns de figurinha e fitas de vídeo alimentam o fascínio. Para uma geração inteira, Jaspion é mais familiar que muitos heróis ocidentais. Kurosaki, um jovem japonês que poucos sabem o nome verdadeiro, vira rosto onipresente em tardes e manhãs de televisão.

O sucesso brasileiro abre caminho para outras produções japonesas, de Changeman a Cavaleiros do Zodíaco, e ajuda a consolidar um público fiel para cultura pop vinda do Japão. No universo Metal Hero, o protagonista de Jaspion se torna referência estética e comportamental, com seu jeito expansivo e físico, muito distante do herói introspectivo de Hollywood.

Mesmo com a fama internacional, Kurosaki não mantém carreira longa na frente das câmeras. Depois do fim de Jaspion e de uma participação em Furikaereba yatsu ga iru, série de 1993, ele decide encerrar a trajetória artística. Trabalha como vendedor de motocicletas, administrador de lanchonete e, por fim, encontra no mergulho um novo palco – sem holofotes.

Legado para fãs e para uma comunidade litorânea

Em Motobu, pequena cidade litorânea de Okinawa, Kurosaki se reinventa como instrutor de mergulho. Na operadora Mother Earth, guia turistas e mergulhadores por recifes e cardumes, longe das convenções de cultura pop que continuam a celebrá-lo fora do Japão. Colegas de trabalho o tratam como “um cidadão comum”, embora saibam do passado nas telas.

A morte atinge em duas frentes diferentes. Para a comunidade local, representa a perda de um profissional experiente, que acompanha o crescimento do setor desde uma época em que “existiam apenas cerca de seis operadoras de mergulho na região”, como destaca Sekiguchi em mensagem mais longa. Entre mergulhos e problemas práticos, ele é descrito como companheiro de alegrias e dificuldades.

Entre fãs brasileiros, a notícia chega com peso de fim de capítulo. O ator se torna símbolo de infância, de tardes na frente da TV e de uma relação afetiva com o Japão que antecede em décadas a febre de animes em streaming. Eventos de cultura pop, influenciadores e colecionadores já se movimentam para organizar homenagens, revisitar episódios, exibir dublagens clássicas e recuperar entrevistas raras.

O mercado de entretenimento deve reagir rápido. Canais que possuem direitos de exibição da série podem planejar maratonas, especiais e resgates históricos. Editoras e pesquisadores, por sua vez, encontram ali um gancho para discutir a importância do tokusatsu na formação da cultura televisiva brasileira e sua influência em gerações de artistas, dubladores e fãs.

No Japão, onde a série não alcança o mesmo furor, a repercussão tende a ser mais contida, restrita a círculos de dublês, atores de ação e entusiastas de Metal Hero. Mas a trajetória de Kurosaki, de dublê anônimo a ícone global e depois instrutor de mergulho longe dos holofotes, ilustra um tipo de carreira raro, que atravessa indústrias distintas sem perder a coerência pessoal.

Memória em construção

Enquanto familiares e amigos decidem como serão as despedidas em Okinawa, o legado de Hikaru Kurosaki passa por nova etapa de ressignificação. A ausência de detalhes sobre a causa da morte alimenta especulações, mas também reforça a importância de respeitar a fronteira entre personagem público e indivíduo privado.

Para milhões de brasileiros, Jaspion continua vivo em reprises, vídeos na internet e memórias de infância. A tendência é que, nas próximas semanas, o nome do ator reapareça em buscas por “Morre Jaspion”, “Jaspion em português” ou “Jaspion onde assistir”, reativando um interesse que já não depende da indústria japonesa, mas da nostalgia de quem cresceu com o herói metálico.

A morte de Kurosaki também pode estimular pesquisas acadêmicas e reportagens sobre o papel do tokusatsu na história da televisão no Brasil, um tema ainda menos explorado do que o impacto dos animes. O tempo dirá se esse movimento resultará em livros, documentários ou novos projetos audiovisuais. Por ora, o que se consolida é a imagem de um artista que, depois de marcar gerações diante das câmeras, escolhe viver três décadas sob a superfície do mar, longe da fama que nunca deixou de existir para seus fãs.

Que ano surgiu o Jaspion?

A série O Fantástico Jaspion é produzida e exibida originalmente no Japão entre 1985 e 1986. No Brasil, chega ao fim dos anos 1980 pela Rede Manchete.

Quem é Jaspion?

Jaspion é o herói da série japonesa O Fantástico Jaspion, um jovem guerreiro espacial de armadura metálica que combate monstros e vilões em aventuras de ficção científica.

 

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