O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio Elias Rosa, declarou nesta quinta-feira (2) que “atropelos” provocados por terceiros estão prejudicando as negociações entre o Brasil e os Estados Unidos para tentar reverter o recente tarifaço anunciado pelo presidente norte-americano Donald Trump.
Apesar das dificuldades, o ministro destacou que a ordem expressa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é “nunca” abandonar a mesa de negociações e deixar as questões ideológicas de lado. A declaração foi dada no Rio de Janeiro, após Elias Rosa ser questionado sobre as conversas mantidas com o representante comercial da Casa Branca, Jamieson Greer.
Com um prazo-limite imposto por Washington para o dia 15 de julho, o governo brasileiro corre contra o tempo para tentar alcançar um consenso diplomático e econômico.
A influência política e os “atropelos”
Questionado sobre quais seriam exatamente os obstáculos que estão travando os avanços, o ministro foi direto ao apontar comportamentos de opositores políticos que comemoraram ou reivindicaram a autoria das sanções.
“A publicação, por quem estava nos Estados Unidos, um ex-deputado federal se dizendo autor ou patrocinador do tarifaço de encomenda. Ao mesmo tempo, aqui no Brasil, alguém celebrando nas redes sociais o fato de ter sido imposta. Essas pessoas sempre dificultam muito o trabalho”, afirmou Elias Rosa.
O comentário faz referência direta às ações de integrantes da família Bolsonaro, especialmente do ex-deputado Eduardo Bolsonaro. No ano passado, quando a gestão Trump aplicou uma sobretaxa de 50% contra produtos brasileiros, Eduardo agradeceu publicamente a medida, o que levou o presidente Lula a classificar os filhos do ex-presidente como “traidores da pátria”.
Para o ministro, essas atitudes “poluem o diálogo” ao levar questões ideológicas e “pessoalmente oportunistas” para uma mesa que deveria tratar exclusivamente de comércio bilateral.
Planalto cético e argumentos ignorados
Nos bastidores do Palácio do Planalto, a esperança de uma vitória diplomática completa já se esgotou. Auxiliares do presidente Lula admitem, sob reserva, que não acreditam mais na reversão total do tarifaço. A avaliação do governo é que a decisão do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) tem motivações puramente políticas, e não técnicas, restando apenas a esperança de conseguir alguma exceção ou redução da taxa.
A frustração brasileira é embasada em documentos oficiais. Integrantes do Itamaraty relataram que os relatórios do USTR contendo as alegações iniciais (de julho de 2025) são “praticamente iguais” à recomendação final emitida em junho de 2026.
Na prática, isso evidencia que todos os dados técnicos apresentados pelas delegações brasileiras ao longo de um ano — como os números que comprovam a queda do desmatamento — foram sumariamente ignorados pelos norte-americanos. Na quarta-feira (1º), no último dia do prazo, o chanceler Mauro Vieira formalizou a resposta oficial do Brasil, argumentando que as críticas dos EUA ao sistema financeiro (PIX) e à Justiça brasileira configuram divergências de política interna, e não violações comerciais.