Crédito travado e táxi-lotação expõem impasse na mobilidade

Dificuldades no acesso ao crédito e alternativas como táxi-lotação revelam desafios no transporte em grandes cidades.
Redação NC News
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Um pacote de R$ 30 bilhões para renovar táxis e carros de aplicativo entra em operação em 2026, mas esbarra nos bancos e irrita o governo federal. Em paralelo, São Paulo discute um programa de modernização e inclusão para taxistas, enquanto Rio Branco, no Acre, libera táxi-lotação a R$ 5 para driblar o colapso do transporte por ônibus.

Crédito bilionário, aprovação mínima

Lançado em maio de 2026, o Move Brasil Táxi e Aplicativos promete financiar carros 0 km de até R$ 150 mil para taxistas e motoristas de aplicativo, via BNDES. A expectativa de montadoras e concessionárias é vender até 200 mil veículos com a linha de crédito.

Os primeiros dias de operação, em junho e julho, mostram um retrato bem menos animador. Bancos rejeitam uma parte expressiva dos cadastros, alegando risco de inadimplência e impondo exigências que contrariam as regras anunciadas pelo governo.

O ministro da Secretaria Geral da Presidência, Guilherme Boulos, aponta as instituições financeiras como responsáveis pelo travamento. “Os bancos estão rejeitando os cadastros pela taxa de risco do banco. Isso é inadmissível, porque a diferença do Move Brasil para uma linha de crédito normal de um banco é o fundo garantidor, com o qual o governo está entrando”, afirma.

O fundo garantidor busca dividir o risco com o setor financeiro, oferecendo uma espécie de seguro público para os empréstimos. A promessa é ampliar o acesso de profissionais com renda instável e histórico de crédito frágil, perfil comum entre motoristas de aplicativo e taxistas de menor renda.

Na prática, bancos seguem exigindo entrada e taxa de cadastro, itens isentos nas normas do programa. Concessionárias relatam filas nas primeiras semanas de vigência, mas poucas vendas efetivadas, num contraste evidente entre a demanda nas lojas e o ritmo das aprovações de crédito.

Pressão sobre os bancos e impasse prolongado

A pressão do Planalto recai, sobretudo, sobre os agentes financeiros que operam a linha. A Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) confirma que o instrumento central do programa, o Fundo Garantidor de Investimentos (FGI), começa a funcionar, ao menos no papel.

“A informação que temos hoje [quinta-feira, 2] é que já está operacional. Vamos acompanhar”, diz o presidente da entidade, Arcélio Júnior. Ele ressalta, porém, que a última palavra continua nas mãos dos bancos. “Apesar dos esforços do governo, a liberação cabe aos agentes financeiros”, reconhece.

Essa assimetria expõe o ponto sensível do Move Brasil Táxi e Aplicativos. O governo injeta R$ 30 bilhões e assume parte do risco, a indústria automotiva prepara estoques e campanhas, mas a ponte entre o dinheiro público e o motorista depende de instituições que calculam cada empréstimo com cautela.

O resultado imediato é um gargalo que atinge justamente quem tem menos margem para esperar. Taxistas com veículos antigos, muitas vezes acima de dez anos de uso, veem na linha de crédito a chance de trocar de carro e manter o alvará ativo. Motoristas de aplicativo relatam desgaste de carros usados de forma intensa, com custos crescentes de manutenção.

Enquanto isso, a renovação de frota que deveria melhorar conforto, segurança e eficiência para passageiros anda devagar. O próprio setor automotivo, que conta com o programa para compensar a desaceleração em outros segmentos, marca passo à espera de um destravamento que ainda não veio.

São Paulo aposta em táxi seguro e inclusivo

Na maior metrópole do país, o debate sobre táxi em 2026 passa menos pelo financiamento e mais pela qualidade do serviço. O vereador Nick Schneider, do PL, apresenta em julho o Programa Municipal Táxi Seguro e Inclusivo, uma tentativa de reposicionar a categoria num cenário dominado por aplicativos.

A proposta incentiva a adoção de tecnologias de segurança, como sistemas de monitoramento, rastreamento e botões de alerta de emergência dentro dos veículos. A ideia é proteger motoristas e passageiros e reduzir a sensação de vulnerabilidade em corridas noturnas ou em regiões com maior índice de violência.

O texto também aposta na qualificação profissional, com foco em inclusão. O programa prevê capacitação em Libras, a língua brasileira de sinais, treinamento em primeiros socorros e formação específica para o atendimento de idosos, pessoas com deficiência e passageiros com Transtorno do Espectro Autista.

O projeto cria ainda o Selo Táxi Seguro e Inclusivo, voltado aos profissionais que cumprirem os requisitos de tecnologia e formação. A certificação funcionaria como um carimbo de confiança para o usuário, além de instrumento de valorização de quem investe em qualificação.

Se avançar na Câmara Municipal, o programa promete acender outra discussão sensível: quem paga a conta. Taxistas reivindicam incentivos fiscais ou linhas de crédito específicas para bancar equipamentos e cursos, enquanto a prefeitura terá de detalhar como pretende fiscalizar o cumprimento das exigências.

Rio Branco recorre ao táxi-lotação

No extremo oposto do mapa, em Rio Branco, o táxi vira solução emergencial diante do colapso do transporte coletivo. Em 1º de julho de 2026, a prefeitura autoriza, em caráter temporário, o serviço de táxi-lotação depois da apreensão judicial de 38 ônibus da empresa Ricco Transportes e Turismo.

A retirada dos veículos da frota causa longas filas nos pontos, ônibus lotados e atrasos significativos. A Universidade Federal do Acre chega a suspender aulas de graduação em dois dias consecutivos, à espera de uma normalização que não vem.

A Superintendência Municipal de Transportes e Trânsito (RBTrans) libera, então, táxis regularizados para operar em rotas fixas entre bairros e o Centro. Cada passageiro paga R$ 5 por trecho, valor acima da tarifa de ônibus, de R$ 3,50 para o usuário comum e R$ 1 para estudantes.

Os embarques e desembarques se concentram em pontos centrais, como a Galeria Cunha, na Rua Quintino Bocaiúva, nas proximidades do Estádio José de Melo. A prefeitura promete fiscalização para coibir transporte clandestino e limitar o serviço ao período de emergência.

Para parte dos passageiros, o táxi-lotação traz alívio imediato, ainda que mais caro. Para quem depende do transporte público diariamente, o aumento de custo pesa no orçamento. Empresas de ônibus veem na medida um sinal da fragilidade do modelo atual, marcado por contratos tensos, tarifas politicamente sensíveis e frotas envelhecidas.

Táxi entre o velho modelo e a pressão por mudança

Os três movimentos de 2026 – crédito federal bilionário, programa inclusivo em São Paulo e táxi-lotação em Rio Branco – desenham um setor de táxi em encruzilhada. De um lado, há dinheiro público disponível e iniciativas de qualificação que podem reposicionar a categoria. De outro, a resistência dos bancos, a concorrência dos aplicativos e o improviso de soluções emergenciais escancaram a dificuldade de planejar a mobilidade urbana no longo prazo.

Se o Move Brasil Táxi e Aplicativos conseguir, nos próximos meses, destravar o crédito com a ajuda do fundo garantidor, o país pode assistir a uma renovação acelerada da frota e a um ganho de conforto nos grandes centros. Se o impasse com os bancos persistir, o programa corre o risco de virar mais um anúncio de impacto com pouca transformação real nas ruas.

Iniciativas locais, como o Táxi Seguro e Inclusivo e o táxi-lotação acreano, tendem a se multiplicar à medida que prefeitos e vereadores buscam respostas rápidas para problemas concretos. A disputa, nos próximos anos, será por quem dita as regras desse novo tabuleiro: governos, bancos, plataformas digitais ou uma categoria de taxistas que tenta não ficar para trás.

O que é o programa Move Brasil Táxi e Aplicativos?

É uma linha federal de crédito, via BNDES, lançada em 2026 para financiar carros 0 km de até R$ 150 mil a taxistas e motoristas de aplicativo, com R$ 30 bilhões reservados e uso de fundo garantidor para reduzir o risco dos bancos.

Como vai funcionar o táxi-lotação de R$ 5 em Rio Branco?

Em caráter temporário, táxis regularizados fazem rotas bairro/Centro e Centro/bairro, com tarifa de R$ 5 por passageiro e embarque em pontos definidos, como a Galeria Cunha, enquanto durar a redução da frota de ônibus causada pela apreensão de 38 veículos da Ricco.

Como o governo está tentando destravar o crédito para motoristas de táxi e aplicativos?

O governo acionou o Fundo Garantidor de Investimentos, que passou a operar em 1º de julho, e cobra publicamente os bancos por rejeitarem cadastros e exigirem taxas e entrada não previstas, pressionando para acelerar as aprovações do Move Brasil Táxi e Aplicativos.

O que propõe o programa de modernização de táxis apresentado pelo vereador?

O Programa Municipal Táxi Seguro e Inclusivo, de autoria do vereador Nick Schneider em São Paulo, incentiva tecnologias de monitoramento e alerta, prevê capacitação em Libras, primeiros socorros e atendimento a idosos, pessoas com deficiência e autistas, e cria o Selo Táxi Seguro e Inclusivo para certificar taxistas que cumprirem essas exigências.

 

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