Iraniano processa Fifa por VAR e pede US$ 1 bi nos EUA

Analista iraniano-americano move ação contra Fifa nos EUA por erro do VAR que afetou seleção do Irã.
Redação NC News
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O analista iraniano-americano Lotfollah Kaveh Afrasiabi, de 68 anos, processa a entidade que organiza o Mundial de Seleções e seu presidente, Gianni Infantino, na Justiça dos Estados Unidos desde o último dia 30 de junho de 2026. Ele pede uma indenização de US$ 1 bilhão, cerca de R$ 5,2 bilhões, por suposta discriminação e erro do árbitro de vídeo na anulação de um gol que teria classificado o Irã às oitavas de final.

A disputa que sai de campo e chega ao tribunal

A ação corre na Corte Federal de Boston e tenta se transformar em processo coletivo em nome de 91 milhões de iranianos e iraniano-americanos. O alvo central é o lance em que o zagueiro Shojae Khalilzadeh marca contra o Egito, nos minutos finais da partida da fase de grupos do Mundial de Seleções de 2026.

O gol, que daria a vitória e a vaga ao Irã, é anulado após revisão do árbitro de vídeo por impedimento. Afrasiabi afirma no processo que “há evidências claras e inegáveis de que a eliminação da seleção iraniana foi resultado de uma decisão arbitral injusta do VAR”. O time deixa o torneio ainda na primeira fase, invicto, com três empates.

O caso ganha peso político e simbólico porque mistura resultado esportivo, disputas diplomáticas e acusações de preconceito. O Irã atua num Mundial disputado em território de um rival histórico, os Estados Unidos, que dividem a sede com outros países e impõem restrições à delegação iraniana.

Acusações de discriminação e humilhação

O processo não se limita ao lance de vídeo. Afrasiabi descreve uma sequência de obstáculos que, segundo ele, revelam tratamento desigual à seleção iraniana de futebol. A petição aponta que a equipe não recebe permissão para pernoitar nos Estados Unidos no início da competição e precisa transferir sua base de treinamentos para o México, multiplicando deslocamentos.

O analista relata ainda que 11 integrantes da delegação têm o visto americano negado. Na visão dele, caberia à entidade do futebol garantir condições iguais de preparação e logística para todas as seleções participantes, independentemente de tensões políticas entre governos.

No documento, Afrasiabi afirma que “cidadãos iranianos ou iraniano-americanos que torciam para a seleção iraniana de futebol sofreram danos emocionais devido à discriminação flagrante contra seu time do coração”. Ele se inclui entre os ofendidos e fala em “humilhação” sofrida por milhões de torcedores diante do que descreve como hostilidade e descaso institucional.

VAR sob questionamento e impacto na credibilidade

Desde que se torna ferramenta decisiva em grandes torneios, o árbitro de vídeo se transforma em símbolo de modernização e também em foco de controvérsias. No processo de Boston, Afrasiabi sustenta que o uso da tecnologia, em vez de corrigir injustiças, produz uma.

Ele alega que as imagens disponíveis afastam a hipótese de impedimento no gol contra o Egito e acusa intenção deliberada dos responsáveis pela revisão. “A decisão do VAR foi tomada, portanto, deliberadamente para impedir a vitória do Irã”, escreve. Segundo ele, a combinação entre erro técnico e contexto político resulta em discriminação.

A entidade do futebol e Gianni Infantino ainda não se manifestam publicamente sobre a ação. A corte americana precisa primeiro decidir se aceita o caráter coletivo do processo, passo que ampliaria o alcance jurídico e simbólico da disputa.

Do vestiário à diplomacia esportiva

Afrasiabi não é um personagem qualquer na cena política iraniana. Ex-professor da Universidade Harvard e ex-conselheiro da equipe de negociação nuclear iraniana durante o governo Barack Obama, ele transita entre diplomacia, academia e comunidade emigrada. Agora leva esse capital à arena esportiva.

No texto apresentado ao tribunal, o analista tenta quantificar em dinheiro o que descreve como dano moral em escala nacional. Os US$ 1 bilhão pedidos representariam, em tese, reparação para os 91 milhões de cidadãos que diz representar. Ele afirma que, se vencer, “pretendo destinar parte do dinheiro da indenização a programas esportivos para jovens no Irã”.

A iniciativa recoloca a entidade do futebol no centro de debates sobre direitos humanos, política externa e a fronteira entre esporte e geopolítica. A organização já enfrenta outras ações ligadas ao Irã. Em junho, vence na Justiça da Califórnia um processo que questionava a proibição da bandeira pré-revolução islâmica nos estádios, vetada por regras que barram manifestações políticas durante o torneio.

O que pode mudar para futuros Mundiais

Advogados especializados em direito esportivo acompanham o caso como possível ponto de virada. Se a Justiça americana reconhecer que houve discriminação e erro grave de arbitragem, a entidade poderá ser pressionada a revisar protocolos do VAR, transparência de decisões e regras de tratamento das delegações.

Questões que hoje ficam restritas a comissões internas, como a escolha das imagens analisadas, o diálogo entre árbitro de campo e vídeo e a divulgação desses áudios, podem passar a exigir padrões mais rígidos de publicidade e revisão independente. O episódio também inaugura na prática a ideia de que torcedores, e não apenas federações, podem buscar reparação por decisões esportivas em tribunais civis.

Na logística de grandes competições, as queixas iranianas expõem brechas em acordos entre entidade esportiva e países-sede. A recusa de vistos para 11 membros da delegação e o veto à permanência da equipe em solo americano reforçam o conflito entre segurança nacional e promessa de tratamento igualitário.

Os próximos meses devem ser ocupados por pedidos de documentos, perícias nas imagens do jogo e audiências para ouvir representantes da entidade e, possivelmente, membros da equipe de arbitragem. A entidade pode tentar um acordo para encerrar o caso sem admitir culpa, mas qualquer concessão terá reflexo na narrativa pública sobre a lisura do Mundial.

Enquanto isso, a seleção iraniana de futebol volta a campo em amistosos e classificatórias carregando uma eliminação invicta, com três empates, transformada em bandeira jurídica. O desfecho em Boston não altera o placar contra o Egito, mas tende a influenciar como o planeta do futebol enxerga, daqui em diante, a combinação entre tecnologia, política e justiça dentro das quatro linhas.

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