PF mira fraudes em ‘emendas Pix’ e apreende R$ 230 mil de esquema em Roraima

Operação Acesso Negado cumpre 41 mandados em quatro estados por determinação do STF. Auditoria da CGU revela obras paralisadas, superfaturamento e contratos com empresas de fachada.
Redação NC News
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A Polícia Federal (PF) deflagrou, na manhã desta sexta-feira (3), a Operação Acesso Negado, com o objetivo de desarticular um sofisticado esquema de corrupção e fraudes envolvendo a aplicação de recursos públicos provenientes das polêmicas “emendas Pix”. A ofensiva mobilizou agentes federais para o cumprimento de 41 mandados de busca e apreensão nos estados de Roraima, Bahia, São Paulo e Tocantins. Durante as primeiras diligências do dia, os investigadores apreenderam cerca de R$ 230 mil em dinheiro vivo, reforçando as suspeitas de desvios ilícitos e lavagem de capital.

A ação foi determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e tem como foco central as irregularidades bilionárias detectadas nos municípios de Iracema e São Luiz do Anauá, ambos localizados no estado de Roraima. As investigações ganharam corpo a partir de auditorias minuciosas realizadas pela Controladoria-Geral da União (CGU), solicitadas pela Suprema Corte no âmbito da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) nº 7.688/DF.

Segundo a Polícia Federal, os relatórios técnicos identificaram graves indícios de ilícitos em absolutamente todas as etapas da gestão do dinheiro público: do planejamento e execução até a fiscalização e transparência na aplicação dos milhões recebidos pelas prefeituras roraimenses.

O rastro das irregularidades: obras paralisadas e falta de transparência

As “emendas Pix” — tecnicamente conhecidas como emendas parlamentares na modalidade de transferência especial — permitem que deputados e senadores enviem recursos do Orçamento da União diretamente aos caixas das prefeituras e governos estaduais de forma célere, sem a necessidade de vinculação a projetos prévios ou convênios específicos. Essa agilidade, contudo, afrouxou as amarras de controle, dificultando drasticamente o rastreamento do dinheiro público e abrindo brechas severas para a corrupção estrutural.

Nos municípios alvo da operação desta sexta-feira, o cenário documentado pela CGU comprovou o apagão de governança. Em São Luiz do Anauá (RR), os auditores constataram a apresentação de planos de trabalho vagos, sem objeto definido e sem metas claras, além da existência de diversas obras completamente paralisadas com prazos de vigência esgotados.

A situação encontrada em Iracema (RR) seguiu o mesmo padrão de deterioração do erário. As investigações revelaram problemas sistemáticos no cadastramento dos planos de trabalho e execuções de obras que fugiam totalmente das especificações técnicas previstas nos editais de licitação. A Controladoria-Geral da União pontuou que os contratos em ambos os municípios carregavam indicativos contundentes de superfaturamento, desvio de finalidade na execução contratual e a contratação de empresas sem qualquer comprovação de capacidade técnica.

O cerco do STF e as novas ferramentas de controle

A deflagração da Operação Acesso Negado culmina em uma semana de forte reação institucional contra a farra das verbas parlamentares sem transparência. O ministro Flávio Dino, do STF, relator da ADI 7.688 e de ações que questionam a legalidade desses repasses, tem liderado a pressão por maior rigor e rastreabilidade. Em setembro do ano passado, diante das primeiras denúncias, Dino já havia determinado a suspensão integral dos repasses de “emendas Pix” para nove municípios — lista da qual Iracema e São Luiz do Anauá faziam parte.

Na última quarta-feira (1º), a CGU entregou ao Supremo uma nova auditoria esmiuçando a execução de emendas em prefeituras do país. No dia seguinte, quinta-feira (2), o Tribunal de Contas da União (TCU) intensificou a fiscalização ao lançar o inédito “Painel de Acompanhamento da Execução de Emendas”, uma plataforma digital que permite cruzar dados e rastrear a destinação final do dinheiro.

Crimes investigados e próximos passos da operação

Os alvos da Operação Acesso Negado estão na mira da Justiça Federal por um vasto e pesado leque de tipificações criminais. A PF confirmou que os envolvidos são formalmente investigados por crimes contra a Administração Pública, fraude em licitações e contratos administrativos, peculato (desvio de recursos por funcionário público), corrupção ativa e passiva, e lavagem de dinheiro, além de outros delitos que podem surgir no decorrer da análise das provas.

Com a apreensão de documentos, HDs, celulares e a volumosa quantia em espécie nos endereços estratégicos dos investigados, a Polícia Federal espera agora mapear toda a cadeia de beneficiários do esquema — alcançando desde os empresários e prefeitos locais até eventuais lobistas e parlamentares que apadrinharam as transferências milionárias.

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