O Google atualiza a Play Store em 2026 com melhorias de desempenho e novos recursos visuais, enquanto reguladores no Reino Unido e no Brasil apertam o cerco a Apple e Google sobre taxas e controle de pagamentos em lojas de aplicativos.
Atualização da Play Store mira desempenho e transparência
A nova versão da Play Store chega com promessa de navegação mais rápida e menos travamentos em celulares Android. O Google também adiciona rótulos para mídias geradas por inteligência artificial e reforça o uso do modo Picture-in-Picture, que mantém vídeos em janelas flutuantes enquanto o usuário acessa outros apps.
Os rótulos de IA aparecem em conteúdos audiovisuais, como vídeos promocionais e materiais dentro de aplicativos, indicando ao usuário quando imagens ou sons são criados ou manipulados por algoritmos. A ideia é oferecer mais clareza em um momento em que montagens realistas se espalham pelas redes e levantam dúvidas sobre autenticidade.
No uso cotidiano, as mudanças significam menos tempo de espera para abrir a loja, instalações mais estáveis e uma interface que informa melhor o tipo de conteúdo consumido. Desenvolvedores relatam que as otimizações ajudam a reduzir desistências na hora do download, em especial em aparelhos de entrada.
Reino Unido desafia modelo de cobrança de Apple e Google
Enquanto o Google tenta refinar a experiência da Play Store, o impacto mais sensível para o negócio das grandes plataformas vem de Londres. A Autoridade de Concorrência e Mercados do Reino Unido (CMA, na sigla em inglês) propõe em 2026 permitir que desenvolvedores direcionem usuários a sistemas de pagamento alternativos fora da Play Store e da App Store, desde que com taxas menores do que as comissões atuais.
A CMA afirma que qualquer cobrança pelo “direcionamento” precisa ser limitada. Segundo o órgão, as taxas devem ser “justas e razoáveis”, com a economia sendo “repassada ao consumidor ou reinvestida em inovação”. O objetivo é reduzir a dependência dos aplicativos em relação aos sistemas de cobrança oficiais, hoje quase obrigatórios em partes relevantes do mercado móvel.
O regulador avalia ainda impor à Apple a abertura do acesso à tecnologia NFC, usada em pagamentos por aproximação em iPhones. Isso permitiria que bancos e fintechs oferecessem carteiras digitais próprias dentro do iOS, em concorrência direta com a carteira da Apple, e criassem formas de pagamento de conta a conta que hoje dependem da intermediação da gigante americana.
A consulta integra o novo regime de mercados digitais do Reino Unido, que concede poderes adicionais à CMA para atuar sobre empresas classificadas como detentoras de “status de mercado estratégico”. Apple e Google recebem essa designação no ecossistema móvel no ano anterior, o que abre caminho para medidas específicas voltadas a seus sistemas operacionais e lojas de aplicativos.
Resistência da Apple e tentativa de adaptação do Google
O Google responde ao avanço regulatório tentando mostrar que já se adapta ao novo cenário. A empresa diz que fez mudanças nos termos da Play Store para permitir que desenvolvedores concluam transações fora da plataforma. “Google disse que já fez mudanças e citou novos termos da Play Store que permitem concluir transações fora da plataforma”, afirma documento da CMA.
A sinalização busca reduzir a pressão por remédios mais duros, como a imposição de limites fixos às taxas ou a obrigação de aceitar sistemas de pagamento totalmente independentes. A CMA, porém, deixa claro que ainda avalia o alcance das mudanças e promete decidir até o fim do ano se impõe requisitos formais ao grupo.
A Apple adota postura oposta. A empresa declara que “não apoia a liberação de pagamentos fora da plataforma” e sustenta que a mudança pode afetar a segurança. Um porta-voz afirma que isso pode abrir caminho para “golpes, táticas de isca e troca e a burla dos controles parentais”.
O argumento de segurança se tornou o principal escudo da empresa em debates semelhantes na União Europeia e em outros mercados. Para reguladores, porém, o risco é que a preocupação legítima com fraudes sirva também para preservar um modelo de negócios baseado em comissões que podem chegar a uma fatia relevante de cada transação digital.
Cade amplia escrutínio sobre apps e pagamentos no Brasil
No Brasil, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) segue trilha parecida. A autarquia investiga práticas consideradas anticompetitivas ligadas a iOS e Android, em inquéritos que se estendem por vários anos.
No caso da Apple, uma das apurações começa em 2022 após reclamação do Mercado Livre sobre taxas cobradas em pagamentos feitos dentro de outros apps baixados na App Store. O Cade determina de forma preventiva que a companhia suspenda essas práticas e libere desenvolvedores para vender bens e serviços sem a cobrança da comissão.
Mais recentemente, a Apple anuncia a possibilidade de existência de outras lojas de aplicativos em iPhones no Brasil, sob pressão regulatória local e internacional. A empresa, porém, mantém a decisão de cobrar uma taxa pelo acesso ao NFC, o que, segundo entidades do setor bancário, impede a oferta de Pix por aproximação no iOS. Como a transação instantânea é gratuita por desenho, bancos afirmam que uma cobrança extra tornaria o serviço inviável economicamente.
O Google também está na mira. Um inquérito aberto em 2019 investiga se práticas condenadas pela União Europeia em relação ao Android – como direcionar usuários ao buscador da empresa e impor restrições a fabricantes e operadoras – se repetem no mercado brasileiro. Em 2024, o Cade instaura novo procedimento para analisar se o grupo aplica na Play Store condutas semelhantes às apuradas na App Store.
Os processos ainda não têm conclusão. O órgão segue colhendo informações, ouvindo empresas e avaliando se impõe compromissos de mudança de conduta ou sanções. O resultado pode redefinir como taxas, contratos com desenvolvedores e regras de acesso a funcionalidades de hardware vão funcionar no país.
Consumidor no centro da disputa por taxas e controle
A combinação de atualização técnica da Play Store com o avanço regulatório ilustra uma disputa que vai além da aparência das lojas de aplicativos. O que está em jogo é quem controla a porta de entrada do dinheiro no ambiente móvel e quanto custa atravessá-la.
Se as propostas da CMA vingarem e o Cade adotar remédios semelhantes, desenvolvedores ganham mais liberdade para negociar taxas e oferecer pagamentos por canais próprios. Consumidores podem ver preços menores, mais opções de carteiras digitais e maior integração com meios como o Pix.
Google e Apple, por outro lado, encaram o desafio de preservar receitas bilionárias e, ao mesmo tempo, convencer reguladores de que mantêm padrões robustos de segurança e privacidade. A Play Store atualizada, com rótulos de IA e ganhos de desempenho, é uma peça dessa estratégia de mostrar valor agregado ao controle que exercem.
Os próximos meses serão decisivos. No Reino Unido, a CMA promete uma decisão ainda em 2026 sobre os novos requisitos para pagamentos móveis. No Brasil, o Cade avança em investigações iniciadas em 2019, 2022 e 2024, com potencial para influenciar a forma como lojas de aplicativos operam em toda a América Latina. Enquanto isso, usuários seguem baixando, atualizando e pagando dentro de apps, em um mercado que parece cada vez menos disposto a aceitar regras definidas apenas pelas big techs.