Funeral de Ali Khamenei expõe força e fragilidade do regime iraniano

Cerimônia de despedida de líder iraniano revela tensões internas e desafios externos do regime.
Redação NC News
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Milhares de iranianos iniciaram neste sábado (4) o funeral de Estado de Ali Khamenei, líder supremo do Irã por 37 anos, na Grande Mosalla, em Teerã. O cortejo, que se estende por seis dias e deve reunir entre 15 e 20 milhões de pessoas apenas na capital, marca o começo público da transição para o comando de seu filho e sucessor, Mojtaba Khamenei, em meio a uma guerra regional e à maior crise interna do regime em décadas.

Funeral como demonstração de poder em meio à guerra

A morte de Khamenei, aos 86 anos, em 28 de fevereiro de 2026, em ataques aéreos de Estados Unidos e Israel, desencadeia uma espiral de bombardeios e retaliações que deixa mais de 3.000 mortos no Irã. O funeral, adiado desde março por razões de segurança, começa agora sob clima de luto, revanche e cálculo diplomático.

No vasto complexo religioso da Grande Mosalla, o corpo do aiatolá reaparece diante da população com seu turbante preto, símbolo de sua alegada descendência do profeta Maomé. Ao lado do caixão principal, quatro outros expõem a dimensão familiar da tragédia: uma filha, um genro, uma nora e a neta de 14 meses mortos no mesmo ataque.

As homenagens se transformam em ato político. Bandeiras iranianas e estandartes xiitas vermelhos com a inscrição “Mártir” tomam o pátio, enquanto cartazes pedem “Vingança” e clamam “Morte aos Estados Unidos, morte a Israel”. Em plena celebração do 250º aniversário da independência americana, cartazes vermelhos com a hashtag “#MatarTrump” apontam o ex-presidente dos EUA como inimigo pessoal e símbolo da hostilidade ocidental.

Multidão, vigilância e devoção calculada

Desde a madrugada, homens e mulheres de preto se espremem em filas sob o sol forte, muitos sentados no chão, ouvindo poemas religiosos e sermões pelo alto-falante. O centro de Teerã se transforma em fortaleza, com barreiras, revistas e forte presença policial. Mais de 400 tendas do Crescente Vermelho abrigam pessoas vindas de outras regiões, enquanto caminhões-pipa tentam aliviar o calor de mais de 35°C.

No início da manhã, antes mesmo do anúncio oficial na televisão estatal, a fila em frente à Grande Mosalla já se estende por quarteirões. “Queremos dar um último adeus ao nosso guia e, por isso, a espera não é nem dolorosa nem difícil para nós”, diz Somayye Hamedi, 44, professora, envolta em chador preto. Ao lado dela, jovens batem no peito em lamento, numa coreografia que mistura tradição xiita e mobilização política.

Para muitos, aparecer é tanto um gesto de fé quanto uma mensagem ao mundo. “Prometemos ao líder supremo que permaneceremos com ele até o fim. Todas essas pessoas estão aqui por ele”, afirma Reza, 37, professor universitário. A estudante Fatemeh Nowdehi, 25, viajando do norte do país, resume o sentimento oficial esperado: “Vir aqui é a última e a única coisa que podemos fazer por Ali Khamenei, que sacrificou sua vida pelo Irã”.

Entre o choro sincero e a presença por obrigação, há nuances difíceis de medir. “Ainda não consigo acreditar que ele se foi”, diz Dunya Mohamadi, 24, em meio à multidão. Um locutor conduz o ritual e a emoção: “Vamos lamentar! Todos gritem ‘oprimido’, todos digam ‘Hussein’”, brada, citando o neto de Maomé, figura central do martírio xiita. Ao comando, a massa responde em coro, em um luto cuidadosamente coreografado pelo Estado e pelo clero.

Transição delicada e ausência do sucessor

O funeral é também o primeiro grande teste público da sucessão. Mojtaba Khamenei assume o posto de líder supremo no início de março, mas segue invisível. Ferido no ataque que matou o pai, aparece apenas por meio de mensagens escritas e não participa das cerimônias de abertura.

A ausência física do novo guia alimenta especulações internas e externas sobre seu real estado de saúde e a solidez de sua liderança. Mojtaba constrói sua ascensão à sombra, apoiado por parte da elite do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (IRGC). A imagem de continuidade tenta compensar o apoio popular abalado, depois de anos de crise econômica, sanções internacionais e protestos contra o custo de vida.

Nesse cenário, as instituições militares e de segurança aproveitam o luto para reafirmar seu papel central. O novo comandante da Guarda Revolucionária, Ahmad Vahidi, surge em público pela primeira vez desde o início da guerra, num sinal de que a cúpula militar se reorganiza rapidamente após as baixas de 28 de fevereiro. As forças de segurança reforçam os controles durante as cerimônias para evitar protestos e garantir a narrativa oficial de união nacional.

Do luto doméstico ao tabuleiro geopolítico

O funeral ocorre poucos dias após um memorando de entendimento entre Teerã e Washington, que tenta encerrar formalmente a fase mais intensa do confronto direto. Delegações estrangeiras, entre elas a do ex-presidente russo Dmitry Medvedev, percorrem discretamente os salões reservados da Grande Mosalla. A presença russa sinaliza o peso das alianças militares e energéticas e sugere que o luto também serve como espaço de diplomacia de bastidores.

Autoridades iranianas usam os discursos para reforçar a narrativa de resistência e continuidade estratégica. O regime se apresenta como sobrevivente de uma “guerra existencial” contra Estados Unidos e Israel, que bombardeiam não só alvos militares, mas infraestrutura energética e civil. Ao lado das promessas de vingança, o governo tenta extrair capital político do fato de ainda controlar o território e as principais instituições após meses de ataques.

O itinerário do caixão reforça a dimensão regional da disputa. Depois de permanecer exposto dia e noite em Teerã até segunda-feira, o cortejo segue em procissão por cidades do Irã e do Iraque, com paradas em santuários xiitas. O trajeto termina em 9 de julho, em Mashhad, cidade natal de Khamenei, no nordeste iraniano, onde o líder será enterrado. A escolha ressalta a ligação entre autoridade política e devoção religiosa, estruturante da República Islâmica desde 1979.

Fim de uma era e incertezas à frente

A despedida de Ali Khamenei encerra um ciclo iniciado em 1989, quando ele sucede o fundador da República Islâmica, Ruhollah Khomeini, e assume o posto máximo do país. Durante 37 anos, concentra poderes religiosos e políticos, reprime dissidências, sobrevive a ondas de protestos e enfrenta sucessivas sanções externas. A guerra deflagrada por sua morte amplia o desgaste econômico e social, mas também oferece ao regime a chance de mobilizar a população em torno da ideia de martírio coletivo.

Na prática, o longo funeral funciona como rito de passagem para Mojtaba e como teste de fôlego do Estado teocrático. A capacidade de mobilizar milhões às ruas reforça a imagem de força. As queixas veladas sobre inflação, desemprego e repressão, porém, permanecem latentes sob o luto. Com o sepultamento em Mashhad, o governo espera encerrar o ciclo de comoção e consolidar a nova liderança.

O Irã entra nessa próxima fase ainda envolvido em negociações para consolidar o cessar-fogo com Estados Unidos e Israel e pressionado por aliados regionais que cobram coerência entre o discurso de resistência e os custos da guerra para a população. A forma como Mojtaba Khamenei conduzirá essa transição – equilibrando repressão interna, ajustes econômicos e diálogo externo – deve definir não só o futuro da República Islâmica, mas também o rumo das alianças e conflitos no Oriente Médio nos próximos anos.

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