A aprovação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2026 reage à inflação e ao desemprego como nenhuma outra em 30 anos. Estudo mostra que, a cada alta de 1 ponto percentual no chamado índice da miséria, a popularidade do petista oscila 5,8 pontos em 12 meses.
Eleitor mais exigente com o bolso
O trabalho do economista Sergio Vale, da MB Associados, cruza o índice da miséria — soma da inflação medida pelo IPCA e da taxa de desemprego — com séries de aprovação presidencial compiladas pelo site Jota desde 1996. Ao todo, entram na conta cinco presidentes e nove mandatos.
Nesse universo, Lula aparece como o mais vulnerável às oscilações de preços e do mercado de trabalho no atual governo. Jair Bolsonaro, que governou durante a pandemia, é o menos sensível. Para ele, o mesmo choque de 1 ponto no índice da miséria altera a aprovação em apenas 1,4 ponto percentual.
A diferença, dizem analistas, está no tipo de compromisso que cada líder estabelece com seus eleitores. “Lula é avaliado a partir de uma expectativa mais concreta: melhorar a vida material, garantir comida na mesa, salário com poder de compra, emprego e proteção social. Esse é o contrato simbólico dele com parte importante do eleitorado”, afirma Felipe Nunes, diretor da Quaest Pesquisa e Consultoria.
O economista Sergio Vale aponta caminho oposto no caso do antecessor. “Bolsonaro é o menos impactado porque tem uma base de eleitores muito ideológica, antipetista, para quem a questão material, de emprego e inflação, é menor quando comparada com outros presidentes”, diz.
Outros governos ficaram em posições intermediárias. A aprovação de Fernando Henrique Cardoso variava 2,2 pontos percentuais para cada ponto do índice da miséria. A de Michel Temer oscilava 3,7 pontos, e a de Dilma Rousseff, também associada à ideia de bem-estar econômico, 4,3 pontos. Nos dois primeiros mandatos de Lula, entre 2003 e 2010, a sensibilidade era menor do que a atual: 3,7 pontos.
Inflação volta a preocupar em ano pré-eleitoral
O dado novo é que essa dependência cresce justamente quando o índice da miséria está no menor patamar em três décadas. No entanto, a perspectiva de inflação mais alta nos próximos meses acende um alerta no Planalto.
Segundo André Braz, coordenador dos índices de preços da FGV, a inflação acumulada em 12 meses chega a 4,8% na primeira metade de junho de 2026. O número sobe apesar da queda do IPCA-15 em relação a maio. “Há alguma desaceleração na margem, mas a inflação ainda roda em nível desconfortável para o eleitor”, avalia.
O desemprego joga a favor de Lula neste momento. A taxa está em 5,6% no trimestre até maio, o menor nível da série histórica, o que indica mercado de trabalho aquecido e renda em alta. Mesmo assim, o cansaço com o custo de vida pesa mais do que no passado.
Para Leonardo Meira Reis, analista da Eurasia Group, o histórico recente ajuda a explicar essa sensibilidade ampliada. “Desde a Covid, o eleitor está sendo machucado por choques inflacionários. Teve a pandemia, a Guerra da Ucrânia, o conflito no Oriente Médio”, lembra. Os preços sobem mais devagar neste momento, mas não voltam ao patamar de antes. “Os preços agora estão aumentando mais devagar, mas ainda estão altos e continuam subindo”, diz.
A experiência não é só brasileira. Nos Estados Unidos, a derrota de Joe Biden para Donald Trump em 2024 tem relação direta com o debate sobre custo de vida, lembra Reis. Em um ambiente global mais inflacionário, luas de mel com governos recém-eleitos encurtam, e a margem para erro econômico diminui.
Banco Central admite piora e corta juros no limite
Enquanto o Palácio do Planalto monitora a temperatura do eleitor, o Banco Central tenta calibrar a política de juros em um cenário mais hostil. Na ata divulgada em julho, o Comitê de Política Monetária reconhece que a inflação piora “em praticamente todas as dimensões”: aceleração da inflação corrente, avanço das medidas subjacentes — aquelas que tiram itens muito voláteis — e expectativas em alta.
Mesmo assim, o Copom decide reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual. O colegiado argumenta que uma guinada brusca para cima nos juros, seguida de inflação abaixo da meta, poderia gerar volatilidade excessiva na economia. Na prática, o BC aceita uma convergência mais lenta da inflação para a meta oficial, hoje em torno de 3%, com custo futuro em expectativas mais desancoradas e juros elevados por mais tempo.
A própria autoridade monetária admite que seu cenário-base para a inflação piora. A projeção para 18 meses à frente, horizonte em que as decisões de hoje fazem efeito, sobe de 3,5% para 3,7% — ainda perto da meta, mas em movimento contrário ao que os cortes de juros sugerem.
Críticos veem contradição. “A inflação projetada pelo próprio BC ficou mais alta e os riscos para que fique ainda mais alta também aumentaram”, afirma o economista Alexandre Schwartsman. Para ele, a continuidade da redução da Selic destoa dos próprios diagnósticos do Banco Central. “A continuidade dos cortes de juros torna-se ainda mais difícil de justificar”, diz.
Em outra frente, especialistas lembram que o BC cita a demanda aquecida, o mercado de trabalho resiliente e a renda em alta como fatores que alimentam a inflação doméstica. Nessa leitura, o problema não é apenas o choque de commodities ou conflitos externos, mas também a combinação de política fiscal expansionista com crédito mais farto.
Srour, especialista ouvido pelo Valor Econômico, resume a crítica ao limite para cortes adicionais. “É necessário agir. Se o BC está, de fato, mirando a inflação no centro da meta, não existe mais espaço para cortar juros”, afirma.
Economia dita o ritmo da disputa até 2026
Essa combinação de eleitores mais impacientes com o custo de vida e Banco Central com pouca margem para afrouxar a Selic ajuda a desenhar o ambiente da disputa presidencial de 2026. A economia volta ao centro da cena, em um país ainda polarizado entre lulistas e bolsonaristas.
Felipe Nunes lembra que movimentos recentes mostram o peso imediato dos preços na avaliação do governo. Em agosto de 2025, a parcela dos brasileiros que relatava alta dos alimentos recua de 76% para 60%. No mesmo período, a aprovação do governo sobe de 43% para 46%. Entre quem ganha até dois salários mínimos, o salto é ainda maior, de 46% para 55%. “Mostramos, na época, que parte relevante da melhora do governo se deveu a esse alívio no bolso, especialmente entre os mais pobres”, afirma.
O índice da miséria ajuda a organizar essa relação entre bolso e política, mas não explica tudo. “Inflação e desemprego pesam muito, mas aprovação também depende de comunicação, confiança, comparação com os adversários, escândalos, segurança, crédito, endividamento e percepção sobre o futuro. Modelos ajudam bastante, mas não capturam toda a complexidade da política”, pondera Braz, da FGV.
Até as eleições, o governo Lula precisa mostrar capacidade de segurar a inflação e manter o desemprego em baixa, sob pena de ver um ambiente hoje relativamente favorável se virar contra ele com rapidez. O Banco Central, por sua vez, terá de explicar com mais clareza como pretende levar a inflação de volta para perto da meta, com uma combinação crível de juros, comunicação e leitura dos riscos fiscais.
Os próximos meses dirão se a desaceleração da inflação será suficiente para aliviar a pressão no supermercado e garantir renda real em alta. Se isso acontecer, Lula entra na campanha com vantagem estatística. Se novos choques externos ou erros internos elevarem o índice da miséria, o mesmo eleitor que hoje sustenta o governo pode se tornar seu principal fator de risco.