O Ministério das Relações Exteriores afirmou que a decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas representa um risco à soberania brasileira. Em documento encaminhado à Câmara dos Deputados, o Itamaraty avalia que a medida pode servir de base para ações unilaterais do governo norte-americano contra pessoas, empresas e instituições brasileiras.
No texto, assinado pelo chanceler Mauro Vieira, o governo brasileiro afirma que existe a possibilidade de os Estados Unidos utilizarem a classificação para justificar medidas extraterritoriais e menciona, inclusive, o risco de eventual uso da força militar em território nacional. O posicionamento foi apresentado em resposta a um pedido de informações enviado por parlamentares.
O que aconteceu?
A manifestação do Itamaraty ocorre após o governo dos Estados Unidos incluir o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) na lista de organizações terroristas estrangeiras.
Segundo o Ministério das Relações Exteriores, essa classificação amplia o alcance da legislação antiterrorismo norte-americana e pode permitir que autoridades dos EUA adotem medidas administrativas, financeiras, migratórias e judiciais contra cidadãos, empresas e instituições brasileiras, inclusive quando não houver ligação direta com o território americano.
Como a história começou?
Em junho, o governo americano anunciou oficialmente a classificação das duas facções criminosas brasileiras como organizações terroristas.
Desde então, o governo brasileiro tem manifestado preocupação com os possíveis efeitos da decisão. O Itamaraty argumenta que PCC e Comando Vermelho são organizações criminosas voltadas ao lucro, e não grupos terroristas nos moldes previstos pela legislação brasileira.
Por que o governo brasileiro demonstra preocupação?
No documento enviado ao Congresso, o Itamaraty afirma que a medida pode produzir consequências que vão além do combate ao crime organizado.
Entre os riscos apontados estão:
- aplicação de sanções financeiras contra brasileiros;
- restrições migratórias;
- medidas judiciais unilaterais;
- impacto sobre empresas nacionais;
- possível utilização da classificação para justificar ações extraterritoriais.
O trecho que mais chamou atenção foi a avaliação de que existe, em tese, a possibilidade de uso da força militar dos Estados Unidos em território brasileiro, hipótese apresentada pelo governo como um risco potencial à soberania nacional.
O que dizem os Estados Unidos?
Apesar da preocupação apresentada pelo governo brasileiro, autoridades americanas já afirmaram anteriormente que a classificação de organizações terroristas não significa autorização automática para uma intervenção militar em outro país.
Segundo representantes do Departamento de Estado, a medida tem como principal objetivo ampliar instrumentos para aplicação de sanções econômicas, bloqueio de bens, restrições financeiras e punições contra integrantes e colaboradores das organizações classificadas como terroristas.
Qual o impacto político?
O episódio aumenta a tensão diplomática entre Brasil e Estados Unidos em torno da estratégia de combate ao crime organizado internacional.
Enquanto Washington defende uma política mais rígida contra organizações criminosas transnacionais, o governo brasileiro sustenta que a classificação como terrorismo não fortalece o combate às facções e pode abrir precedentes para medidas consideradas incompatíveis com o princípio da soberania nacional.
Além do aspecto diplomático, o tema deve continuar sendo debatido no Congresso Nacional, especialmente diante dos possíveis impactos jurídicos, econômicos e nas relações bilaterais entre os dois países.
O que acontece agora?
A tendência é que o tema permaneça no centro das discussões entre os governos brasileiro e norte-americano.
O Itamaraty afirma que continuará buscando diálogo para ampliar a cooperação no combate ao crime organizado transnacional, ao mesmo tempo em que defende a preservação da soberania brasileira e contesta a classificação unilateral adotada pelos Estados Unidos.