Tarifaço de Trump: Empresários temem ‘efeito Flávio Bolsonaro’ em audiência decisiva nos EUA

Setor produtivo brasileiro receia que a presença do senador e de influenciadores politize o debate em Washington. Estratégia do empresariado foca em alertar governo norte-americano sobre o risco de inflação interna.
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Nesta segunda-feira os olhos da economia brasileira estarão totalmente voltados para Washington, nos Estados Unidos. O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) realiza audiências públicas cruciais para debater o iminente “tarifaço” comercial anunciado contra o Brasil. No entanto, além das habituais tensões de mercado, uma preocupação atípica domina os bastidores das negociações: o temor de um verdadeiro ‘efeito Flávio Bolsonaro’.

Representantes do setor produtivo e de exportações do Brasil, que participarão ativamente das sessões, temem que as falas do senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL), e do influenciador Paulo Figueiredo possam acirrar perigosamente os ânimos. O receio geral é de que a presença de figuras tão polarizadas dificulte o já complexo processo de negociação com o governo norte-americano, correndo o risco de transformar uma pauta essencialmente técnica e econômica em um palanque ideológico.

A imprevisibilidade da sabatina norte-americana

As audiências organizadas pelo USTR ouvirão presencialmente mais de 80 interessados no tema, compondo um painel diversificado de atores afetados pelas medidas tarifárias. Flávio Bolsonaro está inscrito na extensa lista de oradores e, segundo informações preliminares de bastidores, deve utilizar o seu tempo de fala para solicitar formalmente a retirada das tarifas impostas ao país.

O grande ponto de apreensão da ala empresarial, contudo, reside na rigorosa dinâmica do evento. O governo norte-americano tem por praxe fazer questionamentos diretos e incisivos a cada um dos inscritos imediatamente após suas declarações iniciais. Como não há como prever quais serão as perguntas formuladas pelas autoridades dos EUA, tampouco qual será a postura exata ou o tom adotado pelo presidenciável brasileiro em suas respectivas respostas, o setor exportador vive um clima de forte instabilidade e cautela.

Os executivos e as associações setoriais que se encontram na mira da taxação admitem abertamente que o atual ambiente político é bastante desfavorável. O fato de o Brasil estar vivenciando um ano eleitoral altamente polarizado adiciona uma pesada camada de complexidade às tratativas comerciais. Qualquer deslize retórico pode ser interpretado como provocação governamental e custar bilhões em perdas de exportações.

A cartada do setor produtivo: o fantasma da inflação nos EUA

Para tentar blindar a economia nacional de eventuais solavancos políticos, os empresários brasileiros têm atuado fortemente nas reuniões de bastidores com o objetivo de reduzir as tensões diplomáticas e criar um ambiente mais propício para a suspensão ou, no mínimo, a mitigação do tarifaço.

Na mesa de audiência oficial, a principal estratégia técnica do empresariado será demonstrar, baseando-se em dados macroeconômicos concretos, que a imposição de novas barreiras tarifárias não resolve as disputas comerciais bilaterais e atinge diretamente os interesses da própria economia americana. O argumento central é o risco severo de inflação: encarecer de forma artificial as importações oriundas do Brasil tem enorme potencial para provocar uma alta generalizada de preços nos EUA. Isso afetaria negativamente tanto o consumidor final quanto o setor produtivo local, uma vez que o Brasil é um fornecedor vital de bens e insumos industriais básicos para o funcionamento das fábricas norte-americanas.

Além de acionar o alerta inflacionário, a delegação corporativa brasileira pretende adotar uma postura amplamente propositiva perante as autoridades competentes. A ideia é sugerir aos membros do USTR que existe um amplo e viável espaço para a construção de negociações em áreas que são consideradas vitais e estratégicas pelo governo de Washington. O pacote de alternativas comerciais sugerido pelos brasileiros envolve parcerias em setores como:

  • Etanol: Avanços e facilitação na exportação de combustíveis limpos;
  • Minerais Críticos: Garantia de um fornecimento seguro e ininterrupto para a indústria de tecnologia dos EUA;
  • Segurança Energética: Desenvolvimento de projetos conjuntos no continente;
  • Propriedade Intelectual: Modernização de garantias e marcos regulatórios de patentes.

Os setores na linha de frente e a decisão final nas mãos de Trump

A lista oficial de entidades inscritas para defender os interesses do Brasil na audiência pública evidencia o profundo peso do agronegócio e da indústria no embate atual. Estarão presentes na capital estadunidense entidades de peso, como a Associação Brasileira da Indústria do Arroz, o Conselho dos Exportadores de Café (Cecafé), a União Nacional do Etanol de Milho e a União da Indústria de Cana-de-Açúcar.

O setor cafeeiro, por exemplo, levará à tribuna um pleito bastante específico visando a ampliação de seus benefícios. Atualmente, o comércio de café verde já figura de maneira segura na lista de exceções do tarifaço norte-americano, mas a delegação da Cecafé solicitará oficialmente a inclusão do café solúvel nessa mesma categoria de isenção tarifária. A justificativa central, focada no aspecto do varejo, é que esse tipo de produto atende majoritariamente à parcela da população de menor poder aquisitivo nos Estados Unidos. Ou seja, taxar o café solúvel representaria encarecer substancialmente a cesta básica da classe trabalhadora americana, algo indesejado pelo atual governo estadunidense.

Apesar de todo o imenso esforço de convencimento técnico e corporativo que se desenrolará ao longo do início desta semana, o veredicto definitivo sobre a taxação não será imediato. O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) atua restritamente como um órgão consultivo, elaborando recomendações técnicas e relatórios detalhados sobre o cenário e as audiências. A decisão final, com poder de caneta e com grande impacto geopolítico global, caberá de forma exclusiva ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Resta ao mercado aguardar para saber se a pragmática lei da economia prevalecerá ou se a temperatura das urnas queimará as pontes comerciais construídas na última década.

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