Morre aos 95 anos o dramaturgo Benedito Ruy Barbosa

Benedito Ruy Barbosa falece após longa batalha contra insuficiência renal, deixando um marco nas novelas brasileiras.
Redação NC News
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Benedito Ruy Barbosa, um dos principais autores de novela do país, morreu aos 95 anos em São Paulo, na manhã desta terça-feira, 7, após longa internação por insuficiência renal crônica. O dramaturgo, que está no Hospital do Coração (HCor) sem previsão de alta desde o início do ano, não resiste às complicações da doença que trata há três anos.

Referência da teledramaturgia rural

A morte encerra a trajetória de um autor que muda o jeito de a televisão olhar para o interior do Brasil. Suas novelas levam para o horário nobre cenários de fazenda, plantações de café, beiras de rio e pequenas cidades marcadas pela presença de imigrantes.

Em uma televisão marcada por tramas urbanas, Benedito insiste em histórias atravessadas por terra, família e memória. Coloca em rede nacional o cotidiano de trabalhadores rurais, de italianos recém-chegados, de descendentes de escravizados que ainda enfrentam estruturas de poder herdadas do passado.

Essa combinação de paisagem interiorana, conflitos sociais e grandes romances faz de seus folhetins um ponto de encontro de gerações. O público que acompanha “Pantanal”, “Renascer” ou “Rei do Gado” reconhece cenários e dilemas familiares, muitas vezes ignorados pela produção de TV.

Da infância entre cafezais às grandes novelas

Nascido em 17 de abril de 1931, em Gália, interior de São Paulo, Benedito passa a infância entre Gália e Vera Cruz, cercado por cafezais. Ali, convive com imigrantes europeus e asiáticos, que mais tarde se tornam personagens recorrentes de sua obra.

Na vida adulta, ele se muda para a capital paulista e, depois, para Maringá, no Paraná, então uma fronteira agrícola em expansão. A experiência com o clima severo e as plantações inspira o romance “Fogo Frio”, adaptado para o teatro em 1959. Anos depois, ele explicaria o título com a precisão de quem viu de perto a devastação no campo. “Fogo frio é porque a geada queima a plantação. Em 1952, aconteceu uma grande geada que dizimou os cafezais de Maringá, Marialva e Mandaguarí. Foi um desastre. Eu, primeiro, fiquei extasiado de ver a beleza de todo aquele verde coberto com um lençol branco. Quando o sol esquentou, queimou todo o café”, lembra.

Antes da televisão, Benedito passa pela redação do jornal O Estado de S. Paulo, como repórter esportivo, e pela publicidade, na agência J.W. Thompson. O trânsito entre jornalismo e propaganda lapida o ouvido para o diálogo direto e a narrativa ágil, marcas que o acompanham nas novelas.

A estreia na teledramaturgia vem em 1966, com “Somos Todos Irmãos”, na TV Tupi. Nos anos seguintes, ele consolida um repertório de clássicos: “Meu Pedacinho de Chão” em 1971, “Cabocla” em 1979 e “Sinhá Moça” em 1986. Em todas, a combinação de romance, crítica social e paisagem rural estabelece o que seria reconhecido como “novela de Benedito”.

Clássicos, polêmicas e grandes amores

O salto definitivo acontece em 1990, com “Pantanal”, produzida pela antiga TV Manchete depois de recusa da Globo. Gravada em externas, com câmera acompanhando o ritmo do rio, a novela se torna um marco estético e de audiência. Em 2022, volta ao ar em remake da Globo, escrito pelo neto Bruno Luperi.

Em 1993, vem “Renascer”, seguida por “Rei do Gado”, em 1996, que leva para o horário nobre o conflito entre grandes proprietários rurais e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. A ousadia cobra seu preço. “Foi a novela mais tensa que já fiz. Primeiro, adoeci, tive problemas de coluna, e atrasei os capítulos. E, por estar mexendo com os sem-terra, sempre andei na corda bamba, tentando conduzir a trama sem criar atritos”, relata, em entrevista em 1997.

Depois de abrir espaço para temas espinhosos, ele aposta com força no melodrama clássico com “Terra Nostra” em 1998 e “Esperança” em 2002, sobre a imigração italiana. Ao explicar sua fórmula, Benedito reduz o ofício a um princípio simples. “Antes de mais nada, uma novela precisa ter uma grande história de amor”, diz, em entrevista à TV Globo. Sob esse fio condutor, circulam questões de terra, trabalho escravo, racismo, religião e memória.

Além dos sucessos originais, o autor assina remakes de “Sinhá Moça”, em 2006, e “Meu Pedacinho de Chão”, em 2014. A própria obra passa a dialogar consigo mesma, atualizando temas e linguagem visual. O movimento ganha novo fôlego quando Bruno Luperi assume, nos anos 2020, as novas versões de “Pantanal” e “Renascer”, reposicionando o legado do avô para um público mais jovem.

A última novela inédita de Benedito, “Velho Chico”, vai ao ar em 2016, marcada nos bastidores pela morte trágica do protagonista Domingos Montagner, afogado no rio São Francisco durante as gravações. A produção consolida a marca do autor: um Brasil visto a partir do rio, da seca, da disputa por terra e da força de famílias atravessadas por segredos.

Doença, família e despedida

Nos anos seguintes, o dramaturgo passa a aparecer menos em público. O boletim médico divulgado pelo HCor em 6 de julho de 2026 informa que ele trata uma insuficiência renal crônica há três anos e acumula reinternações por infecções urinárias recorrentes. Em janeiro do mesmo ano, fica 19 dias internado na mesma unidade por uma infecção urinária associada ao quadro renal.

Por orientação médica, Benedito deixa o sítio no interior paulista e se muda de vez para São Paulo, para ficar próximo da estrutura hospitalar e da família. Parentes negam boatos sobre doenças neurodegenerativas e destacam que ele se mantém lúcido até os últimos dias.

Casado por 56 anos com a atriz Marilene Leonor Barbosa, morta em 2014 por câncer, o autor constrói uma família também ligada à televisão. Deixa quatro filhos — Edmara, Edilene, Marcelo e Ruy — e vê o neto Bruno seguir a trilha da teledramaturgia. Em vida, acompanha a reinterpretação de suas histórias por novas gerações, algo raro para autores de sua geração.

Legado em disputa e futuro das novelas rurais

A morte de Benedito Ruy Barbosa aprofunda um movimento que já se desenha na TV brasileira. Com menos autores dedicados ao universo rural e às grandes sagas familiares, suas obras se tornam fonte de remakes, estudos acadêmicos e disputas de audiência em reprises.

Emissoras avaliam novos projetos baseados em seus títulos, de “Rei do Gado” a “Terra Nostra”. O apelo nostálgico, somado à atualidade de temas como reforma agrária, migração e desigualdade, mantém as histórias em circulação. A ausência do autor, porém, abre espaço para vozes que desejam atualizar o retrato do interior e incluir outros protagonistas, como indígenas, quilombolas e trabalhadores precarizados.

Para o público, o efeito é imediato. A morte mobiliza homenagens, maratonas de capítulos antigos e depoimentos de atores, diretores e escritores que se formam assistindo a suas novelas. A discussão sobre como representar o Brasil profundo na TV volta ao centro da pauta cultural.

O legado de Benedito se projeta para além das tramas em reprise. A presença ativa da família na teledramaturgia, a possibilidade de adaptações para streaming e o interesse em biografias e documentários sugerem que sua obra ainda ganhará novos formatos. A pergunta que fica é como as próximas gerações vão dialogar com esse repertório de amor, terra e memória, num país em mudança acelerada.

 

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