A Microsoft passa a trocar, a partir deste mês, os modelos de inteligência artificial da OpenAI e da Anthropic por sistemas próprios nos aplicativos Excel e Outlook. A mudança, revelada em 07/07/2026 às 13h58, marca um novo estágio da estratégia da companhia para cortar custos e reduzir a dependência de fornecedores externos.
Estratégia de corte de custos e autonomia
A decisão atinge dois dos programas mais usados do pacote Microsoft 365, presentes no dia a dia de empresas e profissionais em todo o mundo. Em vez de rodar sobre a tecnologia de parceiros, os recursos de IA desses serviços começam a operar com modelos internos batizados de MAI, sigla para Modelos de IA da Microsoft.
Segundo descrição divulgada pela Bloomberg e repercutida por O Globo, “a Microsoft está substituindo os modelos de IA da OpenAI e Anthropic por seus próprios, chamados MAI, em aplicativos como Excel e Outlook, visando reduzir custos”. O movimento ocorre em um momento de alta explosão do uso de IA generativa, que encarece o processamento e pressiona margens de lucro.
O foco, agora, é controlar melhor a conta de tecnologia que sustenta produtos como o assistente Copilot, integrado ao Microsoft 365, e preparar o terreno para um cenário em que acordos comerciais com laboratórios externos se tornem menos vantajosos.
Como funciona a transição nos aplicativos
Os modelos MAI já estão em produção e respondem a parte das solicitações de usuários em Excel e Outlook, como geração de rascunhos de e-mails, resumos de conversas, fórmulas de planilhas e análises rápidas de dados. De acordo com fonte ouvida pela Bloomberg, “os modelos internos já processam milhares de solicitações semanalmente” nessas plataformas.
A substituição, porém, ainda é parcial. A própria companhia admite que, neste momento, a maior parte do processamento de IA segue apoiada em modelos fornecidos pela OpenAI e pela Anthropic. “Embora ainda representem uma pequena parcela do uso total de IA da empresa, a mudança reflete a estratégia de desenvolver soluções competitivas e menos caras”, afirma outra descrição vinculada ao plano.
O desenho técnico da transição prevê que, nos bastidores, os pedidos feitos pelos usuários sejam distribuídos entre diferentes modelos, de acordo com o tipo de tarefa, custo e desempenho. Essa arquitetura permite que a Microsoft vá ampliando o espaço dos MAI de forma gradual, sem ruptura brusca na experiência de uso.
Disputa bilionária em torno da IA corporativa
Excel e Outlook funcionam como vitrine para a estratégia mais ampla da empresa em inteligência artificial. Ambos são pilares do Microsoft 365, pacote que a companhia tenta transformar em porta de entrada para seus serviços de nuvem e assinaturas, como Microsoft account, Microsoft 365 e programas de fidelidade como Microsoft rewards.
Desde que apostou pesado na parceria com a OpenAI, a Microsoft se tornou protagonista da atual onda de IA generativa. O acordo garante acesso privilegiado a modelos avançados a preços reduzidos, mas não anula a pressão por autonomia. O próprio comando da divisão de IA admite que a conta com fornecedores externos pesa.
Em junho, durante a conferência anual Build, o chefe da área de modelos de IA da companhia, Mustafa Suleyman, detalha internamente o plano de reduzir as despesas com a Anthropic e outros parceiros. A meta é usar os MAI sempre que possível, reservando os modelos de terceiros a tarefas específicas, em que eles ainda apresentam clara vantagem técnica.
A lógica vale também para outros produtos da casa. Os MAI já aparecem como opção padrão no GitHub Copilot, ferramenta de auxílio à programação que a Microsoft oferece pela Microsoft store e em planos do Microsoft 365. A empresa também começa a testar modelos próprios de transcrição de reuniões, que devem chegar gradualmente ao Teams e a outros serviços corporativos.
Quem ganha e quem perde com a mudança
Para a Microsoft, o ganho é direto. Menos chamadas a APIs externas significam menos royalties e mais previsibilidade de custo em um serviço que processa, diariamente, enormes volumes de dados e textos. O controle sobre a tecnologia também facilita personalizações por setor, integração mais fina com a nuvem da companhia e ajustes de segurança pedidos por grandes clientes.
Empresas de finanças, administração e comunicação corporativa, que usam intensivamente Excel e Outlook, tendem a perceber efeitos em etapas. No curto prazo, a promessa é de continuidade: os recursos de IA seguem presentes, com respostas semelhantes às atuais. Com a evolução dos MAI, a Microsoft pretende oferecer comandos mais contextualizados, aproveitando dados armazenados nas contas dos usuários, sempre dentro das permissões definidas por cada organização.
Para OpenAI e Anthropic, o impacto é mais delicado. Ambas perdem uma fatia relevante de uso e exposição em um dos maiores ecossistemas de produtividade do mundo. Em um mercado em que cada token processado pode representar receita recorrente, a migração para modelos internos da parceira representa pressão adicional para diversificar clientes e firmar novos acordos.
A movimentação também serve de termômetro para outros gigantes da tecnologia. O recado é que depender exclusivamente de modelos externos pode se tornar financeiramente arriscado quando o uso de IA entra em escala de milhões de usuários ativos, logados diariamente via Microsoft login ou contas corporativas integradas.
Efeitos no mercado de IA e próximos passos
O reposicionamento da Microsoft alimenta uma tendência clara: a de internalização da inteligência artificial pelos grandes grupos de tecnologia. Empresas com escala suficiente para treinar seus próprios modelos passam a ver vantagem em assumir o investimento inicial pesado e, depois, colher economias de longo prazo.
Analistas do setor já projetam uma corrida por soluções próprias capaz de redesenhar o mapa da concorrência em IA. Laboratórios independentes, como OpenAI e Anthropic, tendem a disputar espaços mais específicos ou focar em produtos finais voltados ao consumidor, enquanto gigantes integrados buscam verticalizar suas ofertas.
Nos próximos meses, a expectativa é que a Microsoft amplie o uso dos MAI em outros componentes do ecossistema, dos serviços de nuvem do Azure a ferramentas disponíveis via Microsoft store download. A performance dos novos modelos em Excel e Outlook servirá como teste de fogo para medir se a economia prometida vem acompanhada de ganhos reais de qualidade.
A disputa em torno de quem controla os cérebros digitais por trás das principais ferramentas de trabalho do planeta deve se intensificar. A forma como clientes corporativos reagirem à troca de motores de IA dentro dos produtos da Microsoft ajuda a definir até onde vai a atual onda de internalização e qual será o espaço restante para fornecedores externos nesse mercado.