Carolina Ferraz relembra, quase 30 anos depois de Por Amor, a química com Eduardo Moscovis e conta que a repercussão da novela coincide com o fim de seu casamento. Em entrevista publicada enesta quinta-feira, 9, a atriz negou qualquer romance com o colega e relatou como a fantasia criada pelo público atravessou a tela e atingiu sua vida pessoal.
Química em cena, ruído fora dela
A conversa foi ao ar no canal RivoNews, no YouTube, e reencontra Carolina com um dos papéis mais lembrados de sua carreira, a Milena do clássico de Manoel Carlos. A trama, exibida originalmente no fim dos anos 1990, segue em reprise, plataformas e debates como um marco da teledramaturgia, e a relação de Milena com Nando, vivido por Moscovis, permanece entre os casais mais citados pelo público.
Carolina contou que o efeito dessa química ultrapassou o estúdio e alimentou rumores persistentes na época. “Meu combinado com o Du era esse: ‘deixa o povo pensar o que quiser, vamos fazer do nosso jeito’”, lembra. A atriz diz que, enquanto Milena e Nando dominaram a faixa nobre da TV Globo, a vida dos intérpretes precisou encolher para caber na curiosidade do público e na vigilância da imprensa.
“A fantasia criada em cima deles era tão enorme que a gente resolvia entre nós dois. Se a gente fosse tentar atender o desejo das pessoas, não ia dar certo. Foi muito maior do que a gente imaginava. Nós dois ficamos bem quietos”, afirma.
Casamentos em paralelo à novela
Naquele período, Eduardo Moscovis está recém-casado com Roberta Richards. Carolina é casada com o empresário Mario Cohen, pai de sua filha. A exibição de Por Amor transformou o casal ficcional em assunto diário, em revistas, programas de auditório e conversas de bar, e a fronteira entre personagens e atores se tornou cada vez mais difusa na percepção do público.
“Ele tinha acabado de casar com a Roberta (Richards), uma menina maravilhosa. Ele estava tocando a vida dele. A gente se fechou muito. Meu casamento acabou, com o pai da minha filha, com o Mario Cohen”, disse Carolina, ao ligar diretamente aquele momento de auge na TV ao desgaste da relação em casa.
Ela evitou simplificar a ruptura, mas deixou claro que a pressão externa pesa. Segundo a atriz, a insistência em enxergar um casal onde havia apenas parceria profissional invadiu o cotidiano da família. O que o público vê como torcida romântica virou, para os envolvidos, uma forma de cobrança constante.
Boatos, limites e proteção
Carolina nega qualquer envolvimento amoroso com Moscovis. Refuta a lenda que circula há décadas em sites de fãs e redes sociais. “Foi muito forte tudo aquilo. Mesmo a gente não tendo nada. A energia dos outros que vinha. A gente era amigo, estávamos só trabalhando. Depois disso, aprendi a me proteger também”, afirma.
Essa proteção passa por um pacto de silêncio entre os dois protagonistas. Eles não alimentam insinuações, não fazem graça com o assunto em entrevistas, evitam aparecer juntos fora do set além do estritamente necessário. Optam por preservar a intimidade, mesmo que isso contrarie o apetite de parte da audiência e da imprensa por cenas extras de um romance que, segundo ela, nunca existiu.
A decisão contrasta com a lógica atual das redes sociais, em que muitos artistas transformam bastidores em conteúdo. Carolina descreve um movimento oposto, de recolhimento. Fala em “se fechar” para conter o impacto de uma novela que, no auge, mobiliza milhões de espectadores todas as noites e lança seus protagonistas a um tipo de fama difícil de administrar na esfera privada.
O peso de um clássico na vida real
Quase três décadas depois, Por Amor permanece como um dos grandes trabalhos de Manoel Carlos, autor de tramas que misturam cotidiano, família e dilemas morais. A novela se torna sinônimo de melodrama refinado e base de maratonas em canais de reprise e plataformas de streaming. As cenas de Milena e Nando circulam em trechos isolados, ganham leituras nostálgicas e reacendem memórias da recepção original.
Carolina reconhece o lugar central da obra em sua trajetória, mas enfatiza o custo emocional daquele sucesso. O casamento com Mario Cohen termina enquanto a novela ainda repercute, e a atriz aprende, nas próprias palavras, a erguer barreiras. A experiência molda sua relação posterior com a mídia e com a exposição, numa carreira que passa também por programas de TV, outras novelas e mudanças de emissora.
O relato lança luz sobre um fenômeno recorrente no meio artístico: a confusão entre imagem e vida, especialmente em obras muito populares. Quando personagens ganham vida própria na cabeça do público, os atores passam a ser cobrados a corresponder, fora de cena, a um roteiro que não escrevem. Em Por Amor, essa projeção atinge diretamente dois casamentos reais.
Debate sobre fronteiras e responsabilidade
A entrevista de 09/07/2026 reacende o interesse pelos bastidores da novela e também pelas estratégias de proteção adotadas por artistas submetidos a alta exposição. Ao detalhar o “combinado” com Moscovis e admitir o impacto em sua vida afetiva, Carolina oferece uma espécie de estudo de caso sobre limites entre ficção e realidade.
O depoimento também alimenta um debate mais amplo sobre responsabilidade compartilhada. Atores, emissoras, imprensa e público participam da construção das narrativas que cercam uma produção de sucesso. Quando a fronteira se rompe, é a vida privada que paga a conta. O desabafo de Carolina sugere que o aprendizado vem tarde, muitas vezes depois de relações desfeitas e marcas pessoais.
As reações à entrevista indicam espaço para novas conversas, com outros protagonistas daquela geração, sobre bastidores da fama na era pré-redes sociais. A trajetória de Carolina, hoje vista como a de uma profissional experiente e mais blindada, aponta para um futuro em que esses limites sejam discutidos com mais franqueza. A novela segue como clássico; as lições, agora, começam a aparecer com mais nitidez.