Ibaneis desiste do Senado e anuncia saída da política

Ibaneis Rocha opta por deixar a política e não concorrer ao Senado em 2026, focando em sua vida pessoal.
Redação NC News
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O ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha (MDB) anunciou ontem, 8, que desistiu de disputar uma vaga no Senado. Aos 55 anos, ele diz que deixa a corrida eleitoral para cuidar da vida pessoal e afirma que não pretende buscar nenhum outro cargo público.

Decisão surpreende aliados e rearranja o tabuleiro

O anúncio encerra, de forma abrupta, a pré-campanha iniciada meses depois de Ibaneis renunciar ao governo em março, para cumprir a desincompatibilização exigida pela Justiça Eleitoral. A saída de cena de um ex-governador reeleito, com sete anos seguidos de protagonismo na política local, muda o equilíbrio da disputa de 2026 no Distrito Federal.

O MDB perde seu principal nome para o Senado e vê diminuir a capacidade de atrair o eleitorado conservador e moderado da capital federal. No vácuo aberto por Ibaneis, ganham terreno as pré-candidaturas de Michelle Bolsonaro (PL) e da deputada federal Bia Kicis (PL), que já vinham sendo impulsionadas pela vice-governadora Celina Leão (PP) após o rompimento com o ex-chefe.

“Não precisa de mandato para ser feliz”

A decisão foi comunicada em entrevista  a um veículo de comunicação. Ibaneis, que nasceu em Corrente (PI) e construiu patrimônio e prestígio como advogado em Brasília antes de entrar na política, usa um tom de despedida. “Estou completando 55 anos sexta [10] e quero cuidar da minha vida”, diz.

O ex-governador vincula a escolha ao desgaste de quase uma década no centro do poder local. “Fiz a minha parte pela cidade que eu amo e que me deu tudo. Agora é hora de cuidar um pouco da minha vida. Vivi pandemia, cuidei de pessoas e agora preciso cuidar de mim”, afirma. Em outra mensagem, resume: “Não precisa de mandato para ser feliz”.

Ibaneis reforça que não disputará outros cargos, como deputado federal, e sinaliza uma retirada progressiva da política ativa. A declaração contrasta com a trajetória acelerada que o levou, em 2018, diretamente ao Palácio do Buriti, sem passagem por mandatos legislativos.

Da ascensão meteórica às crises de governo

Ibaneis chega ao governo do DF em 2018 como “azarão”, derrotando o então governador Rodrigo Rollemberg (PSB). Em 2022, é reeleito ainda no primeiro turno, um resultado que consolida sua força eleitoral no Distrito Federal e o projeta como um dos principais quadros do MDB na região.

O segundo mandato, porém, se inicia sob forte turbulência. Em 2023, dias após a posse, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, determina o afastamento de Ibaneis, apontando possível omissão das forças de segurança nos ataques às sedes dos Três Poderes em Brasília. Ele volta ao cargo meses depois, mas a ruptura marca a imagem do governo.

Os meses finais no Buriti também são atravessados por denúncias e suspeitas envolvendo o Banco Master e pela crise no Banco de Brasília (BRB), que desgastam a gestão e alimentam críticas de aliados e adversários. A sucessão de crises corrói parte do capital político acumulado desde 2018.

Ruptura com Celina Leão e perda de base

Quando deixa o cargo em março de 2026 para se lançar ao Senado, Ibaneis já enfrenta fissuras na própria base. Celina Leão, sua vice no segundo mandato e hoje governadora, passa a vocalizar críticas à gestão, em especial na área da saúde e na condução da crise do BRB.

Em maio, o conflito se torna aberto. Ibaneis divulga um vídeo falando em “rompimento político” com o grupo de Celina. Ela reage, também em vídeo, defendendo o próprio governo e se afastando do padrinho político. A cena explicita um divórcio que se reflete diretamente na disputa ao Senado.

Celina passa a apoiar abertamente Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, ambas do PL, para as duas vagas que o DF escolherá em 2026. Na prática, retira o respaldo institucional que sustentava a pré-campanha de Ibaneis. A desistência oficial, em julho, apenas formaliza um esvaziamento que se arrasta há semanas.

Quem ganha e quem perde com a saída de Ibaneis

A retirada do ex-governador beneficia, de imediato, as candidatas já ancoradas no eleitorado de direita do DF. Michelle Bolsonaro, ex-primeira-dama, e Bia Kicis, deputada em terceiro mandato, ocupam o espaço deixado por um nome que transitava entre o campo conservador e setores moderados.

O MDB local se vê diante de um desafio duplo: encontrar uma nova liderança competitiva para a eleição ao Senado e redesenhar alianças num cenário em que o antigo principal quadro decide se recolher. No plano nacional, o partido perde um potencial puxador de votos numa disputa estratégica em 2026.

A ausência de Ibaneis também reduz a tendência de personalização das discussões em torno de temas espinhosos, como os casos Banco Master e BRB. Sem o ex-governador na urna, o debate tende a se concentrar mais em propostas e alinhamentos ideológicos do que na defesa ou ataque direto à sua gestão.

Um ciclo político interrompido

Aos 55 anos, com dois mandatos no currículo e passagens por crises que envolveram STF, sistema financeiro local e segurança pública, Ibaneis interrompe uma trajetória que, em 2018, parecia em franca ascensão. Na vida pré-política, ele acumula prestígio na advocacia, inclusive à frente da seccional do Distrito Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, o que o projetou como figura influente em Brasília.

Ao declarar que vai “cuidar da vida” e que não quer mais mandato, Ibaneis tenta encerrar o ciclo com discurso de dever cumprido e foco em projetos pessoais. A mensagem, dirigida ao eleitorado que o elegeu duas vezes, também funciona como recado ao próprio meio político: ele não pretende ser moeda de troca em novas composições.

Os próximos meses devem ser marcados por uma reorganização silenciosa de grupos que gravitaram em torno de Ibaneis desde 2018. Parte buscará abrigo em candidaturas mais alinhadas ao bolsonarismo, como Michelle Bolsonaro e Bia Kicis; outra tende a negociar com o MDB e com novas lideranças locais.

O pleito de 2026 no Distrito Federal caminha, assim, para ser o primeiro em oito anos sem a presença de Ibaneis Rocha na urna. A eleição ao Senado se redesenha com menos polarização em torno de um nome único e com espaço aberto para que novos personagens testem sua força diante de um eleitorado acostumado, desde 2018, a ver o ex-governador no centro da cena.

 

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