O ex-atacante Juary Jorge dos Santos Filho, de 67 anos, campeão europeu e mundial por clubes, passa a maior parte dos dias atrás do volante desde maio deste ano. Há dois meses, o ídolo santista vira motorista de aplicativo na Baixada Santista para enfrentar a depressão e reencontrar sentido na rotina.
Do sofá ao volante: a virada sugerida pela família
O movimento nasceu dentro de casa. Depois de encerrar o trabalho como treinador em 2025 e decidir dedicar mais tempo à família, Juary começou a sentir o peso do vazio. A paralisação da agenda esportiva, que por décadas dita horários e viagens, abre espaço para um silêncio difícil de administrar.
Ele descreveu o início da depressão como um mergulho lento, quase imperceptível. “Quando dei conta, já não tinha força para fazer mais nada. Levantava da cama às 10h da manhã, ia para o sofá na frente da televisão, e só saía dali por volta das 3h da manhã. Não tinha vontade para nada e não queria ver ninguém. Só queria ficar sozinho”, conta.
Preocupada, a família se mobilizou. A esposa e os filhos insistiram para que ele procurasse uma atividade que o tirasse de casa e mantenha a cabeça ocupada. Dirigir sempre foi um prazer, e a sugestão de trabalhar em corridas por aplicativo parece, a princípio, apenas uma solução prática para um homem com carteira de motorista e décadas de estrada.
As hesitações passam, em parte, pela idade e pelo mercado de trabalho pouco acolhedor para quem está perto dos 70 anos. “Com 67 anos, as opções são poucas […]. Eu gosto muito de dirigir e acabei cedendo à vontade deles. Agora, quem não quer mais abandonar sou eu”, afirma.
O carro como consultório em quatro rodas
Hoje, a segunda-feira de Juary se parece muito com a de qualquer profissional da chamada “profissão motorista” na Baixada Santista. Ele sai cedo de casa, leva a esposa ao trabalho e liga o aplicativo. As corridas se estendem até a hora em que o corpo pede pausa. De terça a sábado, repete o ritual. O domingo fica para a família.
A diferença está no que acontece entre um embarque e outro. O ex-atacante transforma o interior do carro em uma espécie de espaço terapêutico itinerante. “Tem muita coisa que acontece dentro de um Uber que você nunca poderia imaginar. Eu digo que o meu carro não é um Uber, mas sim um consultório em quatro rodas porque se conversa de tudo”, diz, rindo.
As corridas se tornam encontros. Passageiros falam de trabalho, filhos, dívidas, relacionamentos, política. Ele escuta, opina quando é convidado e, sem perceber, aproxima-se daquilo que os médicos recomendam para quem enfrenta depressão: rotina, contato social, propósito.
De vez em quando, o passado de artilheiro atravessa o trajeto. Alguns reconhecem o motorista discreto, outros só percebem depois, ao ver o nome no aplicativo. Uma passageira, lembra Juary, não consegue segurar a emoção. “Ela não acreditava e dizia que era fã do Juary, que achava ele um grande jogador e gostava muito de ver ele jogar. Ela ficou muito emocionada dentro do carro”, relata.
Do Santos ao Porto: um currículo de artilheiro
O homem que hoje enfrenta o trânsito entre Santos, São Vicente e Praia Grande é o mesmo que, nos anos 1970, ajuda a consolidar a geração dos “Meninos da Vila”. Com a camisa 9 do Santos, disputa 229 jogos e marca 101 gols, números que o colocam entre os cinco maiores artilheiros do clube na era posterior a Pelé.
Em 1978, lidera o ataque no título do Campeonato Paulista e termina a competição com 29 gols, artilheiro do torneio. O estilo é inconfundível: velocidade, faro de gol e comemorações com dancinhas ao redor da bandeirinha de escanteio.
A carreira segue fora do país. No México, defende o Universidad Guadalajara. Na Itália, passa por Avellino, Inter de Milão, Ascoli e Cremonese. Em Portugal, atinge o auge com a camisa do Porto. Lá, entra para a história ao marcar o gol da virada sobre o Bayern de Munique na final da Liga dos Campeões da Europa de 1986/1987, título que abre caminho para a conquista do Mundial de Clubes, no mesmo ano, contra o Peñarol.
As glórias, porém, não o blindam das fragilidades comuns a outros ex-atletas. O futebol ainda lida mal com o pós-carreira. A transição, muitas vezes, é solitária, sem acompanhamento psicológico estruturado, mesmo para quem acumula taças continentais e mundiais.
Depressão, envelhecimento e o papel do trabalho
A decisão de se tornar motorista não é apenas uma manobra para complementar a renda. No caso de Juary, é um eixo em torno do qual a vida volta a girar. A rotina compromissada, ainda que flexível, o obriga a sair da cama, organizar horários, encontrar pessoas diferentes a cada corrida.
Essa reinvenção expõe um ponto sensível do mercado de trabalho brasileiro: a dificuldade de recolocação para idosos, mesmo aqueles com trajetória de destaque. Vagas formais escasseiam para quem tem mais de 60 anos, e o volante surge como alternativa para muitos que não se encaixam mais em funções de motorista categoria B ou D tradicionais, como motorista particular, de caminhão ou em estruturas do governo.
Ao mesmo tempo, a história ajuda a projetar uma imagem menos estigmatizada das corridas por aplicativo. O setor, frequentemente associado a longas jornadas e baixa remuneração, ganha um exemplo de como a profissão pode funcionar também como ferramenta de inclusão, reinserção social e manutenção da autoestima.
Para a área de saúde mental, o cotidiano de Juary ilustra na prática o que especialistas defendem em consultórios e pesquisas: a combinação entre tratamento clínico, apoio familiar e atividades que resgatem vínculos sociais melhora a resposta à depressão. Conversas fortuitas no banco de trás, para ele, valem como antídotos discretos contra o isolamento.
O que essa história projeta para o futuro
A repercussão da nova vida de Juary tende a ampliar o debate sobre a saúde mental de ex-atletas aposentados. Clubes, federações e entidades esportivas começam a ser pressionados a pensar programas de acompanhamento psicológico para quem deixa os gramados, campo em que a depressão ainda é tema incômodo e subnotificado.
Na Baixada Santista, o ex-camisa 9 se movimenta entre faixas de pedestre, semáforos e faixas de ônibus como qualquer outro motorista de aplicativo, mas carrega uma biografia que atrai atenção para além do trânsito. Se a rotina ao volante continuar lhe devolvendo ânimo e estabilidade, ele pode se tornar uma voz relevante em discussões sobre envelhecimento ativo, reinvenção profissional e o lugar da conversa simples na luta contra doenças mentais.
O próximo capítulo ainda não está escrito. Pode ser a continuidade silenciosa das corridas, alguma iniciativa social ligada ao esporte ou projetos voltados à saúde mental de ex-jogadores. Por enquanto, Juary se concentra no aqui e agora: a próxima chamada no aplicativo, o passageiro que entra no carro sem imaginar que, ali na frente, dirige alguém que já decidiu partidas na Europa e hoje tenta, dia após dia, vencer a própria escuridão.