O governo federal acelerou as negociações para criar uma linha de crédito de até R$ 20 bilhões para clubes de futebol e SAFs, em meio à discussão sobre uma possível restrição ou proibição das casas de apostas no Brasil. O programa pretende permitir que os clubes troquem dívidas mais caras por financiamentos com juros menores, em operações associadas ao BNDES.
A proposta vinha sendo discutida havia meses entre representantes dos clubes e integrantes do governo, mas ganhou velocidade diante do impacto que uma eventual mudança nas regras das bets pode provocar nas receitas do futebol. Segundo levantamento citado pelo UOL, somente os patrocínios diretos representam uma exposição estimada em cerca de R$ 1 bilhão por ano para o futebol.
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Crédito não seria perdão de dívidas
O desenho discutido pelo governo não prevê o perdão das dívidas dos clubes. A proposta é criar uma linha de financiamento com condições mais favoráveis para que as equipes e SAFs possam reorganizar seus passivos.
O programa vem sendo tratado nas negociações como Programa Nacional de Reestruturação Financeira do Futebol Profissional. O modelo ainda pode sofrer alterações antes de uma eventual formalização.
A ideia é que os recursos sejam disponibilizados por meio de bancos habilitados, com juros vinculados às condições de financiamento do BNDES. O risco das operações ficaria com as instituições financeiras, e não diretamente com a União.
O desenho também prevê prazo de até 20 anos para a quitação, com dois anos de carência antes do início dos pagamentos. O dinheiro poderá ser direcionado diretamente aos credores dos clubes.
Onde os clubes poderiam usar o dinheiro
A proposta estabelece uma lista de finalidades para os recursos. Entre elas estão o pagamento de dívidas trabalhistas e direitos de imagem, débitos com Receita Federal, INSS e FGTS, além da quitação de empréstimos bancários e outras dívidas civis.
Também está previsto o uso do financiamento para investimentos em infraestrutura das categorias de base.
Por outro lado, o crédito não poderia ser utilizado para despesas correntes dos clubes. A lista de restrições inclui pagamento de salários do dia a dia, contratação de jogadores e outras despesas operacionais.
Também não seria permitido utilizar os recursos para distribuição de lucros ou dividendos aos proprietários de SAFs.
Plano ganhou força com crise das bets
A aceleração das negociações ocorre justamente quando o governo discute uma mudança radical no mercado de apostas esportivas.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vinha defendendo publicamente o fim das bets e, segundo informações divulgadas nesta semana, preparava uma Medida Provisória para alterar as regras do setor. Entre as possibilidades discutidas estão desde a proibição ampla das apostas esportivas e dos cassinos on-line até restrições mais específicas.
A eventual redução ou eliminação dos patrocínios das casas de apostas afetaria uma fonte importante de receita dos clubes. Dados publicados pela Folha mostram que o número de clubes da Série A patrocinados por empresas de apostas no espaço principal das camisas caiu de 18, em 2025, para 13, em 2026, antes mesmo de uma eventual proibição.
Os clubes também já manifestaram preocupação com os efeitos de uma eventual restrição. Em setembro, equipes e entidades do futebol divulgaram um manifesto contrário à proibição das bets, argumentando que a medida poderia provocar forte impacto financeiro no setor.
Clubes já negociavam programa com o governo
Apesar da associação entre os dois assuntos, o programa de reestruturação financeira não nasceu exclusivamente da discussão sobre as bets.
Clubes das Séries A e B já procuravam o governo havia meses para negociar uma forma de alongar suas dívidas e reduzir o custo dos financiamentos. Segundo o UOL, representantes de Corinthians e Internacional, além do CEO do Atlético-MG, participaram das articulações com integrantes do governo.
Uma reunião entre dirigentes e representantes do governo ocorreu cerca de um mês antes da publicação da reportagem desta sexta-feira. A CBF participa das articulações, mas o pedido de renegociação partiu dos próprios clubes.
A proposta, portanto, reúne duas questões que passaram a caminhar juntas: o antigo problema de endividamento dos clubes e a possibilidade de uma mudança no mercado que se tornou uma das principais fontes de patrocínio do futebol brasileiro.
O que pode acontecer se houver uso irregular
O programa também prevê mecanismos de controle sobre os clubes participantes.
Caso os recursos sejam utilizados fora das finalidades autorizadas ou o clube deixe de cumprir o pagamento do financiamento, a dívida poderá ter seu vencimento antecipado e a equipe poderá ser excluída do programa.
O objetivo declarado do modelo em discussão é permitir que clubes com passivos elevados substituam dívidas mais caras por uma estrutura de longo prazo. Na prática, porém, os clubes continuariam responsáveis pelo pagamento dos valores contratados.
A proposta ainda não representa uma liberação definitiva dos R$ 20 bilhões. O desenho depende da conclusão das negociações e de eventuais medidas do governo e do Congresso.
ENTENDA O CONTEXTO
A discussão sobre o financiamento ocorre em um momento de forte dependência do futebol brasileiro em relação ao mercado de apostas. Os contratos de patrocínio com bets cresceram nos últimos anos e passaram a ocupar espaço relevante nas receitas de diversos clubes. Ao mesmo tempo, o governo federal passou a defender mudanças no setor diante das preocupações relacionadas ao endividamento e ao comportamento de apostadores.
O possível programa de reestruturação não funcionaria como um pagamento direto das dívidas dos clubes pelo governo. O modelo em discussão é de financiamento, com prazo alongado e juros menores. Os recursos seriam destinados a passivos previamente definidos, e os clubes permaneceriam responsáveis pela quitação dos empréstimos.
A proposta também aparece em meio a uma tentativa dos clubes de encontrar alternativas para reduzir seus custos financeiros. Caso o mercado de apostas seja restringido, a necessidade de reorganização pode aumentar para equipes que possuem contratos relevantes com essas empresas.
O formato definitivo do programa, entretanto, ainda pode ser alterado antes de eventual implementação.
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