Por que a Antártica congelou muito antes do Ártico? Novo estudo pode ter encontrado a resposta

Pesquisadores descobriram que a formação do gigantesco manto de gelo no Polo Sul não dependeu apenas da queda das temperaturas; um processo geológico pode ter mudado a história do planeta.
Redação NC News
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Durante décadas, cientistas tentaram responder uma pergunta intrigante sobre a história da Terra: por que a Antártica ficou coberta por gelo cerca de 34 milhões de anos atrás, enquanto o Ártico só desenvolveu uma camada permanente de gelo aproximadamente 25 milhões de anos depois?

Agora, um novo estudo publicado na revista científica Science apresenta uma explicação que pode resolver esse mistério. A pesquisa indica que o congelamento da Antártica foi impulsionado não apenas pela redução da temperatura global, mas também por um gigantesco processo geológico que elevou partes do continente a altitudes favoráveis para a formação de gelo permanente.

A dúvida intrigava cientistas há décadas
Os níveis de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera começaram a cair drasticamente no fim do período Eoceno, há cerca de 34 milhões de anos. Esse resfriamento global sempre foi considerado a principal explicação para o surgimento das grandes calotas polares.

Mas havia um problema.

Se a queda do CO₂ fosse a única responsável, tanto a Antártica quanto o Ártico deveriam ter congelado praticamente ao mesmo tempo. No entanto, isso não aconteceu.

Enquanto o Polo Sul passou a acumular enormes camadas de gelo, o Polo Norte permaneceu praticamente livre de gelo permanente por milhões de anos.

O papel das montanhas escondidas sob o gelo
Segundo os pesquisadores, a resposta está nas Montanhas Gamburtsev, uma cadeia montanhosa localizada sob a espessa camada de gelo da Antártica Oriental.

Modelos computacionais mostram que movimentos profundos do interior da Terra elevaram essa região ao longo de milhões de anos. Em determinado momento, grande parte dessas montanhas ultrapassou uma altitude crítica — entre 1.500 e 2.000 metros —, suficiente para que a neve deixasse de derreter completamente durante o verão.

A partir daí, o gelo passou a se acumular ano após ano, dando origem às primeiras geleiras permanentes e, posteriormente, ao gigantesco manto de gelo que cobre o continente até hoje.

Por que o Ártico demorou tanto?
O cenário era completamente diferente no Polo Norte.

Ao contrário da Antártica, o Ártico não é um continente elevado. O polo está localizado sobre o Oceano Ártico, cercado por massas de terra.

Sem grandes áreas montanhosas atingindo altitudes elevadas, o gelo permanente demorou muito mais para se estabelecer. Foi necessário um resfriamento ainda maior do clima global para que o gelo pudesse permanecer durante todo o ano em regiões de baixa altitude.

Uma descoberta que ajuda a entender o futuro
Além de explicar um dos maiores enigmas da geologia, o estudo também oferece pistas importantes sobre as mudanças climáticas atuais.

Os pesquisadores destacam que a formação de grandes mantos de gelo depende da combinação entre temperatura, altitude e processos geológicos. Isso ajuda os cientistas a aperfeiçoar modelos que simulam o comportamento das geleiras diante do aquecimento global.

A Antártica Oriental abriga hoje o maior manto de gelo do planeta. Se todo esse gelo derretesse, o nível médio dos oceanos poderia subir cerca de 52 metros, alterando drasticamente o mapa das regiões costeiras do mundo.

O estudo muda o que a ciência sabia?
Os pesquisadores afirmam que o resfriamento provocado pela queda do CO₂ continua sendo essencial para explicar a glaciação da Antártica.

A novidade é que esse fator, sozinho, não explica toda a história.

A pesquisa mostra que a elevação do relevo desempenhou um papel decisivo ao criar as condições necessárias para que o gelo permanente se estabelecesse milhões de anos antes do que ocorreu no Ártico.

ENTENDA O CONTEXTO
Hoje, a Antártica é o continente mais frio da Terra e concentra cerca de 90% de todo o gelo do planeta. Mas nem sempre foi assim. Há dezenas de milhões de anos, a região tinha clima muito mais ameno, vegetação abundante e até fauna diversificada.

A transformação começou no fim do período Eoceno, há aproximadamente 34 milhões de anos. Durante muito tempo, os cientistas atribuíram essa mudança apenas à redução do dióxido de carbono na atmosfera. O novo estudo, porém, mostra que a geologia também foi decisiva: a elevação gradual de montanhas no interior da Antártica criou o ambiente ideal para o surgimento das primeiras geleiras permanentes, ajudando a explicar por que o Polo Sul congelou milhões de anos antes do Polo Norte.

Carregar Comentários