O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que a Polícia Federal (PF) amplie as investigações sobre possíveis irregularidades na execução das emendas parlamentares. A decisão foi tomada após a Corte receber relatórios de auditoria da Controladoria-Geral da União (CGU) e do Departamento Nacional de Auditoria do SUS (Denasus), que apontam falhas graves de transparência e indícios de desvios na aplicação de recursos públicos.
O mapa das irregularidades nas “emendas Pix”
A pedido do STF, a CGU realizou um pente-fino na execução das chamadas emendas Pix repassadas entre 2020 e 2024. A análise de uma amostra de 15 municípios, distribuídos pelas cinco regiões do país, expôs um cenário de descontrole:
- Nove dos 14 municípios que efetivamente executaram os recursos apresentaram algum tipo de irregularidade na contratação de bens e serviços.
- Os casos considerados mais graves envolvem fortes indícios de direcionamento de contratação, sobrepreço e superfaturamento.
- Doze dos 15 entes auditados apresentaram um nível inadequado de transparência ativa e falhas estruturais na rastreabilidade e no acompanhamento da execução do dinheiro.
Falhas na Saúde e devolução de recursos
O escrutínio também atingiu as verbas destinadas à saúde. Um relatório elaborado pelo Denasus analisou a aplicação de R$ 53,3 milhões enviados a 48 municípios de 23 estados, com o objetivo de custear desde a atenção primária até reformas e compra de equipamentos para unidades básicas.
Embora parte do dinheiro tenha sido executada, os auditores constataram controles administrativos insuficientes e deficiência na rastreabilidade financeira. A ausência de monitoramento e as falhas na documentação geraram propostas de devolução de recursos, seja por dano ao erário ou por aplicação em desacordo com a finalidade legal.
Críticas ao “orçamento paralelo” e bloqueio de bens
No despacho, Flávio Dino criticou duramente a apropriação política das verbas. O ministro classificou como “totalmente anômalo” o fato de ex-parlamentares manterem o controle de “cotas orçamentárias informais” e transmitirem ordens diretas a funcionários do Congresso. Ele reiterou que as emendas “não são parcelas do patrimônio privado de cada membro do Congresso”.
A ordem de Dino ocorre no contexto da Operação Transparência, que investiga o desvio de emendas conduzido por pessoas sem mandato valendo-se da estrutura administrativa da Câmara dos Deputados. Na última semana, como parte dessa mesma ofensiva, o ministro determinou o bloqueio parcial de bens do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e do ex-deputado Eduardo Cunha (Republicanos-MG), contrariando um parecer prévio da Procuradoria-Geral da República (PGR).
Para rebater críticas de interferência, Dino ressaltou que a atuação do STF no caso se limita estritamente à fiscalização da constitucionalidade e da legalidade da execução orçamentária, não representando um juízo de valor sobre as decisões políticas tomadas pelo Congresso ou pelo Executivo.