Mundial 2026: Thomas Tuchel amplia jejum da Inglaterra e pressão cresce após nova eliminação

Treinador alemão aposta em longo ciclo com a seleção inglesa, apesar do insucesso no Mundial de 2026.
Redação NC News
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Thomas Tuchel, 52, encerra o Mundial de Seleções de 2026 com a mesma pergunta que o acompanha desde janeiro de 2025: até onde um estrangeiro consegue levar a seleção inglesa? A resposta, por enquanto, para o técnico alemão que dirige o time de Harry Kane e Jude Bellingham é a semifinal, perdida para a Argentina em 15 de julho de 2026.

Tabu intacto e frustração inglesa

A derrota para a equipe de Lionel Messi, que caminha para a terceira final de Mundial, mantém um dos números mais teimosos do futebol de seleções. Um técnico estrangeiro jamais conquista o principal torneio de seleções. “Thomas Tuchel, da Inglaterra, foi eliminado pela Argentina, mantendo o recorde intacto”, resume reportagem de O Globo.

O peso simbólico é grande porque a Inglaterra, campeã apenas em 1966, contrata Tuchel exatamente para romper tabus. A federação aposta em um treinador com currículo em clubes de elite, ex-Paris Saint-Germain e ex-Chelsea, para quebrar o jejum de seis décadas e ampliar o horizonte tático da equipe.

A eliminação em uma semifinal reacende o debate interno. A escolha por um estrangeiro vale o risco político e simbólico quando o título não vem? Ao mesmo tempo, a campanha devolve a seleção ao centro da disputa mundial depois de anos de altos e baixos em fases agudas de grandes torneios.

Aposta estrangeira em alta, resultado aquém

O Mundial de 2026 registra um cenário inédito. Segundo dados citados por O Globo, 54% das 48 seleções são comandadas por técnicos de outra nacionalidade. Canadá, Estados Unidos, Brasil e Uruguai adotam o mesmo caminho da Inglaterra e exportam o comando da seleção para fora de casa.

O movimento lembra o que acontece há anos em grandes ligas europeias, em que clubes se acostumam a trocar de ideias e sotaques no banco de reservas. No ambiente de seleções, porém, o impacto é menor do que o previsto. Nenhum desses estrangeiros, incluindo Tuchel, ultrapassa as quartas de final. Canadá e Estados Unidos caem nas oitavas. O Brasil de Carlo Ancelotti também para nas oitavas, derrotado por 2 a 1 pela Noruega. O Uruguai de Marcelo Bielsa sequer chega ao mata-mata.

O fracasso coletivo alimenta a narrativa de que o Mundial continua terreno de treinadores locais. Mas o volume de estrangeiros indica mudança de mentalidade. Mais da metade das federações aceita relativizar a ideia de seleção como expressão exclusiva de uma escola nacional. O tabu persiste, a tendência de globalização do comando técnico, não.

Projeto de longo prazo e renovação do elenco

Tuchel chega à seleção inglesa em janeiro de 2025. “O técnico comanda o time de Harry Kane e Jude Bellingham desde janeiro de 2025”, registrou a CNN Brasil ao anunciar a contratação. O alemão desembarca com a promessa de modernizar o estilo de jogo e integrar gerações distintas.

Na prática, isso significa aproximar jovens como Bellingham de veteranos como Kane em uma estrutura que mistura intensidade, posse de bola e pressão alta, marca dos times de Tuchel no Chelsea e no PSG. O treinador tenta adaptar conceitos de clube a uma rotina de seleção, com menos tempo de trabalho e elenco mais espalhado pelos campeonatos europeus.

A federação inglesa sustenta o plano mesmo antes de conhecer o desfecho no Mundial. “Em fevereiro deste ano, Tuchel renovou o contrato para ser técnico da seleção inglesa até a Eurocopa de 2028”, noticiou a CNN Brasil. O novo acordo, assinado meses antes da semifinal contra a Argentina, sinaliza um projeto que não depende apenas de um torneio.

No vestiário, a extensão do vínculo funciona como recado duplo. Para os jogadores, a mensagem é de continuidade, independentemente do tropeço em 2026. Para o próprio treinador, a garantia de tempo abre espaço para ciclos de renovação mais profundos, inclusive em posições sensíveis como a de Kane, já em fim de carreira internacional.

Messi, recordes e a sombra da Argentina

O algoz de Tuchel é uma velha conhecida dos ingleses. A Argentina costuma cruzar o caminho do país em momentos decisivos e carregados de simbolismo. Com Messi à frente, o roteiro desta vez também mistura história e estatísticas. “A Copa do Mundo é o palco para momentos inesquecíveis — e muitas quebras de recordes. Lionel Messi que o diga”, descreve O Globo.

Na edição de 2026, o camisa 10 argentino assume a liderança isolada da artilharia histórica do Mundial e empurra a seleção à terceira final da carreira. Para a Inglaterra, a semifinal perdida soma-se a uma relação de tensão esportiva com os argentinos que remete a eliminações anteriores e alimenta a narrativa de um rival quase inevitável em cruzamentos decisivos.

Para Tuchel, o desencontro tem outro efeito. Um eventual triunfo sobre Messi e companhia o colocaria como terceiro técnico estrangeiro na história a chegar a uma final com seleção de país diferente do seu e, potencialmente, o primeiro a erguer o troféu nessa condição. A derrota preserva a marca e devolve o alemão ao grupo de treinadores de ponta que batem na trave com seleções.

Vida discreta e o elo brasileiro de Tuchel

Fora de campo, a trajetória recente de Tuchel também passa pelo Brasil. O técnico separa a vida profissional do cotidiano pessoal e aparece pouco em registros públicos. Ainda assim, a relação com a brasileira Natalie Max, de cerca de 39 anos, surge aqui e ali como contraponto íntimo à pressão do banco de reservas.

De acordo com a imprensa inglesa, o namoro começa em 2022, pouco depois do divórcio de Tuchel, que põe fim a um casamento de 13 anos. Natalie, mãe de dois filhos, trabalha em consultoria de marketing e vive na Inglaterra quando conhece o treinador. Ela atua como diretora da agência Natexo, que deixa de atualizar redes sociais e desativa o site a partir de meados de 2022.

Os dois aparecem juntos em poucos momentos, quase sempre captados por fotógrafos em férias ou em jogos. Em 2022, são vistos na Itália, em descanso após a intensa rotina de clubes. A discrição resiste mesmo depois de Tuchel assumir o cargo mais visado do futebol inglês, em uma seleção que transforma qualquer detalhe de bastidor em assunto público.

A presença de Natalie projeta um recorte diferente de Tuchel para o público brasileiro. A figura do estrategista frio, obcecado por pranchetas e treinos, ganha contorno doméstico, com um elo afetivo que passa por São Paulo e Londres, trabalho em marketing digital e rotina de mãe solo adaptada ao calendário imprevisível do futebol de elite.

Quem ganha, quem perde e o que vem depois

A derrota na semifinal reorganiza o tabuleiro do futebol inglês. A federação preserva a aposta em um técnico estrangeiro, agora com a pressão ampliada pela ausência de título no Mundial e pela lembrança insistente de 1966. O benefício imediato é a continuidade de ideias, rara em seleções que trocam de comando a cada tropeço.

Tuchel ganha tempo, mas não escapa da cobrança. O ciclo até a Eurocopa de 2028 vira exame prático da decisão de entregar a seleção a um alemão. Um bom desempenho no torneio continental pode consolidar o modelo e encorajar outros países a seguir pela mesma rota. Um fracasso, ao contrário, tende a reaquecer a preferência por técnicos locais.

Para o mercado europeu, a permanência de Tuchel na seleção reduz, por ora, a circulação de um dos técnicos mais cobiçados do continente, ex-Chelsea, ex-PSG e com passagem recente pelo Bayern. Clubes que cogitam mudanças de treinador sabem que ele não volta tão cedo à rotina de jogos semanais.

O Mundial de 2026, com 54% de estrangeiros no comando das seleções e nenhum campeão entre eles, deixa a discussão em aberto. A experiência inglesa com Tuchel, fortalecida por um contrato que atravessa 2028, deve servir de laboratório. A pergunta, para Londres e para o resto do mundo, é se a seleção nacional continuará a ser território protegido dos técnicos da casa ou se a globalização, tão natural nos clubes, finalmente vai vencer o último grande tabu.

Carregar Comentários