O meia argentino Tomás Pochettino, 30, é apresentado na última terça-feira, 14, como novo jogador do Esporte Clube Vitória, por empréstimo do Fortaleza até o fim de 2026. O contrato tem opção de compra fixada em aproximadamente R$ 8,8 milhões e o jogador já pode estrear contra o Vasco, quinta-feira, às 19h30, no Barradão, pela 19ª rodada da Série B.
Ligação com Papellin pesa mais que proposta
Pochettino entrou na sala de imprensa do Barradão já tratado como peça central do projeto rubro-negro para a sequência do Campeonato Brasileiro Série B. Diante de um clube pressionado por resultados e por um acesso à Série A, ele deixa claro que a escolha não é só esportiva.
O argentino credita que a mudança de Fortaleza para Salvador à confiança de Sérgio Papellin, diretor de futebol do Vitória e responsável por trazê-lo ao futebol brasileiro. “O principal motivo de vir aqui foi pela ligação de Papellin. Quero agradecer a ele que acreditou em mim, como acreditou no Fortaleza. Ele gosta de mim, disse que queria que eu viesse. Foi a maior motivação. Também de jogar em um clube grande como o Vitória”, afirma.
Papellin responde com elogios públicos, numa espécie de recado à torcida sobre o peso da contratação. “Tenho uma ligação há muito tempo com o Pochettino. Ele começou no Boca Juniors. Um fenômeno que jogou também no River Plate, nos dois maiores da Argentina. Tivemos a oportunidade de jogar contra ele quando estava no River, na Libertadores. Depois ele foi para os Estados Unidos. E depois a gente trouxe para o Fortaleza, um jogador que nos ajudou demais”, diz o dirigente.
O movimento não é isolado. Pochettino é mais um a fazer a ponte entre o clube cearense e o Vitória em 2026. A estratégia da diretoria baiana mira atletas já testados em competições nacionais, em um momento em que o clube tenta transformar a boa campanha regional na Copa do Nordeste em consistência na Série B.
Volante-meia, não camisa 10
Na apresentação, Pochettino trata de afastar o rótulo de meia clássico, aquele que atua próximo ao centroavante e finaliza com frequência. Ao se definir, ele mira mais o meio do campo que a área adversária. “Eu me considero mais um volante-meia que um meia-atacante. Me considero mais um jogador de assistência que finalização. Vou tratar de ajudar”, resume.
O novo camisa 8 explica que pode atuar em várias funções, mas reforça que rende melhor como um meio-campista que constrói o jogo, não como ponta. “Posso jogar como tripé, como meia. Posso jogar também de extremo, mas não considero uma posição que seja o meu forte. Sei que há grandes jogadores aqui, um time já encaixado. Vou tratar de ajudar do jeito que puder”, afirma.
A fala dá pistas de como a comissão técnica pode adaptar o meio-campo na reta final do primeiro turno. Hoje, Matheuzinho, camisa 10, atua aberto pela esquerda, à frente de três volantes. A chegada de Pochettino aumenta as alternativas de formação, amplia a concorrência interna e pressiona por desempenho imediato de quem já está no elenco.
Concorrência no elenco e dilema na Copa do Brasil
O impacto da contratação aparece também fora do Campeonato Brasileiro. O Vitória só pode inscrever mais um jogador que já defendeu outro clube na atual edição da Copa do Brasil. Pochettino disputa essa vaga com o zagueiro Emanuel Brítez, seu compatriota e também ex-Fortaleza.
O argentino evita alimentar a disputa em público e empurra a decisão para a comissão técnica. “Não sei [se serei inscrito], é uma decisão da comissão técnica. E vou respeitar o que decidirem. Mas não depende de mim. Não passa por mim. Obviamente todo jogador quer jogar”, admite.
O dilema expõe a importância da contratação. Se o Vitória optar por priorizar o equilíbrio defensivo, Brítez tende a ganhar espaço na Copa do Brasil. Se a aposta recair na capacidade de criação e na bola parada, Pochettino assume protagonismo na competição nacional de mata-mata. Em qualquer cenário, o clube terá de renunciar a uma peça experiente.
Recomeço após queda e portas abertas no Barradão
Nos bastidores, a transferência sela também um recomeço pessoal. Pochettino deixa um Fortaleza em crise, que cai para a Série B e enfrenta turbulência interna, e admite que já não se vê útil por lá. O empréstimo envolve um investimento significativo para o padrão do Vitória, que fixa a opção de compra em R$ 8,8 milhões até o fim de 2026 e aposta em retorno esportivo imediato.
Ele chega em forma, sem férias e com ritmo recente de jogo. “Estou pronto. Estou muito ansioso de jogar. A Série B não parou, e eu não parei de treinar. Meu último jogo foi há um mês. Estou preparado para ajudar”, afirma, ao comentar a possibilidade de estreia já contra o Vasco, no Barradão.
A familiaridade com o estádio pesa a favor da adaptação. O meia lembra as vezes em que enfrenta o Vitória como visitante e admite o incômodo com o ambiente. Agora, quer usar essa atmosfera a seu favor. Ele destaca a força da torcida rubro-negra, conhecida pela pressão, e a chance de transformar um antigo palco hostil em casa.
A diretoria enxerta o elenco em um momento decisivo da Série B. Com sete ex-jogadores do Fortaleza no grupo, o Vitória tenta equilibrar orçamento e ambição. Se Pochettino render o esperado, o clube ganha um meio-campista capaz de qualificar a saída de bola, chegar à área e manter intensidade defensiva, algo essencial numa competição de 38 rodadas.
O que está em jogo até 2026
A aposta vai além de 2026. O desempenho do argentino pode definir a configuração do meio-campo rubro-negro nas próximas temporadas e influenciar decisões sobre renovação, venda de atletas e formação do elenco. Um bom rendimento pode levar o Vitória a exercer a compra e construir um projeto em torno do jogador, inclusive de olho em vagas em competições internacionais, ambição declarada pelo próprio Pochettino.
Um eventual fracasso obrigaria a diretoria a recalcular rota, rever a política de contratações e administrar a frustração de parte da torcida, que vê na chegada do argentino um símbolo de um Vitória mais agressivo no mercado. A resposta começa a aparecer já na quinta-feira, quando o Barradão volta a ser palco não só do jogo contra o Vasco, mas do primeiro teste prático de uma das maiores apostas do clube na temporada.