Falhas em 66% das notas levantam alerta sobre novos tributos no Brasil

Levantamento revela falhas em notas fiscais que podem impedir aproveitamento de créditos tributários a partir de agosto.
Redação NC News
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Um estudo da V360 mostrou que 66,2% das notas fiscais eletrônicas emitidas por grandes empresas em junho deste ano, tiveram falhas que ameaçaramm o crédito de IBS e CBS. O levantamento, divulgado nesta quinta-feira (16), analisa 6,4 milhões de documentos de 87 companhias de diversos setores.

Crédito em risco às vésperas de regra mais rígida

Os dados acendem um alerta num momento em que a reforma tributária entra em fase decisiva de testes. A partir de 3 de agosto de 2026, notas sem os campos de tributos preenchidos deixam de ser aceitas pelos sistemas fiscais. Quem não se adapta corre o risco de ver travados pagamentos a fornecedores, acumular pendências com o fisco e, sobretudo, perder o direito ao crédito previsto no novo modelo.

O IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) são os eixos do sistema que substitui gradualmente os tributos atuais sobre consumo até 2033. O desenho promete reduzir a tributação em cascata, mas exige precisão milimétrica nas notas fiscais. Sem dados corretos, o crédito que garante essa compensação simplesmente desaparece.

Campos em branco dominam os problemas

O principal erro detectado pela V360 é elementar: em 64,4% das notas analisadas, os campos específicos de IBS e CBS aparecem vazios. Em outros 1,8% dos documentos, o problema está na conta, com divergência entre o valor calculado pelo fornecedor e a referência esperada pelos sistemas de validação.

Na prática, isso significa que quase dois terços das notas não oferecem base mínima para reconhecer o crédito dos novos tributos. Quando o campo está em branco, não há o que calcular. Quando o número informado diverge, a tendência é o valor ser rejeitado na conferência, empurrando a empresa para um labirinto de contestações, devoluções e retrabalho com o fornecedor.

Segundo Izaias Miguel, CEO da V360, o ponto nevrálgico do novo modelo não está apenas em emitir a nota corretamente, mas em garantir a qualidade do que chega à empresa. “O crédito só existe se a informação estiver correta e validada. Uma nota com campo vazio ou cálculo divergente não vira crédito, vira risco. E como quem preenche a nota é o fornecedor, o crédito tributário da sua empresa passa a depender da qualidade da cadeia inteira, não só do seu time”, afirma.

Do fechamento mensal ao fisco em tempo real

O estudo destaca uma mudança estrutural na rotina tributária. A apuração de IBS e CBS deixa de ser um exercício concentrado no fechamento do mês e passa a ocorrer, em grande medida, fora da empresa. “A apuração dos tributos deixará de ser realizada exclusivamente pela empresa no fechamento do mês e passará a ser calculada pelo próprio fisco, com base nas notas fiscais emitidas e recebidas em tempo real”, diz a V360.

Esse desenho lembra a declaração pré-preenchida do Imposto de Renda: o governo cruza as informações e apresenta um cálculo pronto, que o contribuinte precisa conferir. No caso dos novos tributos sobre consumo, cada nota emitida ou recebida alimenta esse sistema. Se os dados entram errados, o crédito não se consolida, ainda que a operação econômica tenha ocorrido de forma legítima.

Izaias Miguel chama atenção para o fluxo de entrada das notas, conhecido no jargão como inbound fiscal. “O mercado fala muito sobre como emitir a nota no novo modelo, mas o ponto crítico para quem opera em grande escala será receber, validar e garantir o crédito. Se a empresa não conseguir organizar o inbound fiscal, ela pode ter nota emitida corretamente pelo fornecedor, mas ainda assim enfrentar divergências, atrasos e risco de perda de crédito”, afirma.

Pressão sobre cadeias complexas e grandes volumes

O risco se torna maior em setores com cadeias produtivas longas, muitos fornecedores e alto volume diário de documentos. Em operações assim, cada falha se replica em série no fluxo de caixa, encarece o crédito tomado no banco e prolonga disputas com o fisco. Quando o crédito de IBS e CBS não é reconhecido, a empresa paga mais imposto do que deveria, ou precisa travar recursos em provisões e discussões administrativas.

O levantamento da V360 reforça que a regularização de erros depende, quase sempre, da interação com o fornecedor. A nota já registrada, paga e integrada ao sistema interno precisa voltar ao emissor para correção, o que consome tempo e eleva o risco de o crédito caducar ou ser questionado em fiscalização futura.

O modelo previsto pela reforma também amplia a relevância dos chamados eventos fiscais, registros eletrônicos como confirmações de operação ou recusas da nota. Eles passam a integrar o dossiê que comprova o direito ao crédito, somando uma camada a mais de dados que precisa ser monitorada em tempo real.

Corrida por automação e monitoramento contínuo

A poucos meses da cobrança efetiva da CBS, prevista para 2027, e com o IBS avançando de forma gradual até 2033, empresas correm para reforçar a automação de seus processos fiscais. A partir de 3 de agosto, notas sem os campos de IBS e CBS, inclusive com as alíquotas de teste de 1% no total, serão rejeitadas automaticamente pelos sistemas oficiais.

Segundo a V360, o desafio é que muitas companhias chegam a essa fase de transição com automações incompletas e forte dependência de trabalho manual na validação de notas. Em cenários de centenas de milhares de documentos por mês, o risco de gargalos operacionais e atrasos de pagamento cresce rapidamente.

O recado implícito do estudo é que o novo crédito tributário deixa de ser um tema restrito ao departamento fiscal e passa a afetar diretamente tesouraria, compras e relações com fornecedores. Quem se adianta na revisão de processos, homologa parceiros e institui checagem automática na entrada tende a reduzir perdas. Quem posterga essa adaptação pode descobrir, tardiamente, que parte relevante de seu crédito virou custo.

Nos próximos meses, a combinação de testes com alíquota simbólica, endurecimento das regras de emissão e avanço do sistema de apuração em tempo real deve expor ainda mais a distância entre o desenho da reforma e a realidade operacional das empresas. A rapidez com que o setor privado reagir a esse choque de cultura fiscal vai definir se o crédito de IBS e CBS se consolida como alívio financeiro ou como novo foco de litígio e incerteza.

 

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