Após reunião de emergência com o presidente Lula nesta quinta-feira (16), o governo anunciou retaliação, classificou a atitude americana como “arrogante” e acusou a família Bolsonaro de atuar nos bastidores a favor do boicote estrangeiro.
O clima azedou de vez entre o Palácio do Planalto e a Casa Branca. A confirmação de que os Estados Unidos, sob a liderança de Donald Trump, vão punir o Brasil com um tarifaço a partir de 22 de julho gerou uma resposta imediata e inflamada do Itamaraty.
O chanceler Mauro Vieira subiu ao púlpito logo após se reunir com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para rebater os ataques americanos. O alvo principal do diplomata foi o senador e aliado de Trump, Marco Rubio. Vieira deixou claro que o país não aceitará passivamente sanções que ameaçam empregos e a indústria nacional.
“As declarações de Rubio são inaceitáveis e ofensivas ao governo brasileiro. Rubio ataca de forma grosseira e arrogante. O que incomoda é o Brasil não ter se curvado”, disparou o ministro.
A desculpa americana: o “problema” do Pix gratuito
A agressão comercial de Washington foi baseada em um relatório do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR). O documento acusa o Brasil de praticar concorrência desleal há décadas. No entanto, o que revoltou a diplomacia brasileira foram os motivos inusitados listados para justificar a punição milionária.
Segundo o governo americano, as empresas dos Estados Unidos são “injustamente” prejudicadas por medidas brasileiras, como:
- O sucesso do Pix: Os americanos reclamam abertamente que o sistema de pagamento instantâneo do Banco Central prejudica as gigantes financeiras dos EUA, justamente por ser um serviço rápido e gratuito para a população.
- Soberania judicial: O relatório questiona decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) que obrigam a remoção de conteúdos falsos de redes sociais.
- Questão ambiental: O desmatamento ilegal no país foi usado como pretexto de que a indústria madeireira dos EUA não consegue competir no mercado global.
- Corrupção: A posição do Brasil no Índice de Percepção da Corrupção (IPC) também serviu como argumento para aplicar o imposto.
Apesar da canetada de 25% pesar sobre a nossa balança comercial, itens específicos do agronegócio receberam isenção, como café, açaí, carne bovina, laranja e mel orgânico.
Acusação de traição e o fator Bolsonaro
A resposta de Brasília não se limitou ao campo diplomático; invadiu a polarização política interna. Em nota oficial contundente assinada pela Presidência da República, o governo federal considerou as investigações americanas ilegítimas, fora das regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), e cravou a participação do ex-presidente Jair Bolsonaro no episódio que afeta a economia do país.
Para a gestão Lula, a sanção americana teve colaboração ativa e festejada da oposição:
“É triste constatar que o lamentável desfecho das investigações […] faz parte do enredo construído com a ativa colaboração da família Bolsonaro. São falsos patriotas que arquitetaram e defenderam publicamente ações contra o nosso país, movidos por objetivos eleitoreiros.”
O contra-ataque brasileiro
O governo brasileiro revelou que realizou mais de 30 reuniões com o USTR ao longo do ano para apresentar evidências técnicas e tentar barrar as alegações de “práticas desleais”, sem sucesso. Agora, a fase do diálogo chegou ao fim.
Como resposta direta a Donald Trump, o Brasil confirmou que vai disparar as armas da recém-aprovada Lei de Reciprocidade. A legislação autoriza o governo Lula a retaliar na mesma moeda, aplicando sobretaxas punitivas contra produtos, serviços e investimentos dos Estados Unidos em território nacional. A guerra comercial está apenas começando.