O brasileiro Wilton Pereira Sampaio deixa de ser opção para apitar a final do Mundial de Seleções entre Argentina e Espanha, marcada para este domingo. A decisão, tomada pelo comitê de arbitragem da entidade que organiza o torneio, será comunicada oficialmente nesta quinta-feira.
Rivalidade derruba árbitro brasileiro
O corte de Wilton não nasce de uma falha técnica ou de avaliação ruim no torneio. A entidade admite internamente que a escolha passa pela rivalidade entre Brasil e Argentina, acentuada nos últimos anos e potencializada pela condição argentina de atual campeã mundial.
“A questão para a entidade é a rivalidade entre brasileiros e argentinos”, resume uma fonte da arbitragem. O regulamento do Mundial de Seleções “não exclui árbitros da mesma confederação continental dos países envolvidos na partida, o que manteria as chances de Wilton, mas a entidade quer evitar na decisão um árbitro da Conmebol, entidade que comanda o futebol sul-americano, para evitar desgastes”.
O histórico mostra que a preocupação é recente. Em 1986, na final vencida pela Argentina contra a Alemanha, o árbitro é o brasileiro Romualdo Arppi Filho. Agora, o entendimento é que o clima entre as seleções do continente se deteriora, com episódios de tensão dentro e fora de campo, o que poderia alimentar suspeitas argentinas diante de qualquer lance polêmico.
De jogo de abertura ao provável terceiro lugar
Wilton Pereira Sampaio entra no Mundial em alta. Ele apita a partida de abertura, ganha boa avaliação do comitê e chega a ser visto nos bastidores como nome forte para a decisão. A combinação entre experiência internacional e confiança de Pierluigi Colina, presidente do Comitê de Árbitros, o coloca inicialmente no pelotão de frente.
Essa trajetória muda a partir da definição da final entre Argentina e Espanha. A partir daí, dirigentes passam a tratar como risco a presença de um árbitro brasileiro no centro da decisão. Pesa também a relação tensa entre torcidas, declarações cruzadas e a lembrança de confrontos recentes.
A saída encontrada é deslocar Wilton para outro jogo de peso. Ele “passa a ser favorito para comandar França x Inglaterra pela decisão do terceiro lugar, sábado, em Miami”. A escolha preserva o prestígio do brasileiro, mas o afasta do posto máximo da carreira de um árbitro: apitar a final de um Mundial.
“A decisão deve ser comunicada aos árbitros nesta quinta-feira pelo presidente do Comitê de Árbitros, o italiano Pierluigi Colina.” A partir dessa reunião, os juízes escalados ajustam rotina, viagens e preparação específica para os confrontos do fim de semana.
Faghani favorito, mas com obstáculo político
Com Wilton fora da corrida, o foco se volta para nomes considerados neutros em relação aos finalistas e à geopolítica do futebol. “O favorito para apitar a final é Alireza Faghani, que apitou a final do Mundial de Clubes de 2025 e três jogos nesta Copa do Mundo.”
Faghani é iraniano, mas vinculado hoje à Federação Australiana de Futebol. A dupla nacionalidade ajuda a ampliar seu trânsito no meio, mas não elimina resistências. “O que pesa contra Faghani é que, apesar de ser vinculado à Federação Australiana de Futebol, ele é iraniano, país que está em guerra com os Estados Unidos.”
A guerra reativa pressões externas. O país-sede do duelo do terceiro lugar, os Estados Unidos, tem peso político nas decisões da entidade. O presidente Gianni Infantino acumula críticas por sua relação com Donald Trump, ex-presidente americano, e passa a ser observado com lupa quando decisões esbarram em temas sensíveis de política internacional.
Nesse contexto, parte da cúpula teme que a escolha de um iraniano para a final seja usada como munição em disputas políticas, principalmente se o jogo tiver lances controversos. A arbitragem vira peça de um tabuleiro que vai além das quatro linhas.
Planos B e o peso da história recente
Se a nacionalidade de Faghani se provar um entrave incontornável, o roteiro reserva um segundo nome de consenso técnico: o esloveno Slavko Vincic. Ele “passa a ser o nome mais forte para domingo” em caso de recuo na indicação do iraniano.
Outro personagem de peso no debate é o polonês Szymon Marciniak, árbitro da final entre França e Argentina em 2022. “O polonês Szymon Marciniak, que apitou a final entre França e Argentina em 2022, segue prestigiado com Colina, mas nunca um árbitro comandou duas finais da Copa, o que reduz as chances do polonês.” A tradição pesa tanto quanto o desempenho atual.
Para a Conmebol, a mensagem é clara: a entidade perde protagonismo numa decisão que envolve um representante do continente. No gramado, o duelo é entre Argentina e Espanha. No apito, o comando deve vir de outro eixo do futebol mundial.
Impacto e precedente para futuros Mundiais
A escolha de afastar um árbitro pela rivalidade regional, mesmo sem impedimento formal no regulamento, abre um precedente. Na prática, a entidade admite que escalas em partidas decisivas não dependem apenas de critérios técnicos e disciplinares.
Dirigentes e árbitros veem a medida como tentativa de blindar a final de debates inflamados, reclamações oficiais e teorias de favorecimento. Ao mesmo tempo, o gesto alimenta dúvidas sobre até que ponto fatores políticos e pressões externas passam a interferir, silenciosamente, em decisões de arbitragem.
O setor de arbitragem vive essa contradição. De um lado, o discurso de autonomia técnica e meritocracia. De outro, a realidade de um Mundial em que rivalidades regionais, guerras e relações pessoais de dirigentes com líderes políticos entram na conta.
Os próximos dias definem mais do que o nome do árbitro da final. A confirmação de Faghani, de Vincic ou de uma solução de última hora indicará qual peso a entidade dá, hoje, à neutralidade política em relação ao desempenho em campo. Para Wilton Pereira Sampaio, a resposta já está dada: a geopolítica do futebol empurra o brasileiro para a disputa do terceiro lugar e o afasta, por ora, do ápice de sua carreira.