A laje de uma gráfica em reforma desaba na manhã desta sexta-feira (17) na Rua da Saudade, bairro da Boa Vista, no Centro do Recife, e deixa quatro pessoas feridas. Todas são resgatadas conscientes debaixo dos escombros por equipes do Corpo de Bombeiros e atendidas por socorristas do Samu.
Demolição na parte de cima antecede colapso da estrutura
O acidente acontece enquanto operários derrubam as paredes da parte superior do imóvel, uma gráfica localizada a poucos metros do Parque Treze de Maio. A reforma ocorre com o prédio em funcionamento parcial, segundo funcionários, quando a laje cede de forma repentina e atinge quem trabalhava na área.
Bruno Rodrigues, contratado para o serviço de demolição, relata que o grupo já derruba a segunda parede no momento do desabamento. “A gente já tinha retirado uma parede, estava na segunda parede, porque a gente foi contratado para fazer esse serviço, e foi quando desabou”, conta. Ele diz não ter visto o início do colapso. “Eu não sei dizer como foi, porque eu estava na parte de trás, mas meu amigo estava aqui na parte da frente e está preso lá nas metralhas”, afirma, ainda abalado.
O estrondo assusta quem trabalha e circula pelo entorno. No oitavo andar de um prédio em frente, o eletricista Bruno da Silva interrompe o serviço ao ouvir o barulho seco vindo da rua. “Escutamos um estrondo muito forte de fato, e até a gente pensou que era um acidente de carro ou alguma coisa e fomos para a parte de cá para poder olhar”, relata.
Da janela, ele vê o cenário de destruição. “Quando chegamos e olhamos, realmente foi […] a laje de cima caiu na de baixo, e aí descemos desesperadamente para poder ajudar”, diz. Segundo o eletricista, algumas pessoas hesitam em se aproximar com medo de um novo desabamento.
Quatro feridos e resgate sob escombros no Centro do Recife
Entre as vítimas está o policial civil Wilton de Lima Campos, de 43 anos, identificado por testemunhas ainda durante o resgate. Ele sofre fratura na perna e fica preso sob parte da laje, segundo quem ajuda nas primeiras retiradas de entulho. “Tinha um rapaz que é policial civil que estava embaixo dos escombros, estava bastante machucado, estava com a perna quebrada e aí a gente correu para poder tirar os escombros”, conta Bruno da Silva.
Além do policial, ficam feridos uma mulher de 27 anos, um homem de 68 anos e outro de 59 anos. De acordo com o Samu, a jovem de 27 anos e o policial são encaminhados para o Hospital da Restauração, no Derby. O idoso de 68 anos também segue para a mesma unidade, com lesão na perna direita e escoriações. O homem de 59 anos é levado pelo Corpo de Bombeiros para o Hospital Unimed III, na própria Boa Vista.
No Hospital da Restauração, a direção confirma que a mulher de 27 anos e o policial de 43 anos apresentam ferimentos leves e recebem alta após atendimento. O paciente de 68 anos permanece internado, em estado estável. O quadro clínico do ferido de 59 anos ainda não é divulgado até o fim da manhã.
O Corpo de Bombeiros mobiliza várias equipes para o resgate. O tenente-coronel Brayner, que coordena a operação no local, afirma que não há mortos. “Todas as vítimas foram retiradas conscientes e orientadas e entregues para as equipes de saúde. O estado de saúde, ao final, será constatado por meio dos exames dos hospitais para onde elas foram conduzidas”, diz.
Cães farejadores, Samu e corte de energia
Os bombeiros usam um cão farejador para checar se alguém permanece sob os escombros depois do resgate dos quatro feridos. O animal circula pelos ambientes atingidos e não indica novas presenças humanas. “O cão foi utilizado para identificar possíveis vítimas desacordadas, mas nós não identificamos essas vítimas presentes”, explica o tenente-coronel Brayner.
O Samu envia três viaturas para a Rua da Saudade, duas ambulâncias de suporte avançado e uma de suporte básico, além de uma motolância para o primeiro atendimento. As equipes se dividem entre a estabilização dos feridos ainda dentro do imóvel e o transporte imediato para as unidades hospitalares de referência em trauma no Recife.
Ao mesmo tempo, a Neoenergia, concessionária responsável pelo fornecimento de energia elétrica, desloca uma equipe técnica após ser acionada pelos bombeiros. Os técnicos cortam a energia apenas no prédio atingido para evitar choques e curto-circuitos entre os escombros. A empresa informa que não realiza desligamento em outros imóveis da região, medida que reduz o impacto direto sobre o comércio e moradores vizinhos.
Defesa Civil avalia interdição e expõe falhas em segurança de obras
A Defesa Civil do Recife inicia uma vistoria no imóvel ainda pela manhã. Técnicos verificam rachaduras, deformações em pilares e a condição da laje remanescente. O órgão informa que só após essa análise será possível decidir se haverá interdição total ou parcial da gráfica e de imóveis do entorno.
O desabamento ocorre em uma área de intensa circulação de pedestres e veículos, que liga o Centro ao bairro de Santo Amaro. O episódio reacende o alerta para a segurança de reformas em prédios antigos e adensados, onde qualquer erro estrutural ou falha no planejamento da demolição pode provocar danos em cadeia.
Especialistas em engenharia ouvidos em episódios semelhantes costumam associar colapsos durante reformas à retirada de elementos estruturais sem escoramento adequado, sobrecarga localizada ou falta de laudos prévios detalhando o estado da construção. No caso da gráfica na Rua da Saudade, as autoridades ainda evitam apontar causas antes da conclusão das perícias.
Enquanto as equipes trabalham, o entorno do prédio tem a circulação restringida. Trabalhadores da construção civil que atuam na obra, funcionários da gráfica e pequenos comerciantes próximos já sentem os efeitos imediatos. Parte do comércio baixa as portas por medo de novos desabamentos ou por causa do bloqueio da via.
Investigação deve mirar conduta da obra e protocolos de fiscalização
As causas do desabamento passam a ser investigadas por órgãos de perícia e fiscalização. A apuração deve focar em como é feita a demolição das paredes superiores, se há responsável técnico pela obra, quais autorizações foram concedidas e se as normas de segurança do trabalho são cumpridas.
A presença de um policial civil entre os feridos tende a ampliar a repercussão do caso dentro das próprias instituições de segurança. A expectativa é de que laudos estruturais e relatos de trabalhadores, como Bruno Rodrigues, ajudem a traçar a cronologia exata do colapso da laje.
O episódio pressiona o poder público a revisar os mecanismos de fiscalização de reformas no Centro do Recife, região com grande concentração de imóveis antigos e adaptações sucessivas de uso. A depender das conclusões, a empresa responsável pela obra pode enfrentar sanções administrativas, exigência de reforço estrutural e eventual responsabilização civil e criminal.
Nos próximos dias, Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e órgãos municipais devem definir se o prédio poderá voltar a ser ocupado e em que condições. O desabamento desta sexta-feira se soma a outros acidentes recentes em estruturas em reforma no país e alimenta o debate sobre a segurança de trabalhadores e transeuntes em áreas urbanas densas, onde uma laje que cai não atinge apenas um canteiro de obra, mas todo o entorno.