William Bonner estreia nesta sexta-feira (17) uma série especial no Globo Repórter em que percorre Marrocos, Portugal e Espanha, sedes do Mundial de Seleções de 2030. O jornalista, com mais de 40 anos de carreira, troca a bancada do telejornalismo diário por reportagens de fôlego, gravadas ao longo de 20 dias em oito cidades.
Um novo Bonner na tela
A mudança de Bonner para o Globo Repórter ganha forma concreta agora, com a exibição da primeira parte da série, dedicada ao Marrocos. O movimento não altera só a grade da TV Globo. Reorganiza também a rotina e a imagem de um dos rostos mais conhecidos do telejornalismo brasileiro.
Acostumado a entrar no ar todos os dias com notícias urgentes, ele passa a lidar com um produto semanal, que permite pesquisa, deslocamentos longos e entrevistas sem pressa. O público, em troca, recebe não apenas informações sobre estádios ou logística do Mundial, mas um mergulho em história, cultura e identidade dos países-sede.
Bonner resume essa virada numa frase que soa quase como manifesto de carreira: “Eu entrei na TV já como apresentador e aprendi edição. Reportagem eu fiz em diversas situações especiais, às vezes coberturas de tragédias, às vezes eventos de grande importância política no Brasil e no exterior. Mas, naquelas ocasiões, elas eram exibidas no mesmo dia em que tinham sido editadas. Já o ‘Globo repórter’ permite um respiro muito maior. São reportagens que têm um outro timing”.
Viagem intensa, ritmo diferente
A série nasce de uma jornada comprimida e intensa. Foram 20 dias na estrada, em uma equipe de cinco profissionais, gravando em oito cidades entre o norte da África e a Península Ibérica. Fez, Casablanca, Tanger e Chefchaouen, no Marrocos; regiões do Algarve e cidades como Albufeira, em Portugal; Granada, Alhambra e Sevilha, na Espanha.
O cronograma é de maratona, mas com outra lógica em relação ao noticiário diário. “Foram 20 dias, gravando em oito cidades dos três países, numa equipe de cinco pessoas. A rotina de trabalho é muito intensa, porque o ideal é que a gente maximize o aproveitamento das horas do dia”, conta. “Tudo isso era novo para mim, mas não era novo para nenhum deles, o que me ajudou demais nessa minha primeira experiência para o ‘Globo repórter’ no exterior.”
O jornalista fala da nova fase com um entusiasmo raro em quem já viu quase tudo na profissão. “É muito prazeroso porque isso me proporcionou uma nova experiência profissional. Fazer a reportagem olho no olho com os entrevistados, escolher a forma de contar a história e ainda fazer isso com um tempo mais elástico é mais confortável”, afirma.
Marrocos além do cartão-postal
O primeiro episódio leva o telespectador a um Marrocos que Bonner vê pela primeira vez. “Nunca tinha ido ao Marrocos. Lá tem alguns cantos em que as tradições estão muito preservadas. Uma medina como a de Fez, por exemplo, que é enorme, tem milhares de ruas, centenas de mesquitas dentro”, descreve.
A câmera alterna entre essas vielas medievais e cidades como Casablanca e Tanger, que o jornalista define como cosmopolitas e modernas. “Essas coisas convivem, e eu achei isso bem interessante”, diz. A medina de Fez, cenário de gravações da novela “O clone”, volta ao centro da conversa com os marroquinos. “Eles têm muito orgulho do sucesso que ‘O clone’ fez no mundo inteiro. Pude passar por um local dentro da Medina de Fez onde houve gravações da novela”, conta. O guia local, Samir, faz questão de apontar o ponto exato.
A novela é só um dos fios da ligação afetiva com o Brasil. O outro é o futebol. Bonner ouve nas ruas o reconhecimento ao país que se acostumou a protagonizar o esporte que, em 2030, vai ajudar a movimentar turismo e investimentos na região.
A ponte mouros–Mundial
A série se propõe a responder uma pergunta que paira sobre o anúncio de Marrocos, Portugal e Espanha como sedes do Mundial: o que, além da geografia, une esses três países? Bonner aposta na história para justificar a escolha. “Nós visitamos os três países para mostrar para as pessoas que a escolha deles faz sentido”, afirma.
O fio condutor é a presença dos povos mouros na Península Ibérica, entrelaçando norte da África e Europa ao longo de séculos. Marcas dessa convivência aparecem na arquitetura, na culinária, em palavras do vocabulário cotidiano, nas fortalezas de pedra que ainda recortam o horizonte de cidades portuguesas e espanholas.
No Algarve, ele realça o impacto visual e histórico. “Na região do Algarve, a gente tem paisagens muito bonitas, de falésias, que são de encher os olhos. Ali você encontra também uma riqueza arquitetônica em ruínas de castelos da época dos mouros. Uma cidade como Albufeira fica lotada de turistas”, relata.
Na Espanha, o percurso destaca Granada e Sevilha como portas de entrada para essa herança. “Uma cidade como Granada é fascinante, e Alhambra é um lugar obrigatório. São fortalezas e palácios deslumbrantes, do período da presença islâmica. Eu também estive em Sevilha, que é outra cidade de visita obrigatória”, diz. Toda a região da Andaluzia, lembra, oferece ainda uma imersão na cultura flamenca.
Turismo, TV e futuro da série
O efeito imediato da série se espalha além da audiência de uma noite de sexta-feira. Num momento em que o Mundial começa a entrar no horizonte de torcedores e do mercado de viagens, a exposição de cidades como Fez, Chefchaouen, Albufeira, Granada e Sevilha tende a reforçar o apelo turístico da rota.
Bonner não esconde suas preferências pessoais e, ao fazer isso, ajuda a construir uma espécie de guia afetivo para o telespectador. “Se eu tivesse que dizer um lugar que você não deve deixar de visitar, eu diria que é Fez, porque a medina, a cidade medieval muçulmana de Fez é absolutamente encantadora. Mas tem uma cidade muito bonita que é a cidade azul, se chama Chefchaouen”, recomenda.
Dentro da Globo, a experiência abre espaço para um Globo Repórter mais internacional, com temas que cruzam esporte, história e cultura em séries contínuas, e não apenas em episódios isolados. A boa recepção inicial à estreia de Bonner no formato fortalece essa aposta e consolida sua imagem como repórter de campo, e não só como apresentador.
Para o jornalismo televisivo brasileiro, a movimentação serve de laboratório de um modelo menos imediatista, com mais tempo para contextualização e narrativa. Produções assim exigem planejamento complexo, equipes adaptadas a longos deslocamentos e orçamentos mais altos, mas também podem fidelizar um público cansado do noticiário fragmentado.
Os próximos episódios da série devem aprofundar a presença portuguesa e espanhola nessa trama que conecta mouros, Mediterrâneo e futebol. A partir de agora, a disputa por audiência em noites de sexta passa a contar também com as ruas da medina de Fez, as falésias do Algarve e os pátios de Alhambra como personagens. Resta ver até onde essa nova fase de Bonner e do Globo Repórter vai empurrar os limites do jornalismo de viagem e do olhar brasileiro sobre o Mundial que se aproxima.