O prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, acusa Benjamin Netanyahu de ser “criminoso de guerra” e “arquiteto de um genocídio atroz” e, desde 21 de julho, pressiona o governo dos Estados Unidos a prender o primeiro-ministro israelense caso ele venha à cidade em setembro, para a Assembleia Geral da ONU. Mamdani pede que Washington cumpra o mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional (TPI), que acusa Netanyahu de crimes de guerra e crimes contra a humanidade na ofensiva israelense em Gaza após o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023.
Pressão local contra veto da Casa Branca
A ofensiva verbal do prefeito confronta frontalmente a posição da Casa Branca. Na véspera das declarações de Mamdani na última segunda (20), o presidente Donald Trump garantiu que o premiê israelense não sofrerá qualquer tipo de detenção em solo americano. “Benjamin Netanyahu não será preso, de nenhuma maneira, forma ou circunstância, enquanto estiver nos Estados Unidos da América”, escreveu Trump.
O choque de discursos expõe uma fratura rara entre o comando político da maior cidade do país e o governo federal em torno de um aliado estratégico dos EUA. A disputa ocorre às vésperas da temporada diplomática mais sensível do ano em Nova York, quando líderes de todo o mundo se concentram em poucos quarteirões de Manhattan.
O pedido de Mamdani também reacende o debate sobre o alcance do TPI. O tribunal, sediado em Haia, não é reconhecido por Washington nem por Israel. Ambos estão fora do Estatuto de Roma, tratado que criou a corte responsável por julgar crimes de guerra, genocídio e crimes contra a humanidade.
Da promessa de campanha ao impasse jurídico
Mamdani chega ao embate com Netanyahu carregando uma promessa de campanha. Durante a disputa pela prefeitura, ele garantiu que orientaria a polícia nova-iorquina a deter o primeiro-ministro israelense caso ele pisasse na cidade. Nas últimas semanas, o prefeito mandou o departamento jurídico municipal examinar “todas as vias disponíveis” para transformar o discurso em ação.
O parecer frustrou a ambição de ir além da retórica. “Minha administração examinou todas as vias disponíveis sob a lei aplicável para determinar se a cidade de Nova York pode executar o mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional caso Binyamin Netanyahu venha para cá”, disse o prefeito em vídeo nas redes sociais. A conclusão foi taxativa. “Não temos autoridade legal independente. O governo federal, no entanto, tem”, afirmou.
Sem poder jurídico para mandar a polícia da cidade algemar um chefe de governo estrangeiro, Mamdani desloca o peso da promessa para Washington. “Concordo com o TPI que Benjamin Netanyahu deve ser preso e julgado por seus crimes, assim como acredito no caso de qualquer outra pessoa indiciada pelo TPI”, declarou. Em outro momento, acrescentou: “Qualquer pessoa com olhos, com coração, com consciência deveria reconhecer a devastação que ele causou e entender que ele merece ser levado a julgamento”.
O prefeito insiste também no recado político direto: “Benjamin Netanyahu não é bem-vindo na cidade de Nova York, assim como nenhum outro criminoso de guerra foragido”.
O mandado de Haia e as acusações contra Netanyahu
O estopim jurídico do caso está em Haia. Em novembro de 2024, o TPI expede mandados de prisão contra Netanyahu e o então ministro da Defesa israelense Yoav Gallant. Os juízes afirmam ver “fundamentos razoáveis” para acreditar que ambos têm responsabilidade por crimes de guerra e crimes contra a humanidade ligados às operações militares israelenses na Faixa de Gaza, desencadeadas depois do ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023.
Entre as acusações aparecem o uso da fome da população civil como método de guerra, assassinatos, perseguição e outros atos desumanos. As imputações ainda dependem de julgamento; Netanyahu nega cada uma delas. Mesmo assim, os mandados transformam o primeiro-ministro em alvo formal da corte internacional e criam um risco político para cada país que o recebe.
Israel e Estados Unidos, porém, não integram o TPI. Na prática, não há obrigação jurídica direta de entregar Netanyahu a Haia. Durante seu governo, Trump atua abertamente contra o tribunal e chega a impor sanções a integrantes da corte em reação a investigações envolvendo militares americanos e autoridades israelenses.
Para Mamdani, essa recusa não encerra o debate. O prefeito argumenta que existe uma responsabilidade política e moral diante da destruição em Gaza. Sua campanha por uma eventual detenção do premiê em Nova York pretende, sobretudo, expor esse contraste entre o discurso americano de defesa dos direitos humanos e a proteção a um aliado sob acusação de crimes internacionais graves.
Reação dura de Israel e risco de atrito diplomático
O gabinete de Netanyahu responde com ataques ao TPI e ao prefeito. Em nota, classifica o Tribunal Penal Internacional como “um tribunal arbitrário” e “corte de fachada”, repetindo a linha adotada por Tel-Aviv desde a emissão dos mandados. Israel rejeita a narrativa de que comete crimes de guerra em Gaza e insiste em enquadrar a ofensiva como resposta legítima ao massacre de 7 de outubro.
Na ONU, o embaixador israelense Danny Danon mira directly Mamdani. “O prefeito de Nova York está reproduzindo propaganda do Hamas”, acusa. A estratégia israelense tenta associar a crítica a Netanyahu a um alinhamento com o grupo armado palestino responsável pelos ataques de 2023.
O embate aumenta a temperatura diplomática a menos de dois meses da Assembleia Geral em Nova York, da qual Netanyahu pretende participar. A presença do premiê na cidade colocará à prova, em tempo real, o veto de Trump a qualquer detenção e a cobrança pública de Mamdani por respeito ao mandado de Haia.
Diplomatas ouvidos reservadamente avaliam que o governo americano dificilmente recuará da promessa presidencial, sob pena de sinalizar fragilidade na proteção a um aliado histórico. O prefeito, por sua vez, aposta que a pressão da opinião pública e de movimentos de direitos humanos manterá o tema no centro dos holofotes, mesmo sem poder transformar a retórica em ordem de prisão.
O que está em jogo para os EUA e para a justiça internacional
O imbróglio em Nova York vai além de um confronto pessoal entre prefeito e primeiro-ministro. Nos bastidores, diplomatas, juristas e organizações civis enxergam um teste para a relação dos Estados Unidos com a justiça internacional e com o próprio TPI. Se Washington ignora o mandado contra Netanyahu enquanto exige responsabilização de adversários em outros conflitos, alimenta o argumento de que a corte só vale para países fracos.
Ao mesmo tempo, a cena política interna americana se polariza. A iniciativa de Mamdani serve de bandeira para defensores de direitos humanos e de uma política externa mais crítica a Israel. Para apoiadores do governo israelense, o prefeito instrumentaliza Gaza para fazer “propaganda” e atacar um aliado que enfrenta uma guerra contra o Hamas.
Na Faixa de Gaza, a discussão tem outra escala. Para famílias palestinas atingidas pela ofensiva, o mandado de Haia e a campanha por sua execução em Nova York são uma das poucas promessas de responsabilização em meio a destruição e impunidade. Israel, por sua vez, vê na insistência do TPI e em vozes como a de Mamdani uma ameaça à liberdade de ação militar e à legitimidade de sua resposta ao ataque de 7 de outubro.
O próximo capítulo está marcado, ainda que sem data exata: a provável chegada de Netanyahu a Nova York em setembro. Se o premiê desembarcar na cidade, o governo Trump terá de provar que seu compromisso de blindá-lo vale mais do que o mandado de Haia e do que a cobrança do prefeito. Se ele optar por não viajar, ficará aberto o questionamento sobre o peso real da ordem do TPI e o custo político de circular por um mundo em que uma parte crescente da opinião pública o vê, como diz Mamdani, como um “criminoso de guerra” que deveria estar diante de juízes, não de delegados da ONU.